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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Los dulces clandestinos

- Vocês já sentiram aquele cheirinho de bolo no caminho da pink line?
- Já, é pra disfarçar o preparo da metanfetamina [C10H15N]. Já viu Breaking Bad?  


Jimmy renda-se, ouça alto, essa música é foda.
[Tomzé sendo gênio, em 72 também. rs]

Acordei cedo e esperei o relógio marcar 8:00. Muito bem, na vida real, acordei sabe deus que horas. Comi rápido e saí já meio atrasada, faltavam 8 minutos para o 60 blue island passar. Decidi que não contaria à ninguém que iria ao local do crime, na morada da fumacinha da perdição. 


Segundo informações seguríssimas, o [C10H15N] é muito potente e altamente viciante, causa euforia, aumento do estado de alerta, da auto-estima, do apetite sexual e intensificação de emoções. Exatamente a descrição dos efeitos de um brigadeiro no sangue de seres humanos com o paladar altamente apurado.

Tentei fazer todo o trajeto em menos de oito minutos, mas não foi possível. É muito pano pra colocar no corpinho até sair de casa! Aff!!! 

A arte da bisbilhotagem é algo que merece respeito. Depois de me cobrir com todos as camadas necessárias pra não morrer, segui em direção à portinha branca. Eu tava pronta pro crime: a cada passo que dava, tinha a convicção que naquela casinha eles compartilhavam do mesmo amor delito que o meu, da mesma contravenção, do mesmo ato delinquente,  todas as vezes que passava na frente do alley.  Obstinada e cega de certeza, puxei a porta e entrei esbaforida de emoção em conhecer os tais criminosos, meus semelhantes.

- Hola, hay dulces?
- Sí! ¿qué quieres?
- Todos! :D 

- wait! I don't have cash! : ~

[...]

- No se preocupe, voy a tomar uno de cada uno para usted.

Os doces criminosos são: Marina, Cocada, Dulce de camote, Alfajor, Dulce de tamarindo:





Vou especificar cada uma deles.

O Dulce de Camote é uma espécie de batata rosada que nunca tinha visto. Você as descasca e coloca para ferver na água com açúcar, canela e outras especiarias, vai depender de quem as faz. Ao morder o Camote, percebi que tem uma casquinha caramelizada que contrasta com o a textura macia da batata cozida. A parte interior é adocicada de forma suave, com muitos ingredientes combinadinhos no cozimento, o aroma é incrível. Elas tem tamanhos assimétricos e o conjunto fica disposto como pedras preciosas nas prateleiras. No momento que as observei, as janelas sujas e mal feitas que as conecta com o alley, deixavam entrar uma luz bem bonita sobre elas, foi lindo de ver.

O Alfajor tem como ingredientes principais açúcar, coco e uma pigmentação forte na cabeleira. Um rebelde! Cria uma atmosfera divertida em torno do docinho sabe? Fiquei imaginando em quais ocasiões eram confeccionados... quantas alegrias teriam ocasionado aos olhos atentos para uma bela surpresa desse rapazinho vestido de branco e cabelos rosados, pronto pra brincar. Certamente é o palhacinho da festa.

A Marina... ai, ai, ai... é próxima do doce-de-leite e dissolve na boca assim que você dá uma mordidinha... aprovada com louvor e direito a grito de torcida alucinada! hahahahaha. Além de deliciosa, ela tem carinha de festa também! Por vir toda marcadinha com um desenho espiralado, imaginei que ela tenha sido uma cobrinha antes de ter uma aparência de biscoito. A amêndoa faz a coroação da nossa rainha. Que belezinha! Nem precisava estar tão elegante assim, é uma vontade de beleza que nem sei explicar. <3

A Cocada tem formato de brigadeiro e é bem mais macia das que estou acostumada a comer, essa foi a favorita da Ana. Por sorte e muita agilidade, consegui tirar um pedaço antes que ela devorasse o docinho inteiro. A cocadinha redonda fica durinha por fora, provavelmente é posta pra assar porque a bundinha dela vem meio escurinha e ela tem uma barriga fofinha de quem cresceu com o calor, e um leve dourado na parte de cima. O miolo é macio e foi uma delícia tentar adivinhar o que tinha ali pra deixa-la do jeito que é.

O Dulce de tamarindo merece um tratado só pra ele! Ele é um camaleão na boca! Vem com uma carinha inocente, embrulhadinho no papel celofane e disposto numa colher, como se fosse uma lembrancinha de aniversário de criança. No entanto, suspeitei que tinha acidez e açúcar envolvido desde o princípio. Sua apresentação pessoal me lembrou muito o doce de cupuaçu. Peguei uma faca e tentei arrancar um pedaço pra provar. Eis o relato: Doce, ácido, tamarindo, azedo, ácido, azedo, lágrima nos olhos, vou morrer, adocicou, ardeu, ARDEU, adocicou de novo. fim! Que montanha russa! hahaahahah

Um pregador de peças, esse é o Dulce de Tamarindo. Certeza que minha mãe vai amar!

Segue o elenco quiebra-ley:

Dulce de Camote

Alfajor

Marina

Cocada

Dulce de tamarindo

O café da minha avó Ana, era um dos mais doces do mundo, se alguém a questionasse, ela dizia alto e em bom tom: "de amargo já basta a vida". Eu nunca gostei de café, mas nunca esqueci essas palavras dela. De alguma maneira, ela dizia que o doce é um agradinho na alma, vai bem mais fundo que uma simples prazer nas papilas gustativas.

Em que planeta vivemos, no qual um punhado de cretinos faz com que essas pessoas amáveis, gentis, generosas, com um conhecimento sofisticadíssimo sobre doces, numa relação primorosa com os ingredientes, sejam tratados literalmente como criminosos? Faz parte do plano de manter essa farsa de fronteira e nação?

Não há teoria economicista neo caralho a quatro que fundamente isso! É tão revoltante, baixo, inescrupuloso, inaceitável, injustificável, odioso, asqueroso.

Um aviso aos white collar: água, coco, tamarindo, açúcar, manteiga, galinha, canela, ovos, vaca, leite, batata, macaxeira, babaçu, castanha, açaí, bacaba, buriti, tambaqui, matrinxã, cará roxo, tucupi, camarão, costelinha... isso não vem em saco de cimento, não dá em prédio de concreto, nem em gasoduto, nem hidrelétrica! seus pulhas!

Mastiguem pedra, comam carvão, barro!

É isso que está reservado à vocês seus merdas!


Protesto na State Street, Chicago, 12 de novembro de 2016.


Motivo do protesto: "A construção deste oleoduto de 1.600 km e que atravessa quatro estados está a cargo de uma companhia texana e pretende transportar o petróleo até Illinois, destruindo os mananciais de água de muitas reservas de nativos americanos, além de destruir zonas consideradas sagradas há gerações".

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

I have a nightmare*...

Martin Luther King, Jr. I have a dream* speech

No dia 08 de novembro de 2016, durante minha aula de inglês, houve a votação presidencial dos Estados Unidos. A disputa foi entre Hillary Clinton e Donald Trump. Professora Helena entregou um jornal impresso News for you, para cada um de nós, os alunos. A manchete principal era Clinton vs. Trump: Where They Stand on the Issues

O plano de aula era que discutíssemos sobre o conteúdo após a leitura. A descrição dos candidatos era a seguinte:

Clinton has been working in politics most of her adult life. She was first lady of Arkansas when her husband was governor of the state. She was first lady of the U.S. when Bill Clinton served as a U.S. senator from New York. Her most recent role was as the nation's secretary of state. That was during President Barack Obama's first term. 

Trump is not a politician. He is a New York businessman. He owns hotels, clubs, and buildings around the word. He also was on a TV reality show. He says business skills will make our government work better. He says they also will help him  work with world leaders. 

O texto do jornal seguia com os seguintes tópicos: The U.S. and the World; Trade; The Economy; Health Care; Education




Recentemente, um time de basebol, esporte muito popular entre os americanos do norte, ganhou um campeonato "mundial" após 108 anos de amargura. O Chicago Cubs venceu o World Series. Na época do Haloween, foi impossível sair de casa porque a cidade simplesmente parou durante a partida final. 

Agora vamos brincar do jogo dos sete erros. O significado de World Series, ao pé da letra, é "Séries Mundiais" certo? certo. Conversando com alguns nativos, me explicaram que o jogo é disputado entre os campeões da Liga Nacional e da Liga Americana. 

De acordo com o meu jogo de tabuleiro favorito, War: o jogo da estratégia, aprendi que o mundo está geopoliticamente dividido em seis continentes: Oceania, África, Ásia, América do Sul, América do Norte e Europa, com vários países em cada um deles. Alguns classificam o mundo em sete continentes [Antártida]. Pra encerrar essa discussão, uma pessoa sensata escreveu que "não existe uma única forma de fixar o número de continentes e depende de cada área cultural determinar se duas grandes massas de terra unidas formam um ou dois continentes". 

Um saudoso beijinho na minha comadre Mara que amava chacoalhar a porra do
mundo quando estava perdendo! hahaahahah quem nunca?

War da minha infância

Certo dia, papai apareceu com esse jogo para aquele bando de meninas ávidas por novidade e uma boa arenga. Inicialmente, eles [papai e mamãe] leram o manual, explicaram pra mim e Lissinha [Julinha nem era nascida] e jogamos a primeira partida juntos. Havia também, umas cartinhas que você tirava e lia para que os seus objetivos fossem alcançados até o final da partida. Parecia um joguinho legal e inofensivo...  

Na manhã seguinte, eu e minha irmã espalhamos a novidade para nossos tios, tias, primas e primos. Um bando de marginais manauras que iam conquistar o mundo estava formado: Mara, Fábio, Bia, Silvis, Vivi, Waguinho, Su, Lissinha, Ítalo e eu. Queríamos sangue, ódio, arenga, baixaria. E assim o foi. Na primeira rodada, descobri que o mais estratégico era conquistar a Oceania. Era pequeno, discreto, e uma fonte inesgotável de soldados vermelhos. A Austrália ficava isolada e as duas ilhotas me permitiam ter um início estratégico pra dominar a Ásia inteira... que triunfo era esse continente amarelinho...

Os jogos começavam. Os dois dados eram lançados:

Primeira rodada: seis, seis! pensamento: vou ganhar essa caralhada toda e vou destruir o exército verde. 
Bando: sua cagada! vai já perder, nem canta vitória.

Segunda rodada: seis, cinco! pensamento: tô indo bem, se eu conquistar a América do Sul serão duas fontes de exércitos vermelhos.  
Bando: silêncio.

Terceira rodada: um, dois! pensamento: puta que pariu! FUDEU!  
Bando: KAKAKAKAKAKAKKAKA [hienas] parece que o jogo virou não é mesmo? Tem alguém com medinho aqui? [risada coletiva e estrondosa] VAI PERDER! VAI PERDER! VAI PERDER!

Eu: NÃO VOU PERDER MERDA NENHUMA, E SE EU PERDER NINGUÉM MAIS JOGA [150 decibéis]. 
Bando: VAI PERDER! VAI PERDER! VAI PERDER! [220 decibéis]
Minha irmã: VAI TODO MUNDO JOGAR SIM, PORQUE O JOGO NÃO É TEU! [250 decibéis]
Bando: CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! [350 decibéis]

Eu: silêncio, sangue nos olhos, fogo nas ventas, uma lágrima de sangue escorreu: ninguém viu.

Quarta rodada: um, um! 
Bando: A BANANA PERDEU!!!!! [RISADA COLETIVA E HISTÉRICA] CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! [400 decibéis]
Eu: Tudo bem gente, é normal perder, isso é um jogo  [23 decibéis]. Levantei com a delicadeza de uma princesa que caga bolinhas de brigadeiro. Puxei o tabuleiro, todos os soldados caíram e saí correndo, chorando e gritando:

EU ODEIO VOCÊS! NUNCA MAIS BRINCO COM VOCÊS, ESSE JOGO É UMA BOSTA, ODEIO, ODEIO, ODEIO!!!! VOCÊS NÃO PRESTAM, TENHO NOJO DE VOCÊS!!!! [450 decibéis]

Depois de assistir Glub glub, O chaves e o Mundo de Beakman, por umas duas horas na casa da vovó Ana [longe do território sanguinário], voltava onde as hienas estavam e dizia com a fineza de um bode: QUERO BRINCAR, AFASTA PRA EU SENTAR AÍ AGORA! [250 decibéis] 

Glub, Glub

Bando: Tá preparada pra perder de novo banana arengueira? 
Todos riam, inclusive eu: Até parece que eu vou perder pra vocês!
Bando: Espera essa rodada terminar que tu tá muito abusada, aprende com quem sabe.

Simples <3

Muitas amizades são desfeitas durante um tradicional jogo de WAR, porém o importante é que se reate a amizade depois do jogo. Muitas alianças também são criadas durante o jogo, buscando benefício para os próprios aliançados, mas logo depois são desfeitas (sem aviso prévio) normalmente pelo que está mais forte o que gera novamente a "desfazedura" das amizades." 

O terremoto é a última estratégia utilizada por jogadores que já não se veem mais em condições de vencer, ou quando se sentem injustiçados perante seus adversários. Tal jogada consiste em simular no tabuleiro um terremoto real, agitado-o o mais rápido que puder, causando efeitos catastróficos irreversíveis. É um movimento tão fatal que, em 99,83% dos casos implica em um final trágico para a partida. Apesar de seu grande poder de destruição, tal movimento apresenta alguns efeitos colaterais. [Fonte: desciclopédia]

*

Esta brincadeira nada inocente, é um fato trágico e real nesta terra que vos falo [e em outras também, inclusive o Brasil. Explorar o outro e manipular países não é uma exclusividade... ao que tudo indica]. O fato, é que o mundo não é um punhado de estados norte americanos, como este campeonato de baseball teima em afirmar. O mais bizarro ainda, pra corroborar com toda essa doidice, é existir um documento que se chama Alien registration card, uma espécie de green card temporário que te dá direito à "cidadania" e uma cambada de direitos mínimos. ALIEN! 

Não nos surpreendemos. O que impressiona é a naturalidade com o que a "política externa" norte americana vem falando e agindo sobre outros países, tal como no jogo de tabuleiro da década de 90, como se de fato fossem outros mundos, no sentido pejorativo. Voltemos ao jornal do be-a-bá: 

Clinton prefers diplomacy (dihPLOH-muh-see) [ahãm, quem não te conhece que te compre]. That means talking and creating partnerships with other nations. She thinks it is a good tool that reduces the chance of war. 

Trump wants to think about America first. That means partnerships would only be created if the U.S. gets the most benefit. Their different views could affect the fight against the Islamic State. They could also affect relationships with China and Russia. 

Alguém avisa que isso não é nenhuma novidade? Que ridículo... 

Helena relatou sobre as possibilidade reais de "imigrantes ilegais" serem expulsos do país, ou deportados, como seu pai o foi, de acordo com o seu próprio relato, erroneamente. Não houve nenhum pedido de desculpas ou ressarcimento pelo engano. 

Todos ouvíamos com atenção e preocupação.

Hoje, na Universidade que tenta ser a mais inclusiva e multiétnica de Chicago, o clima era de tristeza absoluta. Amigos se abraçavam, usavam o espaço da cozinha para comer, beber e discutir sobre o que aconteceu para que chegassem a este resultado, aparentemente, não esperado. 

Turma da Mônica, Maurício de Souza.

Uma das professoras, durante uma palestra marcada para as 14:30, ao tentar consolar alunos que choraram durante suas argumentações sobre a vitória de Trump, mencionou que deveríamos nos espelhar nas populações do norte do Brasil, por exemplo, nos povos indígenas do Amazonas, que sofreram e sofrem todo tipo de exploração e assédio continuados e ainda sobrevivem. 

Para além da retórica benevolente de países imperialistas, fico matutando sobre os significados de estar no olho desse furacão... 


terça-feira, 9 de agosto de 2016

As vinhas da ira, The grapes of wrath


"E à noite acontecia uma coisa estranha: as vinte famílias tornavam-se uma só família, os filhos de uma eram filhos das outras, de todas. A perda de um lar tornava-se uma perda coletiva, e o sonho dourado do oeste um sonho coletivo. E podia acontecer que uma criança enferma enchia de pena os corações de vinte famílias, de cem pessoas; que um parto numa tenda mantinha cem pessoas em silêncio e em expectativa durante uma noite e que a manhã seguinte encontrava cem pessoas felizes com o êxito de um parto estranho. Uma família, que uma noite era antes errara apavorada na estrada, procurava então, talvez, entre os seus parcos tesouros, algo que pudesse ser dado de presente ao recém-nascido. À noite, sentados ao redor da fogueira, os vinte eram um só. Uma guitarra surgia então de sob um cobertor e soava tristemente, e canções eram entoadas, canções populares. Os homens cantavam a letra e as mulheres cantarolavam a melodia. 

Todas as noites um mundo surgia: amizade se faziam, inimizades se estabeleciam; um mundo completo, com gabolas e covardes, com gente silenciosa, com gente humilde, com gente bondosa. Todas as noites, relações eram feitas, relações que modelavam um mundo à parte; e todas as manhãs esses mundos se desfaziam como circos ambulantes.

A princípio, as famílias titubeavam nas montagens e desmontagens desses mundos; mas gradualmente a técnica da construção de mundos tornava-se a sua técnica. Os líderes surgiam, leis se faziam e códigos eram observados. E à medida que os mundos se deslocavam para oeste mais e mais completos se tornavam, porque seus construtores já tinham adquirido mais e mais experiência."

A fotografia "migrante mother", de Dorothea Lange [década de 1930] mostra Florence Owens Thompson, mãe de sete crianças, de 32 anos de idade, em Nipono, Califórnia, março de 1936, em busca de um emprego ou de ajuda para sustentar sua família. Seu marido havia perdido seu emprego em 1931, e morrera no mesmo ano. 



STEINBECK, John, 1902-1968. As vinhas da ira; Tradução de Ernesto Vinhaes e Herbert Caro. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 258 [O livro foi publicado em 1939, e o filme, dirigido por John Ford , em 1940]


domingo, 24 de julho de 2016

Valda Ferreira de Souza, Lagoa Azul, 2008


Foto de Luiz Vasconcelos, 2008. Manaus, bairro Lagoa Azul, 2008


Despejo Indígena no bairro Lago Azul, Manaus AM, 2008



"Depoimento de
Valda Ferreira de Souza/Mani Silva Satere

22 anos, etnia Sateré-Mawé
Dia 24 de abril de 2008

Naquele momento (referindo-se à ação de despejo pela tropa de choque da PM na Lagoa Azul em 10 de março de 2008), não sei o que passou pela minha cabeça para enfrentar todos aqueles policiais. Primeiro porque eles chegaram agredindo a gente, sem conversar foram empurrando e batendo. Não queriam saber se eu estava com criança, se eu estava grávida, e me empurraram em cima do fogo com violência. Cortaram nossas redes. Naquele momento pensei só em ficar lá mesmo, parada lá, para ver o que eles iriam fazer com a gente.

Eles chegaram cortando os punhos das redes. Ainda minha filhinha estava deitada na rede. Eles não queriam nem saber, cortaram as redes. Ela caiu no chão e foi o momento em que eu corri para pegá-la. E foi na hora em que eu parei no meio deles, quando eles iam levando tudo. E fiquei parado lá, não sabia se eles iriam me bater. Alguns dos policiais me chutaram e me cacetaram, como aparece nas fotos. Falavam muitas coisas nos ofendendo: que "a gente não era índio", que "a gente já era civilizado", que a gente era "invasor". Está certo que a gente errou um pouco lá, por causa que o dono tinha realmente o documento da terra, estava legal, e a gente não sabia. Mas se eles chegassem lá falando que o dono da terra estava legal e que a gente saísse, a gente ia se retirar de lá. Mas não foi isso que aconteceu. Chegaram agredindo a gente e batendo mesmo. Meu marido foi espancado, o André. Ele levou um... Com a espingarda, na boca dele, que espocou. Ele foi agredido e humilharam mesmo ele, antes daquele momento. Enquanto estavam batendo no meu marido, foi a hora em que eu fiquei com meu filho parada, enquanto eles foram me empurrando e me chutando. O que eu senti foi raiva mesmo dos policiais porque que fizeram isso conosco. A única coisa que falaram: foi o governador que mandou fazer isso com a gente. O presidente da Funai falou que tinha lavado as mãos por nós. Foi isso que eu fiquei com raiva, naquele momento fiquei cega, não queria nem saber se iriam me matar ou não. Realmente eu nem pensei no meu filhinho que estava no meu braço. Hoje quando eu olho aquelas fotos, me dá tristeza e remorso por terem feito isso com meu filho. Nem pensei em mim mesmo, se eu estava grávida, esperando um filho. 

Nosso espaço aqui na Redenção é pequeno, cada vez vai crescendo as famílias. Como eu, com esse que vai nascer, já tenho quatro filhos, e o espaço aí é pequeno para eles brincarem. Minha filha brinca de bola, aí ela joga lá para baixo, não dando para pegar, porque os brancos não devolvem mais a bola. Eles implicam também com a gente. Aí não dá para ela correr, pois se correrem as crianças caem. Aí o espaço é pequeno. Estamos lutando por um espaço... Lá é bonito, grande, plano, dava para plantar e colher. E aconteceu isso.

Nós soubemos por meio dos parentes que já estavam lá há cinco anos, que já tinham sido retirados.Tinham alguns Sateré-mawé, que vieram de Maués, Kokama e Tikuna. Então nós fomos para lá. Fomos praticamente ajudá-los a conquistar um pedaço para nós. Nós soubemos por meio de outros povos que já estavam lá. 

Nós não queríamos nem nos entrometer nos problemas deles [dos sem-terra] para lá. O problema deles era um, o nosso era outro. Falam que nós fomos usados pelos sem-terra. Não, nós não fomos usados. Até mesmo porque naquele momento ninguém nos defendeu. Nós mesmos ficamos lá, nem um branco nos defendeu. Tinha gente gritando lá: "não bate nela, não, ela é índia!". Essas coisas. Eles não queriam ouvir, falaram que a gente era mentiroso, que estavam nos usando. Os policiais mesmo falavam ofendendo, que a gente não presta para nada, só prestava para ser pisado, como eles fizeram com nossos cocais, nossas flechas, que eles quebraram tudo. 

A gente tentava avisar as organizações como o CIMI. A gente tentava ligar para elas, só que elas não. A gente foi à Funai. Ele foi lá também, depois falou que no outro dia iria. Só que isso não aconteceu, ele nos abandonou, a Funai que é para nos proteger. 

Algumas comunidades Sateré-mawé procuraram nossos direitos para ter um espaço melhor, outras não, estão para o outro lado à procura de outras coisas para si próprios que atrapalham um pouco. Mas têm outras organizações que estão interessadas na gente de ver um lugar melhor. Se nosso povo Sateré-mawé fosse tão unido assim por uma terra melhor acho que a gente conseguiria, mas não está havendo isso, não.

De modo geral, o principal desafio para nós é a terra e o trabalho mesmo. Não temos como trabalhar e plantar. Se tivesse uma terra grande que desse para trabalhar, acho que dava para tirar nosso sustento, mas não tem. Só vivemos do artesanato. 

Lutamos por uma causa boa, por um lugar melhor, um lugar digno, que todo mundo merece ter. Eu queria aquele pedaço de chão para morar com meus filhos, vê-los crescer, brincando num lugar bom. Outras coisas que eles falaram é que a gente não tinha direito, porque essa terra era lá para o meio do mato. Acho que não, nós temos direito de viver uma vida boa, não somos socados no meio do mato sem termos direito a nada. Nós também estamos sendo humanos e queremos uma coisa melhor também. 

Tem pessoas que moram na aldeia e voltam... Não é a questão da divisão "cidade" e "interior". Ele mora no "interior" e tem a relação com a "cidade". Não tem diferença de "cidade" e "interior". 

São 18 organizações. Nós gostamos muito de separar. Elas se relacionam com a base, não há um corte. Os parentes da base, do "interior", se hospedam nas nossas casas. E fazemos defumação na casa inteira."

ALMEIDA; DOS SANTOS. Estigmatização e território: mapeamento situacional dos indígenas em Manaus. Manaus: PNCSA/UFAM, 2008. p. 111-3.


"O progresso não gosta de índio" - Casa de caba








Do the evolution, 2008


Foto de Luiz Vasconcelos, Manaus-AM
Ação de despejo pela tropa de choque da PM no bairro  Lagoa Azul 
em 10 de março de 2008




Do the evolution, Pearl Jam



Woo...
I´m ahead, I´m a man
I´m the first mammal to wear pants, yeah
I´m at peace with my lust
I can kill, 'cause in God I trust, yeah
It´s evolution, baby

I´m at peace, I´m the man
Buying stocks on the day of the crash
On the loose, I´m a truck
All the rollings hills, I´ll flatten ´em out yeah
It´s herd behavior, uh huh
It´s evolution, baby

Admire me, admire my home
Admire my son, he´s my clone
Yeah, yeah, yeah, yeah
This lands is mine, this land is free
I´ll do what I want, but irresponsibly
It´s evolution, baby

I´m a thief, I´m a liar
There´s my church, I sing in the choir
(Hallelujah, Hallelujah)

Admire me, admire my home
Admire my son, admire my clothes
`Couse we know, appetite for a nightly feast
Those ignorant Indians got nothin on me
Nothin´, why?
Because... It´s evolution, baby!

I am ahead, I am advanced 
I am the first mammal to make plans, yeah
I crawled the earth, but now I´m higher
2010, watch it go to fire
It´s evolution, baby
It´s evolution, baby
Do the evolution
Come on, come on, come on






segunda-feira, 18 de julho de 2016

Cachoeira da Neblina, Extermínio Waimiri-Atroari e Turismo

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último presidente do regime militar (1979-1985). Há fatos importantes da meta-história do Brasil na "biografia" deste homem que gostaria de saber mais... Uma pena que em "Frentes de Expansão e Estrutura Agrária" Balbina tenha ficado de fora. Vamos focar em três pontos de seus atos de governo que nos interessam e dão um ponta pé inicial nesse texto turístico:

1. Criação do programa Grande Carajás;
2. Criação do estado de Rondônia;
3. Amplo programa de reforma agrária no norte do Brasil.

*


Há um município maravilindo no estado do Amazonas, que se chama Presidente Figueiredo. Apesar dele ser encantador e conhecido como Terras das cachoeiras / Waterfall lands <3 leva esse nome maldito nas costas para nunca nos deixar esquecer do passado sangrento desta adorável região.

Ao fazer as pazes com meus amiguinhos que entendem de fósforo, solo, rocha e passarinhos do Instituto Nacional de Pesquisa (INPA) pude conhecer uma parte [desconhecida até então] desta região que fez parte da minha infância.



Se tem uma coisa que esse povo da "natureza" sabe, é ter faro pra lugar lindo! Não há limites para as belezuras naturais que eles escondem na manga, parece uma sociedade secreta.

Entre as maravilhosas da equipe, estava a antropóloga-historiadora-mineira mais linda das redondezas e foi logo nos explicando sobre o Rio Urubu:

- Já ouvi falar que esse Rio Urubu tem esse nome pela quantidade de corpos indígenas que foram encontrados no período da ditadura no Brasil.

*

Inicialmente, gostaria de esclarecer, que nós só estávamos querendo passear, reencontrar antigos cachorrinhos, visitar um amigo, tomar sol e banho de cachoeira, comer frutinha, tomar café na Priscila. É inacreditável que este lugar tenha a marca de um dos maiores genocídios do Brasil.

"A ditadura militar e o genocídio do povo Waimiri-Atroari: "porque kamña matou kiña"?, originou-se da pesquisa que fundamentou o 1o relatório do Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas, que revela com grande riqueza de detalhes e farta documentação os crimes da ditadura militar praticados contra aquele povo indígena, por ocasião da abertura da BR-174 que liga Manaus/AM a Boa Vista/RR. Atesta, ainda, que no período de 1972 a 1977 mais de 2.000 indígenas morreram assassinados e por doenças levadas pelos invasores de suas terras. O documento também denuncia uma estratégia cuidadosamente montada, que se mantém desde a ditadura militar até os dias de hoje, para evitar que a verdade, em toda a sua dimensão, seja revelada e de domínio público."


Foto do livro da Valéria {te amamos, saudades}
autografado e tudo pelo fofo do Egydio <3

Os coordenadores do Comitê da Verdade, Memória e Justiça do Amazonas, 
que foram responsáveis pela elaboração do livro foram Egydio Schwade e Wilson C. Braga Reis. 


"O foco do relatório, que foi encaminhado à Comissão Nacional da Verdade, incide sobre os Kiña, mais conhecidos como Waimiri-Atroari, cujos desaparecidos são identificados hoje por seus nomes, graças a um trabalho cuidadoso que ouviu índios em suas línguas, consultou pesquisadores e indigenistas, fuçou arquivos e examinou documentos, incluindo desenhos que mostram índios metralhados por homens armados com revólver, fuzil, rifles, granadas e cartucheiras, jogando bombas sobre malocas incendiadas.

O relatório se refere ao "desaparecimento de mais de 2.000 Waimiri-Atroari em apenas dez anos". Na área onde se localiza hoje a Mineradora Taboca (Paranapanema) desapareceram pelo menos nove aldeias aerofografadas pelo padre Calleri, em 1968.

A pergunta que mais se repete nos desenhos kiña e na sequência das narrativas de massacre é sempre a mesma: Apiyamyake, apiyemiyekî? Por que? Por que?

Os autores do relatório dão nome aos bois, informando as patentes e a identidade dos militares que comandavam a Sacopã no trabalho de segurança da Mineração Taboca/Paranapanema e no controle de todo acesso à Terra Indígena. " (Prefácio de José Ribamar Bessa Freire)

Pra quem tiver estômago, segue o link do "RELATÓRIO FIGUEIREDO" sobre esse massacre-genocídio-extermínio-matança-tortura-crueldade sob os conluios do queridíssimo-idolatrado Estado-nação protetor e amigo [são mais de sete mil páginas]:  http://6ccr.pgr.mpf.mp.br/institucional/grupos-de-trabalho/gt_crimes_ditadura/relatorio-figueiredo

*

O mais inacreditável, é perceber que pessoas que são da minha geração [e mais novos] ainda acreditam numa ideia de desenvolvimento tão precário e assassino quanto as de outrora. Até quando seremos vistos como um "imenso deserto" que se transformará no "celeiro do mundo"? Até quando o "primitivismo" e o "exotismo" vai tomar de conta? Arrisco dizer que isso é culpa da bosta do ensino médio que tivemos e de muitas péssimas universidades deste país! ou um projeto macabro e intencional de destruição em massa, talvez seja o mais honesto a afirmar. 

Desde sempre, não há um serumano que saiba "o que fazer" com a região mais florestosa do país:

V I V A  E  D E I X E  V I V E R 

é bem melhor que o fracasso de Delfin Netto
[golpista! veja "utopia e barbárie" do Silvio Tendler]:

p l a n t e   q u e  J o ã o   g a r a n t e

Já não basta os horrores da extração da borracha? o que querem agora? Já não basta o "progresso" de Mariana estampado nos quatro cantos do mundo? Querem continuar repetindo a fórmula em todo o país? Já não morreu gente/bicho/planta suficiente?

Novamente: eu só queria tomar um banho de cachoeira e comer frutinhas gostosas. : ~ não tem um lugar no mundo que você vá (ou tem?) sem sentir raiva ou o peso das mortes do progresso.

O município de Presidente Figueredo intriga, mas vamos piorar a situação, vamos falar de Balbina. O lago de Balbina era algo que meu pai e tios sempre frequentaram quando éramos crianças. Havia uma casa de uma parente próxima que era funcionária da Eletronorte. Sempre ficávamos hospedados no fim de semana ou feriados. Íamos em igarapés ou festinhas do clube, enquanto os homens adultos iam ao "lago" pescar.

Dentre os objetivos da BR-174, estava a criação da Mineração em Pitinga; Hidrelétrica de Pitinga; Hidrelétrica de Balbina e Grilagem na Terra Indígena. A economia do país estava de vento em popa [ironia].

Pela primeira vez na vida, em junho de 2016, eu conheci o lago de Balbina.




O céu estava maravilhoso, não é mesmo? Nem tenho mais vontade de falar sobre a floresta morta ao fundo. Mas, mais um vez, é necessário. A foto não capta, mas ao fundo, no horizonte entre o céu e o rio, há vários palitinhos horripilantes, que mais uma vez, nos lembram da Barbárie dessas ações BURRAS E ESTÚPIDAS em prol de um "crescimento econômico" do país com morte anunciada [bem antes da construção da hidrelétrica] por diversos especialistas.

O fim disso tudo? uma cidade fantasma, um abastecimento de energia que não dá nem pra uma festa junina, milhões de mortos e uma área gigante devastada. Parabéns a todos os envolvidos, enfiem o dinheiro das empreiteiras no cú, seus assassinos.

*

Antes do soco no estômago, ficamos na dúvida em qual cachoeira conheceríamos: a do Ipy ou a da Neblina. Como o nosso anfitrião-agrônomo-professor-gente boa não conhecia a da Neblina, optamos pela última.

A caminhada era de duas horas à uma hora e meia em mata fechada pra chegar na belezoca. Fingi que aguentaria pra não pagar de fresca-medrosa. Pensei que aquilo poderia melhorar meu condicionamento físico e diminuir meu colesterol. HAHAHAHAHAHAHA ai, ai.

O lugar, pelo que esclarece uma placa [que não fotografei ou anotei] é uma propriedade particular, no entanto tem parceria com a Universidade Federal do Amazonas e Unisol através de projetos de pesquisas.

Ao entrarmos na propriedade, avistamos uma casa e um cachorrinho [baby] fofinho que nos recebeu com muitos latidos calorosos. O Theo foi na frente com a Lay e a pessoa responsável, o Chico, nos informou que poderíamos visitar a cachoeira tranquilamente. Todos estávamos de chinelo e ele disse que não haveria problema.




A casa do Chico
Casa de forno, onde acontece a mágica da farinha :) 
O Theo levou algumas mudas de coqueiro do Chico pra plantar no IFAM :)


O Chico vende polpa de cupuaçu fresquinho, 
Ana comprou um monte pra fazer bolo, suco e doce :3 QUERO!


A classificação da fila indiana 

Durante a caminhada na mata fechada por uma hora e meia [fizemos em menos tempo, por sermos atletas: mentira, eu quase morri] fique atento à organização da fila, é fundamental. É necessário saber, implicitamente, que o primeiro, além de ter a obrigação de escolher o melhor caminho, rompe com todas as teias de aranha para os demais passarem, e está sujeito a todas as picadas de cobra que surgirem pelo caminho. A Lay tá de parabéns!

Apesar da trilha te deixar tonto de tanto olhar pro chão, 
ela é muito linda :3

Cogumelinhos de desenho animado <3


Flores peludinhas *.*



O último da fila, também tem suas obrigações, se aparecer algum felino pelas redondezas, ele será a presa mais fácil por estar no rabo da caminhada. O ideal, caso você seja covarde precavido como eu, é ficar no meio. Você corre o risco de matar as pessoas de susto toda vez que ver um calango pela frente. Poupe-os.

Dica: leve água, relógio, lanterna [vai que], algum tipo de doce, tênis [você vai ferrar sua coluna com havaianas] e aquelas calças de ginástica pra não arranhar nem ficar cheia de mucuim nas canelas.

Depois de subir, descer, pular/escalar/rastejar pelos troncos de árvores caídas, escorregar algumas vezes, andar loucamente, reconhecer cheiro de porco do mato no caminho [emocionante :))) ] e cogumelos fofinhos, flores peludinhas, aquele encantamento vai passando e você começa a se perguntar que diaxo você está fazendo ali, se aquela água não chega nunca. Ao alucinar com o barulho da água... ela aparece!

A primeira visão de água, a gente não esquece,
dobre a esquerda e continue.



Apesar de continuar a caminhada, ao menos você tem certeza que está no caminho certo e aquele barulho de água, junto com o igarapé amarelinho, te anima.


A cachoeira da Neblina: como ela é bonita!

Igarapé amarelinho de água geladinha :3


Eu tinha esquecido como é gostoso fazer uma hora e meia intensa de exercício, morrer de calor e cair numa água geladinha como essa. Literalmente, um oásis.

- Será que os waimiri vinham tomar banho aqui?
- Não sei, talvez. Aqui é tão bonito.

<3

Na volta, fiquei pensando... se eu fizesse aquele caminho da mata todos os dias, seria uma outra pessoa [bem melhor que a atual, inclusive] ahahahahaha

*

Em Manaus, o governo [interino] GOLPISTA, comunica ao país a seguinte proposta à Presidência da FUNAI:

General Peternelli é indicado à presidência da FUNAI

~Definitivamente, viver requer muito cinismo~

É inacreditável o que acontece embaixo do nosso nariz. Que espécie de gente macabra é essa?

HAJA ESTÔMAGO!!!! 

Recentemente, eu e Dani descobrimos que uma pessoa que convivemos por anos, inclusive fez graduação em Direito comigo, na mesma sala de aula, com os mesmos professores. Faz parte da bancada [ruralista] do Amazonas enquanto representante dos agricultores.

Soubemos através da seguinte notícia

"Bancada amazonense se posiciona contra demarcações de terras indígenas no Estado".
http://www.acritica.com/channels/governo/news/bancada-amazonense-se-posiciona-contra-demarcacoes-de-terras-indigenas-no-estado

"A bancada de deputados federais, senadores e representantes dos produtores rurais do Amazonas entregam hoje (5) ao ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, um manifesto contra a criação de cinco novas unidades de conservação e duas terras indígenas por meio de decretos assinados pela presidente Dilma Rousseff na véspera de ser afastada do cargo pelo Senado, na admissibilidade do impeachment em 12 de maio de 2016.

Os parlamentares e entidades ligadas à agricultura amazonense pedem que o presidente interino, Michel Temer, reconheça os vícios de inconstitucionalidade e de legalidade dos decretos de criação das Unidades de Conservação (UC’s) Parque Nacional do Acari, a Reserva Biológica do Manicoré, a Área de Proteção Ambiental dos Campos de Manicoré e as Florestas Nacionais do Aripuanã e Urupadi, além da ampliação da Floresta Nacional Amaná."


- não há limites para a ignorância, a luta é diária -



segunda-feira, 2 de maio de 2016

The Hateful Eight, Beyoncé e abobrinhas

Este texto surge a partir de uma experiencia em uma sala de cinema nos arredores de Manaus, melhor, naquele shopping que insiste em não cair. As terças feiras promete não cobrar estacionamento de seus frequentadores e se auto intitula de "revolucionário". Pois bem, aprendemos que as facetas do capitalismo não tem limites...



Infelizmente, por motivo de felicidade, não tenho mais "carteirinha de estudante" e fui surpreendida com a "tabela cheia" dos placares das salas cinema. Nem adianta ir com a sua bolsinha de pano (encardida) que ganhou no congresso pra barganhar o menor preço, respire fundo e lembre-se da experiência que é lidar com bastante sangue, trilha sonora linda e historinhas criativas de um cara legal como o Tarantino: feche os olhos e pague. 

Assisti, tem uns 40 minutos mais ou menos, "os oito odiados". 

Neste texto que escrevo, há um manto invisível que me protege: o do amadorismo. Há também, uma certa ideia do livro de Michael Baxandall, que tive a oportunidade de ler/conhecer, conversar com outros colegas e considerar os vários questionamentos que vieram com o mesmo. Sem suspense! o livro era "padrões de intensão: a explicação histórica dos quadros". 

Citando arbitrariamente o autor, ele explica que:

"Toda inferência crítica sobre a intensão (artística) é não só convencional em vários sentidos, mas também precária" (p. 194)

E agora, a parte que mais interessa:

"Novas atividades como a crítica de arte, que apenas recentemente se tornou uma profissão e foi reconhecida como uma disciplina acadêmica, tendem a se conceder muito depressa uma autoridade especial. " (p. 196)

Paulo Nazareth (suspiros para este Homem)


Esse é o combinado: não tenho a menor intensão de discutir a "genialidade" do autor ou a obsessiva corrida atrás de uma originalidade cinematográfica, tal como cachorros que esperam a todo instante uma ração especial a cada estréia, com todo o respeito aos reservoir dogs, obviamente. 

O foco é no que esse filme pode nos trazer pra ficarmos cada vez mais exibidinhos <3

*

Nesse domingo, as margens do Igarapé do 40, fui ao aniversário de uma amiga, e ainda que eu estivesse até o tucupi de álcool, pude ouvir ao longe: "eu acho que Foucault despolitiza o movimento social". Logo após ouvir essa frase de gente exibida, a música da festa se sobrepôs ao diálogo e eu me perdi no que estava ouvindo, foquei na melodia do meu contrário: 

Jorge Aragão, Parintins para o mundo ver

Numa questão de segundos, estava na ilha. Lembrei do quanto foi difícil esconder a emoção que senti quando vi a Baixa do São José, devidamente encarnada, rasgar o bumbódromo acompanhada daquela batucada alucinada. Minha "identidade" azul e branca foi instantaneamente questionada. Prometi a mim mesma, em silêncio, que caso descobrisse que era garantido, viveria aquela farsa enquanto eu vivesse. Esperei, com o coração na mão, o meu boi preto entrar sem saber ao certo o que ia acontecer.

Ninguém gosta mais desse boi do que eu, Carlos Paulain


A entrada do meu boizinho me salvou, a marujada entorpeceu... e ali, no meio daquele multidão azulada, eu tive a certeza que era Caprichoso, ainda que abaladíssima pela baixa vermelha.

Voltando da minha reflexão solitária enquanto ilhéu, aterrissei às margens do 40 com o Foucault martelando a minha cabeça: pra que serve uma identidade?

*

Em The hateful eight, identifiquei algumas "categorias" aparentemente bem marcadas: mexicano, mulher, estrangeiros, negro, xerife e oficial do exército branco/hetero/cis, que vão nos ajudar a pensar em algumas bobagens divertidas.

abobrinhas


Esse texto demorou para ser publicado por ter seu parágrafo final abalado pelas torres de marfim dessa cidade. Ele já estava todo estruturado no meu miolo, idolatrando a personagem que mais apanhou [na cara] o filme inteiro ~Daisy Domergue ~

Seus dentes foram devidamente quebrados 
ao longo do filme, nada de novo sob o sol #vaiterfeminismosim


Aparentemente, não se pode compreender nada, inclusive um filme, de forma absoluta, vamos lidar com as diversas interpretações enquanto camadas de entendimento. 

O scholar sentenciou:

Tarantino me decepcionou, vocês viram os oito odiados? "os bandidos", não sei se vocês notaram, eram todos estrangeiros: mexicanos, franceses (...) nos Estados Unidos da América! E o final? bom, não podia ser pior, o xerife (o Estado/a lei) junto com Samuel Jackson [essa foi de doer] o negro do filme, JUNTOS enforcaram a estrangeira. Acho que Tarantino voltou atrás depois que explodiu a casa grande no último filme [Django] rs. 

*

Ao meu amigo Tarantino, um versinho singelo:

Querido
não desisti de você
veja o exemplo da diva Beyoncé
~Courage~
Não fique na depré[once]

HAHAHAHAHA :P

fim



"Ela abraça seu cabelo crespo, sua negritude e sua essência feminina, falando sobre sexualidade, racismo e a opressão social que os africanos e seus descendentes sofriam e ainda sofrem todos os dias. Beyoncé canta sobre um Estados Unidos que nesse aspecto se parece muito com o Brasil e assim como cantou Elza Soares, a americana joga na cara da sociedade que, no fim das contas, 'a carne mais barata do mercado é a negra'. Por isso, a representação visual das canções fazem tanta alusão aos séculos passados: anos após diversas conquistas sociais, como o fim da escravidão e a segregação racial, os negros ainda sofrem. Tomavam limonada na esperança de ficarem mais brancos e hoje, séculos depois, ainda tomam tiros por simplesmente serem negros". ver em: http://www.mazeblog.com.br/resenha-beyonce-lemonade/


Beyoncé, Formation








domingo, 7 de junho de 2015

O nativo boçal: penser est un sport de combat



Num passado próximo, existiam algumas categorias de escravos, citarei duas: ladinos e boçais.

Ladinos - Negros já aculturados, já aceitavam a dominação e muitos deles tornaram-se verdadeiros colegas de seu Senhor, quando não o próprio Capitão do Mato, aquele que buscava o Negro quando fugia.

Boçais - Escravos Novos, ainda não aceitavam a dominação, muitos deles rebeldes, que se voltava contra o seu Senhor e constantemente matavam-no com venenos, ou faziam corpo mole para o trabalho, esse tipo de escravo valia menos no mercado, assim como um pássaro que não canta, vale lembrar que o fato do pássaro não cantar pode ser um protesto do mesmo, da mesma forma que um trabalho ou projeto com problemas para acontecer ou sem resultados significativos.

Aceite que você vale menos no mercado dos medíocres: você é um boçal. Citarei alguns comentários (maldosos) que alguns pesquisadores "marginais" recebem, nem o ensino médio escapa:

- "O primeiro lugar do ENEM foi de um nordestino cearence???"
- "Esse prêmio de antropologia foi pra uma amazonense da UFAM????"
- "Esse índio passou na OAB????
- "Não acredito que essa preta é médica!"
- "Esse gay da zona leste fala francês e toca violino????"
- "Essa menina de Manaus tem que se colocar no lugar dela! no Museu Nacional não é assim!"
- "Esse gordinho do norte pensa que é o que falando desse jeito? na UNICAMP as pessoas são civilizadas"

Primeiro de tudo: Não dê um cú de confiança (muito menos dinheiro) para bandeirantes, eles seguem a risca o "non ducor, duco" ABRA OS OLHOS. Eles irão querer manipular todo o trabalho e não por sapiência e sim por nepotismo (ter a mamãe amiga do chefinho não vale), machismo, colonialismo, oportunismo disfarçado em ambientalismo e diplomatismo. Essa espécie é popularmente conhecida como "El macho intelectual".

"El macho intelectual" - Se tiver ruim pra ler a legenda, veja aqui: https://vimeo.com/123243710
Invasorix é um grupo de trabalho interessado em canções e videoclips como uma forma de protesto "cuir-feminista". É constituído por sete mulheres artistas que vivem e trabalham na Cidade do México: Daria, Mirna, Nina, Maj, Natalia, Liz e Naomi. Desde 2013 se reúnem periodicamente para escrever canções e realizar vídeos baseados em suas experiências e dinâmicas de poder em seu entorno. Caso você queira bater um papinho com elas: invasorix@gmail.com



Os pobres coitados da terra da garoa não estão acostumados com o nativo que deixou de ser objeto de pesquisa ou mateiro dos outros. Não é uma tarefa muito fácil, afinal, são anos e anos de rei da cocada preta na prática da dominação, cair do cavalo é um processo dolorido.

Munida dessas informações, ajude-os a compreender  - de forma didádica - que os tempos são outros, que o "subalterno pode falar" (Spivak) SIM!

"Desafios da Amazônia contemporânea" com a Dra. Marilene Corrêa - 
Veja o vídeo inteiro, dê ênfase a partir de 12:48 "o primeiro dever do amazônida"

Dito isto, neste texto iremos destacar o pesquisador nativo boçal, aquele que fala alto, tira cópia de chave sem pedir, não beija os pés do boto filho da puta, é atrevido, petulante, tira cópia de qualquer livro milionário que quizer e não paga pau pra gringo tonto-manipulável.



Infelizmente, você não pode se expressar como nos parágrafos acima, muitos lhe acusarão de histeria e pouco profissionalismo. Respire fundo, faça meditação em casa acompanhada de comidinhas gostosas que agrade o seu buchinho e pessoas com quem você possa rir bem alto dessa presepada... NO ENTANTO, apontar o dedo e falar "verdades" na cara tá liberado em casos mais extremos.

Desta maneira transforme todo o seu ódio em texto e performance acadêmica. Não parece ser uma tarefa muito simples, mas vou ajudá-los.

Atenção: Dê um beijinho na bochecha do Fanon, pense em todas as mulheres maravilhosas para admirar, agradeça a elxs por tudo e SANGUE NOS OLHOS E FACA NA BOCA GALERA!

Vamos lá :D

-

ps: Acabei de saber que tá rolando o "festival do peixe frito" no bairro e vou lá garantir o meu jaraqui, é rapidex.













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