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segunda-feira, 28 de abril de 2014

o campo e a pedagogia

Nunca teve qualquer vocação para ser professora, ficar enfurnada numa sala de aula ensinando um bando de pirralho maluvido e respondão o be a bá e as malditas vogais, lhe dava arrepios só de pensar.

Carrossel não cumpriu o seu papel na infância, síndrome de professorinha Helena? nem pensar! só faria sentido na esfera do fetiche...

Professora Helena, Carrossel.

Acontece que ela passou a viajar, colocava na mochila uma rede, poucos livros finos e alguns cadernos. A "manaus moderna" passou a ser o seu local favorito de circulação... 

Antes de "embarcar", comprava um saco de estopa por dois reais, 6 litros de água, por sugestão dos medrosos, duas palmas de banana... ah... a banana é uma coisa linda: macia, cheia de massinha gostosa, evita de você ficar com câimbras (ótimas antes da pegação) e já vem com embalagem, nem precisa lavar! uma beleza!

Aí vai os critérios de escolha de uma pseudo viajante de barco... mal sabia ela que tudo mudaria de lugar:

Laranja? pode manchar, é muito ácida e não levou faca. 
Manga? Vai se sujar muito, manga lambuza tudo.
Goiaba? é mais saborosa que maçã, mas a primeira tá muito verde, pode prender... melhor não. Numa outra viagem penso melhor sobre as frutas. 

Fonte: goiaba gatona, campo, Japurá (2014)


A vontade que dá é de comprar um peixe e um monte de verdurinha... o problema é que não dá pra fazer no barco... e como eu vou levar esse peixe? e vai escorrer pela sacola... credo! não! muita mão de obra.

Uma outra ideia, seria adotar a prática da marília... das sopinhas ensacadas, o problema é que seria acusada de muita frescura e ninguém me respeitaria no barco. Ah, posso levar castanhas! descascadas né? 

Passado o momento frescural reflexivo sobre os critérios alimentares, subiu no barco com sua sacola recheada de frutinhas e água... ok, confesso: alguns cup noodles nojentinhos, nunca se sabe.


Depois do sufoco "atar rede", se espichou de felicidade ao conquistar seu mini território.
Daí, do alto da sua rede, passou a ler "Urupês, de Monteiro Lobato"... foi com toda sede do mundo, achando que ia encontrar um texto facinho, afinal, o cara é pai da turminha do sítio... nada a temer.

pausa.

frustração total! D-I-F-I-C-Í-L-I-M-O, travou no primeiro conto, "que merda!"exclamou. "pior que só trouxe esse para diversão..." ela disse. leu um, dois, três contos... chegava no final e tinha a sensação que não entendia... tentava lembrar do início e aquelas palavras não faziam sentido... ela foi direto no que a interessava. 

O último conto, de 1914, falava do Jeca Tatu, "foda-se", ela pensou. "vou ler esse direto", completou.

Leu, curtiu. 

Mas custou acreditar que aquele rebelde pensava realmente aquilo, suspeitou que ele estava zoando com Silvio Romero... ou com os intelectuais da época que acreditavam num Brasil doente.

"está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. é essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. tens culpa disso? claro que não".

retiro o que disse, nunca me senti tão parecida com o jeca quanto hoje. 

*

Por não ter outro livro, vaidade, exibicionismo, orgulho, decidiu ler o resto. 
O exemplo de osmose, daquele antigo livro de ciências que misturava o café com o leite, permeava seus pensamentos... haveria de ter uma chance...

Finalmente elegeu um favorito! "boca torta"! esse conto é sensacional!!! :D

Mas no âmago do seu ser, sabia que teria de ler novamente, se possível, em um grupo de terapia, digo, de curiosos em literatura sob a tutoria de um especialista. De amadorismo já bastavam os seus palpites.

*

Entre um conto e outro, saía da rede para tomar um "ar" e observar  o rio Solimões e a beira mais de perto... passou a identificar as plantações... banana era a mais fácil, mandioca e macaxeira precisariam de um olhar mais atento... mas com um pouco de treino ficaria uma expert! açaí e milho não ficavam atrás, aquilo estava fácil demais... 

milho cozido, bolo, canjica, mingau, macaxeira cozida, bolo, pé de moleque, farinha, tapioca, banana frita, cozida, bolo, mingau, farofa, recheio de pão, pudim de açaí, sorvete, céus... em pouco tempo, Alex Atala sentiria inveja de você.  Um banquete estava montado, até o sabor você já sentia.

No meio daquelas casinhas na beira do rio, uma delas, quando tinha, sempre se destacava... uma instituição que você aprendeu a desconfiar... "escola".

E pela primeira vez na vida, ela se imaginou sendo professora.

Teria uma roça com todas as plantinhas que lhe desse na telha e que era duramente proibida na cidade: 
"suja e a raiz quebra fossa e calçada, nem pensar!", alguns diriam.

Lá ela seria livre e faria banquetes infinitos, igual na "festa de babete"...  aquele filme que todo mundo odiou.



O sonho estava ok, mas ela não fez pedagogia... e se recusaria a alfabetizar alguém com U-V-A... ah, era só adaptar pra B-U-R-I-T-I, aí sim...

Pensou melhor e descobriu que não tinha nada pra ensinar... leu Paulo Freire uma vez na vida, só porque na época, estava apaixonada por um professor de biologia anarquista. 

Pensou em vídeo aulas, poderia decorá-las... mas aquilo pareceu fajuto demais... ela fazia mestrado e não sabia dar aulas... aquilo a deprimiu.

Resolveu deitar na rede e ouvir música enquanto seus anfitriões tiravam uma soneca. Ouviu uma das suas músicas favoritas do Chico e resolveu que faria ditados!

Ditados é um clássico! Ditado é perfeito! pensou.

Decidiu que seria uma professora de ditados... depois de ler as palavras e as coisas, percebeu que poderia pintar e bordar com aquele novo ofício.


Pegou sua versão emprestada e viu a moldura do texto de Foucault cheia de rabisco, descobriu que ali morava a saudade... 

passou pelo capítulo I e sentiu orgulho ao lembrar da leitura de "las meninas" em "prática de pesquisa", seguiu direto e parou no sono antropológico... faria sentido, mas sentiu preguiça de procurar uma citação, seus olhos encheram de lágrimas ao ver aquele esforço na compreensão do texto. sua cabeça doeu, o coração suspirou e decidiu fechar o livro, acrescentou sua xerox.

De maneira geral, Michel estudou de forma ampla e criteriosa a mudança interior em "nossa cultura" do séc. XVIII ao séc. XIX através da gramática geral... é aí que ela quer atacar, através dos ditados! inventaria significados mirabolantes até não querer mais.

Medo - capacidade de enfrentar algo muito difícil
Impossível - combustível para se conseguir algo, vale pra medo também
Governo  - forma arcaica/errônea de gerir vidas
Amor - escapar de um lugar.. (essa eu colei do Mia Couto)
Embriagados - eternos sonhadores
Mutilados - pessoas que geralmente sentem muitas saudades
Meretrizes - mulheres sábias
Riso - ir no céu e voltar
(...)

Na sala de aula diria: "vamos lá queridos, hoje ditarei o que será? (flor da terra)"


flor da terra







domingo, 23 de março de 2014

pote de farinha

- esse feijão tá uma delícia;
- é... essa calabresa defumada que dá o gosto... olha... tu quase derruba esse pote de farinha, fizeste igual ao rodrigo. ele que comprou esse.
- FOI?
- foi, ele espatifou a outra, foi farinha pra tudo que é lado... depois ele apareceu com esse pote, no meio da semana, todo embrulhado... acho que demorou pra encontrar. é super difícil achar, combina com os outros.
...
- esse milho tá super gostoso;
- também achei, a Clarinha já come sozinha, uma beleza!
...

*

Fico pensando se quebro esse pote de farinha... deveria ter esbagaçado no chão!
Uma lembrança... mais?

Continuo comendo a farinha do pote, agora com um pouco mais de cuidado...
Com tristeza, saudade e... muita raiva... e se...?

Foda-se.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

marcha das vadias 2012

- bora?
- ah, não. bando de peito feio na rua, sou mais o teu.
- tu é um ridículo, umbooooora! fiz uma plaquinha pra ti... :)
- não! tu só me chama porque ninguém quer ir contigo!
- é isso também, mas bora logoooo! poooooxa, deixa de ser chato!
é tão importante prum homem ir na marcha das vadias, tu vais perder a oportunidade de ser um homem melhor sabia? pq tu me odeia tanto?
- não vou, sério. tenho mais o que fazer.
- PORQUE TU FEZ EU VIR ATÉ AQUI ENTÃO PERDER MEU TEMPO E GASOLINA?
- queria te ver! ^^
- grandes merdas, tchau.



O convite é deste ano corrente, todxs convidadxs.

Discussão: Estatuto do nascituro (procure outras fontes);
Dica de cartaz: "estuprador não é pai" (colei de uma em BH).






quarta-feira, 9 de outubro de 2013

who is Stradelli?

Fazia tempo que não via Márcio Souza e Selda Vale.

Márcio Souza é sensacional, cansei de ver ele nos ensaios do teatro de bolso do sesc, na época em que eu e Rodrigo vivíamos zanzando por lá, Denni era o nosso favorito! 

é o meu até hoje :)

Ganhar abracinho caloroso e sorrisos desta mulher foi um caminho árduo...
À saber, Selda foi minha primeira orientadora de iniciação científica, 
sim, eu apanhei, muito. 

grata (ou traumatizada) até hoje!

O Cine Teatro Guarany, aquela belezoca de lugar, fica ao lado do Palácio Rio Negro:





Selda organizou a mostra em Manaus com todo capricho!  Acrescentou  que o filme Ermanno Stradelli, o filho da cobra grande, estava sendo exibido pela terceira vez no Brasil. chic né?

Chega a ser criminoso não saber de quem se tratava (presente!).
Vamos lá:



"Stradelli nasceu num castelo, na Itália, em 8 de dezembro de 1852. Era conde, jovem, rico, aventureiro, viajou para o Amazonas, em 1879, e aqui viveu mais de 43 anos. Com recursos próprios, percorreu florestas, rios e igarapés, aprendeu a falar o nheengatu e se apaixonou pelas histórias que os índios contavam. Coletou e registrou mitos, principalmente o de JURUPARI. No final, contraiu lepra. Com o corpo deformado pelas chagas, foi enxotado de hotéis, de pensões e até mesmo de hospitais. Morreu solitário e pobre, na periferia de Manaus, num casebre improvisado em leprosário (Umirizal) em 24 de março de 1926."

Texto de Ribamar Bessa, meu professor de história, na graduação em ciências sociais.






domingo, 1 de setembro de 2013

rádio




sabe quando você está de bobeira? pensando na morte da bezerra...
esqueceu seu pen drive em casa e teve a infelicidade de estar ouvindo a rádio...

o olho enche d'água.

simples, bobinho e muito eficaz pra um domingo.



ps: bem vindo setembro!



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

dez meses...

... de pura saudade.

- deixa nessa;
- mas já tocou mil vezes!
- essa é a mais legal :)






segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sábado visceral: ritual, substância, visões


Não tinha lido quase nada propositalmente, sabia uma coisa ou outra: "o gosto é ruim".

Num ambiente controlado, isolado e especial, pessoas fantásticas e experientes, resolveram se reunir e compartilhar um momento único com neófitos. 

Um detalhe importante: estava sem água e luz.

Velas, chás diversos, conversas e confecção de instrumento musical em palha foram os momentos iniciais. a recomendação foi preparar o corpo bebendo bastante líquido, o almoço deveria ser mínimo. as 20h começamos.

Houve a nominação, era necessário ter um dos nomes ancestrais. 

sentamos em círculo, mulheres de um lado, homens do outro. cantos, danças, curiosidade.
vinte minutos se passaram, trinta? quarenta? ao todo: CINCO HORAS. mais.

peço ajuda a Jean Langdon (1992) no texto "A cultura Siona e a experiência alucinógena":

"Deve-se atravessar três estágios para que o espírito possa sair do corpo e viajar com o xamã. No primeiro estágio, o aprendiz apenas experimenta náusea e desconforto, que podem ser acompanhados por vômitos e diarréia".

suor, espasmos, medo, merda, cheiros, vômitos, vibrações, texturas, cores, visões, dores, nojo, pavor...

sem apologias: f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.

Etnografia completa* na dissertação: RÁ!

ou não. rs


quinta-feira, 18 de julho de 2013

16 de julho



no olho do furacão,

resolvi mudar as paredes, os ares... a poeira me deixou doente e as gavetas, a caixinha verde devolvida... todas carregadas de lembranças, me deixaram pesada e perdi a vontade de falar, de escrever... que problema!

se aceitar a ignorância é o que resta, o jeito é esperar a vez.

que pare de doer,
cuida do coração dela, dele, da pequena que cresce, do meu.





perdão

sob o céu do madeira...



domingo, 7 de julho de 2013

Playa Ancón, Cuba: diários de bicicleta


Na época em que  você tinha aulas de espanhol, a professora pediu para cada um da turma escolher um filme e fazer uma mini apresentação sobre ele... na empolgação total, você escolheu diários de motocicleta.

lembro que peguei todas as imagens que selecionei rigorosamente e mandei imprimir em papel de foto, fiz um painel, letras em caneta nanquim... tudo no maior capricho, o filme de Walter Salles merecia todo o respeito.

Gael Garcel está LINDO de viver, e eu passei a ME imaginar fazendo uma viagem como essa enquanto plano secreto. Tudo bem que moto quebrada, quedas, caronas e possíveis estupros, sim, a mulher ainda é a mais violentada, desanima um pouco, mas ok, a paisagem é linda e... sua carne é fraca e vai assim mesmo.

Dando continuidade à viagem mais incrível do mundo, a noite de  Trinidad é repleta de casas de show e escolas de dança! a gringarada se matricula nas aulas, treina uns dois, três dias e arrasa à noite nos mini festivais de dança e música que rolam pela cidade... uma delícia!!!

Trinidad, maio, 2013

Depois de se acabar de dançar, ou tentar ao menos, esse pessoal é muito profissional pro seu gosto... rs, você vai dormir com a sensação que ainda tem muito que aprender nessa vida, inclusive ter um remelexo que preste, igual daqueles corpos lindos em movimento... AMEI!

Pela manhã em Trinidad, seguimos a dica do lonely planet e fomos procurar alugueis de bicicleta pra chegar na Playa Ancón, que fica uns 18 km de Trinidad. De boca em boca, encontramos uma pessoa que nos alugou por 3 CUC´s...  e demos início ao meu plano secreto de fazer um "mini diários de bicicleta"... tudo bem que na versão correta acontece na américa do sul... mas quem se importa? isso é apenas um detalhe e você está no país que Chê escolheu, oras!

graças à modinha irritante de andar de bicicleta em Manaus, da sua irmã linda e seu cunhado que é educador físico respirarem essa vibe, você conseguiu se equilibrar na magrela e saiu fazendo graça naquelas ruas de paralelepípedos... que maravilha! sua bunda tem lembrança desse dia até hoje.


Trinidad, maio, 2013.

Já no finalzinho de Trinidad, tivemos que parar com a bicicleta pois havia um aglomerado de pessoas... bem na nossa frente e alguns carros tentando passar... o quarteto de antropólogas quase tiveram um siricutico tentando adivinhar do que se tratava... Roger Bastide entraria em colapso com tal "coincidência"... será mesmo só isso? tenho minhas dúvidas.




velhos, jovens, crianças, mulheres, homens... todos vestidos de branco, cantavam, dançavam... aproximadamente umas doze pessoas carregavam nos ombros uma caixa de madeira pintada de preto do tamanho de um adulto... faziam um zig zag no ritmo dos "batuques", como se estivessem costurando a rua... muito impressionante. As mulheres choravam e batucavam a caixa preta de madeira, os homens tocavam os instrumentos de percussão... de repente vi um sorriso lindo na minha direção, sorri de volta, um riso consentido de "sinto muito"... recebi um outro de "obrigada". nunca vou esquecer essa sensação, fiquei muito emocionada.

depois de uns dez minutos imersas na cerimônia, saímos dali... e demos continuidade à viagem de bicicleta rumo à praia!

Saindo da parte mais urbana de Trinidad, a paisagem muda, e agora o cenário são campos, árvores, montanhas e uma estrada incrível... ladeiras - descidas - muito vento na cara e pouco esforço, muito obrigada lonely planet, suas dicas foram geniais.


Ufa!





A playa ancón é paradisíaca, fiquei de bubuia naquela prainha cujo cenário era uma areia bem fininha, aquele azul de mar irritante e montanhas ao fundo... minha única preocupação era não deixar a água entrar no meu ouvido ou pisar numa pedra-bicho... ê vidão!




Na volta achei, honestamente, que ia morrer... descobri que o meu condicionamento físico tava uma merda, tava com sede, fome, as ladeiras maravilhosas de descida na ida, viraram subidas escabrosas que o meu corpinho quis pedir arrego milhões de vezes... aquelas velharias lindas, não tinham marcha ¬¬...

as belezocas

entre Trinidad e Playa Ancón

"quis" chorar, desistir e pedir carona... mas fiquei sem coragem, naquela altura eu era uma moça seduzindo total só com a parte de cima do biquíni e um pedaço da blusa cobrindo o resto, com os rumores de crimes que aconteceram na Índia na cabeça, achei melhor não arriscar.

Depois da sensação de morte iminente, finalmente consegui chegar e devolvi a bicicleta.
(...)
Definitivamente, essa experiência foi pra lá de visceral*, em todos os sentidos.


* vá na página 19, o texto é maravilhoso!












sexta-feira, 7 de junho de 2013

desenhos visionários


Cristina Gonçalves, 2009 (instagram)


Fiquei o dia pensando numa pintura que vi no instagram, hoje.

Vez ou outra vinha na memória aquela sandália preta toda trançadinha no pé da menina e aquele gatinho que olhava pra traz... ele olhava pra quem? pra onde? arrisco dizer que lá é bem mais interessante que aqui, os gatos tem sempre razão.

o azul estava bonito, aposto que se você olhasse rápido... jamais perceberia que estava chovendo, a não ser pelo tamanho do guarda chuva e as poucas gotas que caem ao lado da moça.

Hoje eu li um texto da Angelika Gebhart-Sayer, sobre desenhos, sonhos e visões (...) ela fez a pesquisa entre os índios Shipibo-conibo. Além de bonito, achei muito bem escrito...

Dentro de um contexto específico, ela falou que o desenho é a "domesticação" de um mundo invisível/espiritual... e nesse mundo, a frequência  é caótica e as informações são incompreensíveis.

E é exatamente assim que eu me sinto hoje, nesse mundo caótico, incompreensível e molhado... a chuva não passa, vez ou outra ela vem conferir o seu grau de encharcamento...

eu já ensopei! já chega!

mas ela é insistente... está o tempo todo te testando, um abuso.

o que sobrou é a paciência e a esperança que ao menos um dia você construa aquela sombrinha rosa e imponente, igual ao da menina da pintura.

obrigada cris!

:*

pintura original:

Cristina Gonçalves, 2009



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Cayo Guilhermo

antes de qualquer coisa:
nenhuma imagem, nenhuma descrição, consegue mensurar esse lugar... eu tento porque sou gaiata e tô treinando a escrita... faça um favor a si mesmo um dia na sua vida: vá! :)

Saindo de Camaguey e depois de insistir um bocado, tentando provar para a mulher da agência de turismo que o seu translado para o hotel em Cayo Guilhermo estava incluso,  você finalmente consegue entrar no ônibus e ir em direção ao lugar que, obcecadamente, você quis conhecer: o paraíso do seu amigo Ernest Hemingway.

depois de algumas horas, a distância entre Camaguey e Cayo Guilhermo é aproximadamente  uns 200 km, você começa a notar que aquele ônibus japonês tem janelas estranhas SEM trava de segurança... sim, seu cérebro doente não ficou em Manaus... e isso te rendeu boas horas de angústia e alucinação nos possíveis acidentes... imersa nesses pensamentos tenebrosos... você é abruptamente surpreendido por um a estrada de mar!

Estrada que leva aos Cayos, maio de 2013

Gente, o que é isso? respire e acredite profundamente que você merece aquela estrada... nem pense no impacto ambiental que aquilo causou (e não foi pouco), e tenha ataques eufóricos com aquela água degradê... azul, verde, turquesa, sei lá! tente lembrar das descrições de Malinowski naquele arquipélago horroroso.

é muita lindeza nesse mundo!!!!
juro que não pensei nesse ônibus caindo nessas águas, com janelas "lacradas" ¬¬

Depois desse "aperitivo", você finalmente chega ao prato principal, aquele resort que vai te propocionar três dias de dondoca nas terras de Fidel... todas as refeições, OPEN BAR ALL DAY, lanchinhos infinitos, passeios, massagem (é paga, ódio!)... e aquela paisagem sem graça pra você se distrair.

Cayo Guilhermo, maio de 2013

a partir daí, você faz algumas reflexões e chega a algumas conclusões rápidas:

apesar de você só terminar de pagar o seu carro de terceira mão em agosto, viver com três reais de gasolina no tanque, ser bolsista do CNPq e ter escolhido ser antropóloga pra sustentar seus vícios e frescuras, hábitos de moça gata, macia, trabalhada em academia e estudiosa, você conclui que não precisa ser milionária para estar nesse lugar. um bom guia turístico nas mãos, amigas MARAVILHOSAS (Julia e Camila), fazer escolhas em BAIXA TEMPORADA e um pouquinho de coragem, te levarão bem longe.

Caminhando pelo hotel, percebi que no fundo tinha um muro azul, parecido com o do Selva Park... aquele balneário mara que você curtiu horrores quando era criança... e um restaurante de nome "o velho e o mar" com uma estátua na frente. O "muro" era aquele mar de cores estonteantes... e a estátua, era daquele escritor que te salvou várias vezes... desde o fatídico mês de outubro.

Meliá, maio de 2013

Deu pra entender um trisquinho o porque dele ter decidido morar por tantos anos nessa ilha incrível. É inacreditável a beleza e a sensação que esse lugar proporciona, chato que o seu parâmetro de paraíso vai ficar bem alto de agora em diante...





segunda-feira, 13 de maio de 2013

os guarani de palhoça

parecido com esse, na av. getulio vargas.


antes do festival (oportunista) de cinema francês:

A -  quem já leu o texto de arte e xamanismo?

B - eu ainda não...

C - eu comecei e...

A - nossa, eu não sabia que os Guarani acreditavam em reencarnação...

C - eles tem uma espiritualidade muito grande...

A - tem uma parte, que a mãe de uma menina, sonha que o pai dela vai voltar... daí a menina fica grávida e passam a chamar o guri de vovô... rs

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são sete horas, estou de férias, vou dormir mais um pouco.

ZzZZzzZzZzZZZZzzzzzzZZZZZzzzzzZZZzz

B: acho que é aqui, nesse prédio... é aniversário do Kinjy...

C: mas tu sabes o endereço? o número?

B: não, só sei que é nesse prédio... vou chamar alguém pelo interfone e pergunto

Z: oi, o que querem?

B: o aniversário de um amigo é aqui, só não sei onde é o apto...

Z: tudo bem, entrem, a gente procura. Só não façam barulho que ela tá morando aqui comigo... estou cuidando dela, ela ficou muito triste depois da morte do filho e tá por aqui.

B: (pensei) não quero falar com ela agora... sentei num banco e chorei um pouco olhando pra um quintal arborizado...

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apareceu e ficou em pé, do meu lado, de calça jeans e blusa de botão listrada, azul clarinho:

R: oi, tudo bem?

B: ooooi! que saudades! :D

R: pois é, ela não tá muito bem, tem pouca luz sabe? a mamãe ainda está muito triste...

B: mas e tu? como é? me conta tudo!!! tá tudo bem?

R: ahhhh, é tudo muito legal... (sorriso lindo no rosto) e tu tem muita luz sabe? a gente vê daqui... é impressionante...

B: sério!? senta aqui! me conta como é isso!!!

R: tá curiosinha! te conto.

acordei.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

a moça e o rio


Escolher os livros que você irá levar para o “campo” é sempre uma tarefa difícil... 

não estou falando nem dos necessários para sua qualificação, digo dos que irão te distrair∕divertir. Você nem sabe se terá tempo ou saco para lê-los, afinal, socializar com a galera faz parte do trabalho... uma outra coisa é o peso da sua mochila...

aulas de etiqueta: apenas você é responsável pelo que leva. não peça ajuda para carregar SUAS coisas. Não seja a dondoca do barco, por favor.

Fiquei na dúvida entre os de sacanagem, os guias de viagens e literatura. Nessa ordem. Os de sacanagem, por motivos óbvios. os de viagem, pra deixar você por dentro da cidade mais incrível ou os de literatura, sanando assim, sua doce obsessão por Ernest Hemingway

Levei o velho e o mar*:



Uma das coisas que te faz legal é você não ignorar os “pesquisadores” em detrimento dos livros... eles podem te julgar, te sacanear e dizer que você só quer aparecer. Tenha cuidado e jogo de cintura, não finja que os jogos de poder não existem, lembre-se da microfísica de Foucault. 

A oportunidade de ouro é quando a equipe resolver ligar o computador. Não seja estranha. Um outro horário bom é após as refeições, aproveite a luz do dia, assim você se esbalda na paisagem e lê a saga de Santiago nas correntes do Golfo, com aquela vista pro rio madeira... é muito prazer minha gente!

O velho e o mar (1952) ganhou prêmio nobel de literatura, dois anos após a sua publicação. 

Daí você se pergunta, como um monólogo munido de algumas narrações consegue ser tão convincente?

Hemingway defendia uma linguagem simples, frases curtas, construções claras e poucos adjetivos. Aparentemente essa é sua fórmula. funciona, emociona.

Santiago (o velho) fisga um peixe de cinco metros e está sozinho em alto mar. A relação entre ele e o peixe é de deixar qualquer etnólogo perspectivista no chinelo, viveiros de castro pira! 

Tânia Stolzen (link, um peixe olhou pra mim) ficaria comovida com a homenagem:



Spoiler de "o velho e o mar":

Apesar do sofrimento, da dor nas mãos e ombros sangrando pela força do peixe, do atrito com a linha, do cansaço, da saudade... “mas o rapaz não está aqui”, pensou. “você só tem a si mesmo, e agora o melhor que tem a fazer é chegar àquela outra linha, no escuro ou não...” (pg. 47)... Santiago não corta a linha que o liga ao peixe, mantém a luta. Para ele, lutar é resistir e assim permanece por dias e dias.

a moça continua, não se sabe ao certo qual peixe que encontrará no madeira, no purus, no solimões, no tapajós, no negro, no amazonas, autaz mirim, onça vermelha (...) mas definitivamente, ela não cortará a linha... nem arrancará o anzol. 

Santiago não ensinou só a Manolín. 
Sigo na obsessão, o próximo será “por quem os sinos dobram”.

Boca do madeirinha, em 22 de abril de 2013 - 10:21

domingo, 28 de abril de 2013

vinte e oito de outubro

não tenho sinal de internet. não irei à missa de seis meses na nossa senhora de nazaré as 19:00, não chorarei baixinho, não abraçarei  a pequena mais linda de cabelos compridos, nem a sua mãe... 

estou não sei onde, igual naquele sonho que tu estavas junto de uma equipe de pesquisadores num barco recreio, com mochila nas costas, blusa azul clarinho e bermuda, em algum rio de águas escuras. a equipe era grande e lembro de um velhinho orientando você.

todos sentaram numa praia... me juntei à vocês. eu já sabia que você não existia. ficava repetindo na minha cabeça "ele vai morrer, ele vai morrer, ele não sabe... vou abraçá-lo enquanto eu posso".

sentei do lado e abraçava/apertava/beijava muito, muito, muito. me olhou rindo, desconfiado, satisfeito... e balançando a cabeça: "essa menina é engraçada... vai entender..." 

nesse dia, criei o blog.

(...)

- mamãe cantava essa música pra eu dormir quando era pequeno:








quinta-feira, 11 de abril de 2013

amasso não é pegação

Os Ombros que Suportam o Mundo 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade


Você não é niilista, você só quer uma massagem.

faça um teste: coloque "massagem" no google e conte quantos negros aparecem nas imagens... surpresos? reflita.


apesar do primeiro tópico da pesquisa no google aparecer "Fernanda do prazer" não é desse tipo de massagem que eu tô falando. é daqueles amassos no corpo sem pegação. deu pra entender? vejamos.

dentre outras coisas, a massagem está na lista das dez "atividades" mais fantásticas que dá pra fazer com/no corpo. parece que o ódio, raiva, tensão e o desespero diário vai se esvaindo junto com o deslize daquelas mãos lindas, que resolveram amassar você.

se você fica constrangido com aquelas cadeiras no shopping/espaços públicos e aquele sexo casual é muito casual..., lembre-se que você tem uma fonte de prazer na sua família! sua irmã é fisioterapeuta... aliás, eu já disse que ela é linda, educada, carinhosa, fantástica, inteligente e NÃO É MASSAGISTA! é um absurdo  essa confusão! rs, ela só ama muito sua irmã e vez ou outra aceita três reais pra fazer massagem nela, com todas essas técnicas legais que ela aprendeu na faculdade... heheheheh

implore, chore, fale que a sua vida tá uma merda, que sofre todos os dias, que sente saudades, que vai morrer qualquer dia desses, que pode dormir no volante, que pode se afogar, que as pessoas são insensíveis e maldosas, que você PRECISA "olhar, ouvir e escrever"... e desencruar sua qualificação,  que uma massagenzinha de nada, vai te aliviar do peso do mundo...

mana, 

te amo.

:*





quarta-feira, 10 de abril de 2013

classe média: way of life*

Desde 2009, seus amigos queridos e sacanas te apresentaram esse blog sensacional classe média way of life. Até aquele momento, você nunca tinha lido algo tão legal e original sobre a coitada da classe média. naquela época, as eleições e as propagandas pró e anti-lula estavam bombando e tínhamos que zoar com tudo, claro!

era simplesmente viciante ler todos os posts e ficar rindo um monte sobre todos os detalhes do texto com a equipe mais fuleira do mundo em qualquer buteco sujinho!

ahhh que saudade! 

no início dessa semana, a professora de prática de pesquisa nos informou que teríamos um curso de fotografia... é impressionante meus sentimentos com essa técnica: euforia e angústia. nessa ordem.



euforia pelo fato de finalmente ter a possibilidade de aprender a fotografar que preste! sua profissão exige que você tire um retrato minimamente apresentável, não borrado e enquadrado... mas nem isso você consegue... "diafragma, obturador, iso..." você já domina toda uma linguagem técnica pra se exibir... mas não sabe usar! eis que bate a angústia. 

pensando a respeito, lembrei de um fuleiro mor: o incrível Pierre Bourdieu!  ele diz, dentre outras trocentas milhões de coisas que a classe média se encaixa, que a fotografia é uma "arte média"... fica mais fácil entender isso com texto o camponês e a fotografia

selecionei algumas citações para ilustrar (eu tive que digitar, favor LER): 

Como sinal de status, a prática fotográfica não pode senão exprimir um esforço para alguém se elevar socialmente. Essa vontade de distinção é contrariada pela lembrança das raízes comuns: "Nós sabemos de onde ele veio". "O pai dele usava tamancos"13

Considerado um luxo fútil, a prática fotográfica seria considerada para um camponês uma barbaridade: entregar-se a tal fantasia seria mais ou menos como um homem dar um passeio com a mulher numa noite de verão, como fazem os aposentados da vila: (grifos meus)

Isso é bom para os que estão de férias. Isso são coisas da cidade. Um camponês que andasse com uma máquina dependurada no ombro não seria mais que um cavalheiro fracassado. É necessário mãos delicadas para mexer naquelas coisas. E o dinheiro então? É caro. Toda aquela parafernalia custa uma fortuna! (F.M)

13 "Ele quer tirar fotografias! Está se tornando um verdadeiro senhor. não está? Daqui a pouco vai estar tirando fotografias dos porcos e do chiqueiro". "Seria melhor se trocasse o arado e aquele miserável par de vacas que ele tem para lavrar!" "Um aparelho daqueles, e com aquele terno horrível!" (pg. 36)

o texto tem vários fragmentos interessantes, mas estou com sono. o artigo está linkado, deixe de preguiça e leia.

vale ressaltar, que essa pesquisa foi feita numa aldeia no sudoeste francês, na Paris dos Trópicos é bem diferente, não se ofenda. na altura do campeonato, a única coisa que importa é que você tem total vocação para aposentada...





quinta-feira, 28 de março de 2013

5:30

tem duas semanas que eu tive que reler alguns capítulos, que eu nem lembrava mais, do pensamento selvagem. é sempre difícil pegar nesses livros dos primeiros anos de graduação. A biblioteca dele ainda não estava recheada e nós vivíamos nos emprestando. Naqueles anos iniciais, Foucault e Lévi-Strauss eram seus favoritos. em contra partida, eu emprestava os seus de literatura, era impressionante a quantidade de livros que aquele recém vestibulando tinha. 



é pra ti, de presente. foi a Nicia que pediu pra eu ler: 


esse foi o primeiro. emprestei? não o encontrei por aqui. quem ler este blog, favor devolver.

Voltando ao pensamento selvagem... nas primeiras páginas, logo vejo um adesivo de algum amiguinho do pokemón... e um recado dizendo " *tentei ler ;) " nas seguintes, relativas ao capítulo um "a ciência do concreto", o puro rabisco. 


vai ser pesado continuar a ler esse livro, será que tiro xerox e o evito? não.

- poxa, o meu livro tava novinho, porque tu riscou e colou esse adesivo? eu nem gosto desse desenho! bem que tu podia fazer caligrafia hein? eu não entendo nada!

o ofendi, feio! 

pegou a borracha, muito puto, e apagou porcamente!

- TÁ RIDÍCULO ISSO AQUI, FICOU PIOR! completei delicadamente.

fiz as pazes enviando pelo correio, um caderninho de caligrafia, funcionou.

hoje, como castigo de cinco meses, eu tento adivinhar o que tá escrito naquele garrancho semi apagado na moldura do texto... 

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