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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Cachoeira da Neblina, Extermínio Waimiri-Atroari e Turismo

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último presidente do regime militar (1979-1985). Há fatos importantes da meta-história do Brasil na "biografia" deste homem que gostaria de saber mais... Uma pena que em "Frentes de Expansão e Estrutura Agrária" Balbina tenha ficado de fora. Vamos focar em três pontos de seus atos de governo que nos interessam e dão um ponta pé inicial nesse texto turístico:

1. Criação do programa Grande Carajás;
2. Criação do estado de Rondônia;
3. Amplo programa de reforma agrária no norte do Brasil.

*


Há um município maravilindo no estado do Amazonas, que se chama Presidente Figueiredo. Apesar dele ser encantador e conhecido como Terras das cachoeiras / Waterfall lands <3 leva esse nome maldito nas costas para nunca nos deixar esquecer do passado sangrento desta adorável região.

Ao fazer as pazes com meus amiguinhos que entendem de fósforo, solo, rocha e passarinhos do Instituto Nacional de Pesquisa (INPA) pude conhecer uma parte [desconhecida até então] desta região que fez parte da minha infância.



Se tem uma coisa que esse povo da "natureza" sabe, é ter faro pra lugar lindo! Não há limites para as belezuras naturais que eles escondem na manga, parece uma sociedade secreta.

Entre as maravilhosas da equipe, estava a antropóloga-historiadora-mineira mais linda das redondezas e foi logo nos explicando sobre o Rio Urubu:

- Já ouvi falar que esse Rio Urubu tem esse nome pela quantidade de corpos indígenas que foram encontrados no período da ditadura no Brasil.

*

Inicialmente, gostaria de esclarecer, que nós só estávamos querendo passear, reencontrar antigos cachorrinhos, visitar um amigo, tomar sol e banho de cachoeira, comer frutinha, tomar café na Priscila. É inacreditável que este lugar tenha a marca de um dos maiores genocídios do Brasil.

"A ditadura militar e o genocídio do povo Waimiri-Atroari: "porque kamña matou kiña"?, originou-se da pesquisa que fundamentou o 1o relatório do Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas, que revela com grande riqueza de detalhes e farta documentação os crimes da ditadura militar praticados contra aquele povo indígena, por ocasião da abertura da BR-174 que liga Manaus/AM a Boa Vista/RR. Atesta, ainda, que no período de 1972 a 1977 mais de 2.000 indígenas morreram assassinados e por doenças levadas pelos invasores de suas terras. O documento também denuncia uma estratégia cuidadosamente montada, que se mantém desde a ditadura militar até os dias de hoje, para evitar que a verdade, em toda a sua dimensão, seja revelada e de domínio público."


Foto do livro da Valéria {te amamos, saudades}
autografado e tudo pelo fofo do Egydio <3

Os coordenadores do Comitê da Verdade, Memória e Justiça do Amazonas, 
que foram responsáveis pela elaboração do livro foram Egydio Schwade e Wilson C. Braga Reis. 


"O foco do relatório, que foi encaminhado à Comissão Nacional da Verdade, incide sobre os Kiña, mais conhecidos como Waimiri-Atroari, cujos desaparecidos são identificados hoje por seus nomes, graças a um trabalho cuidadoso que ouviu índios em suas línguas, consultou pesquisadores e indigenistas, fuçou arquivos e examinou documentos, incluindo desenhos que mostram índios metralhados por homens armados com revólver, fuzil, rifles, granadas e cartucheiras, jogando bombas sobre malocas incendiadas.

O relatório se refere ao "desaparecimento de mais de 2.000 Waimiri-Atroari em apenas dez anos". Na área onde se localiza hoje a Mineradora Taboca (Paranapanema) desapareceram pelo menos nove aldeias aerofografadas pelo padre Calleri, em 1968.

A pergunta que mais se repete nos desenhos kiña e na sequência das narrativas de massacre é sempre a mesma: Apiyamyake, apiyemiyekî? Por que? Por que?

Os autores do relatório dão nome aos bois, informando as patentes e a identidade dos militares que comandavam a Sacopã no trabalho de segurança da Mineração Taboca/Paranapanema e no controle de todo acesso à Terra Indígena. " (Prefácio de José Ribamar Bessa Freire)

Pra quem tiver estômago, segue o link do "RELATÓRIO FIGUEIREDO" sobre esse massacre-genocídio-extermínio-matança-tortura-crueldade sob os conluios do queridíssimo-idolatrado Estado-nação protetor e amigo [são mais de sete mil páginas]:  http://6ccr.pgr.mpf.mp.br/institucional/grupos-de-trabalho/gt_crimes_ditadura/relatorio-figueiredo

*

O mais inacreditável, é perceber que pessoas que são da minha geração [e mais novos] ainda acreditam numa ideia de desenvolvimento tão precário e assassino quanto as de outrora. Até quando seremos vistos como um "imenso deserto" que se transformará no "celeiro do mundo"? Até quando o "primitivismo" e o "exotismo" vai tomar de conta? Arrisco dizer que isso é culpa da bosta do ensino médio que tivemos e de muitas péssimas universidades deste país! ou um projeto macabro e intencional de destruição em massa, talvez seja o mais honesto a afirmar. 

Desde sempre, não há um serumano que saiba "o que fazer" com a região mais florestosa do país:

V I V A  E  D E I X E  V I V E R 

é bem melhor que o fracasso de Delfin Netto
[golpista! veja "utopia e barbárie" do Silvio Tendler]:

p l a n t e   q u e  J o ã o   g a r a n t e

Já não basta os horrores da extração da borracha? o que querem agora? Já não basta o "progresso" de Mariana estampado nos quatro cantos do mundo? Querem continuar repetindo a fórmula em todo o país? Já não morreu gente/bicho/planta suficiente?

Novamente: eu só queria tomar um banho de cachoeira e comer frutinhas gostosas. : ~ não tem um lugar no mundo que você vá (ou tem?) sem sentir raiva ou o peso das mortes do progresso.

O município de Presidente Figueredo intriga, mas vamos piorar a situação, vamos falar de Balbina. O lago de Balbina era algo que meu pai e tios sempre frequentaram quando éramos crianças. Havia uma casa de uma parente próxima que era funcionária da Eletronorte. Sempre ficávamos hospedados no fim de semana ou feriados. Íamos em igarapés ou festinhas do clube, enquanto os homens adultos iam ao "lago" pescar.

Dentre os objetivos da BR-174, estava a criação da Mineração em Pitinga; Hidrelétrica de Pitinga; Hidrelétrica de Balbina e Grilagem na Terra Indígena. A economia do país estava de vento em popa [ironia].

Pela primeira vez na vida, em junho de 2016, eu conheci o lago de Balbina.




O céu estava maravilhoso, não é mesmo? Nem tenho mais vontade de falar sobre a floresta morta ao fundo. Mas, mais um vez, é necessário. A foto não capta, mas ao fundo, no horizonte entre o céu e o rio, há vários palitinhos horripilantes, que mais uma vez, nos lembram da Barbárie dessas ações BURRAS E ESTÚPIDAS em prol de um "crescimento econômico" do país com morte anunciada [bem antes da construção da hidrelétrica] por diversos especialistas.

O fim disso tudo? uma cidade fantasma, um abastecimento de energia que não dá nem pra uma festa junina, milhões de mortos e uma área gigante devastada. Parabéns a todos os envolvidos, enfiem o dinheiro das empreiteiras no cú, seus assassinos.

*

Antes do soco no estômago, ficamos na dúvida em qual cachoeira conheceríamos: a do Ipy ou a da Neblina. Como o nosso anfitrião-agrônomo-professor-gente boa não conhecia a da Neblina, optamos pela última.

A caminhada era de duas horas à uma hora e meia em mata fechada pra chegar na belezoca. Fingi que aguentaria pra não pagar de fresca-medrosa. Pensei que aquilo poderia melhorar meu condicionamento físico e diminuir meu colesterol. HAHAHAHAHAHAHA ai, ai.

O lugar, pelo que esclarece uma placa [que não fotografei ou anotei] é uma propriedade particular, no entanto tem parceria com a Universidade Federal do Amazonas e Unisol através de projetos de pesquisas.

Ao entrarmos na propriedade, avistamos uma casa e um cachorrinho [baby] fofinho que nos recebeu com muitos latidos calorosos. O Theo foi na frente com a Lay e a pessoa responsável, o Chico, nos informou que poderíamos visitar a cachoeira tranquilamente. Todos estávamos de chinelo e ele disse que não haveria problema.




A casa do Chico
Casa de forno, onde acontece a mágica da farinha :) 
O Theo levou algumas mudas de coqueiro do Chico pra plantar no IFAM :)


O Chico vende polpa de cupuaçu fresquinho, 
Ana comprou um monte pra fazer bolo, suco e doce :3 QUERO!


A classificação da fila indiana 

Durante a caminhada na mata fechada por uma hora e meia [fizemos em menos tempo, por sermos atletas: mentira, eu quase morri] fique atento à organização da fila, é fundamental. É necessário saber, implicitamente, que o primeiro, além de ter a obrigação de escolher o melhor caminho, rompe com todas as teias de aranha para os demais passarem, e está sujeito a todas as picadas de cobra que surgirem pelo caminho. A Lay tá de parabéns!

Apesar da trilha te deixar tonto de tanto olhar pro chão, 
ela é muito linda :3

Cogumelinhos de desenho animado <3


Flores peludinhas *.*



O último da fila, também tem suas obrigações, se aparecer algum felino pelas redondezas, ele será a presa mais fácil por estar no rabo da caminhada. O ideal, caso você seja covarde precavido como eu, é ficar no meio. Você corre o risco de matar as pessoas de susto toda vez que ver um calango pela frente. Poupe-os.

Dica: leve água, relógio, lanterna [vai que], algum tipo de doce, tênis [você vai ferrar sua coluna com havaianas] e aquelas calças de ginástica pra não arranhar nem ficar cheia de mucuim nas canelas.

Depois de subir, descer, pular/escalar/rastejar pelos troncos de árvores caídas, escorregar algumas vezes, andar loucamente, reconhecer cheiro de porco do mato no caminho [emocionante :))) ] e cogumelos fofinhos, flores peludinhas, aquele encantamento vai passando e você começa a se perguntar que diaxo você está fazendo ali, se aquela água não chega nunca. Ao alucinar com o barulho da água... ela aparece!

A primeira visão de água, a gente não esquece,
dobre a esquerda e continue.



Apesar de continuar a caminhada, ao menos você tem certeza que está no caminho certo e aquele barulho de água, junto com o igarapé amarelinho, te anima.


A cachoeira da Neblina: como ela é bonita!

Igarapé amarelinho de água geladinha :3


Eu tinha esquecido como é gostoso fazer uma hora e meia intensa de exercício, morrer de calor e cair numa água geladinha como essa. Literalmente, um oásis.

- Será que os waimiri vinham tomar banho aqui?
- Não sei, talvez. Aqui é tão bonito.

<3

Na volta, fiquei pensando... se eu fizesse aquele caminho da mata todos os dias, seria uma outra pessoa [bem melhor que a atual, inclusive] ahahahahaha

*

Em Manaus, o governo [interino] GOLPISTA, comunica ao país a seguinte proposta à Presidência da FUNAI:

General Peternelli é indicado à presidência da FUNAI

~Definitivamente, viver requer muito cinismo~

É inacreditável o que acontece embaixo do nosso nariz. Que espécie de gente macabra é essa?

HAJA ESTÔMAGO!!!! 

Recentemente, eu e Dani descobrimos que uma pessoa que convivemos por anos, inclusive fez graduação em Direito comigo, na mesma sala de aula, com os mesmos professores. Faz parte da bancada [ruralista] do Amazonas enquanto representante dos agricultores.

Soubemos através da seguinte notícia

"Bancada amazonense se posiciona contra demarcações de terras indígenas no Estado".
http://www.acritica.com/channels/governo/news/bancada-amazonense-se-posiciona-contra-demarcacoes-de-terras-indigenas-no-estado

"A bancada de deputados federais, senadores e representantes dos produtores rurais do Amazonas entregam hoje (5) ao ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, um manifesto contra a criação de cinco novas unidades de conservação e duas terras indígenas por meio de decretos assinados pela presidente Dilma Rousseff na véspera de ser afastada do cargo pelo Senado, na admissibilidade do impeachment em 12 de maio de 2016.

Os parlamentares e entidades ligadas à agricultura amazonense pedem que o presidente interino, Michel Temer, reconheça os vícios de inconstitucionalidade e de legalidade dos decretos de criação das Unidades de Conservação (UC’s) Parque Nacional do Acari, a Reserva Biológica do Manicoré, a Área de Proteção Ambiental dos Campos de Manicoré e as Florestas Nacionais do Aripuanã e Urupadi, além da ampliação da Floresta Nacional Amaná."


- não há limites para a ignorância, a luta é diária -



quinta-feira, 26 de maio de 2016

curso integrado de projeciologia

"há vida após a morte... "
"aqui é só uma das nossas muitas vidas..."
"a morte é só uma passagem..."
"ele está entre a gente..."
"somos energia... quando dormimos, poderemos encontrar nossos entes queridos..."
"as pessoas que morrem, vivem através de nós, do amor que sentimos por elas..."
"a morte é o princípio de tudo..."


beleza.


se alguma vez, ao estar dormindo, seu corpo fica totalmente imóvel e você não sabe como se mover... e se você tem a sensação de se olhar dormindo... entre outras coisas mais... essa palestra vai te chamar a atenção.

à convite, fui ver qual era.
tomei banho rápido e quase cheguei atrasada.

foi naquele mini auditório da saraiva, gente mais velha, um ex-professor-juiz-legal-atípico, estava lá, ele foi simpático e me olhou com curiosidade.

- deixa eu falar com essa menina. tudo bem?
- tudo (lágrima nos olhos).e com o senhor?
- bem também.

falei também com a mãe da minha amiga:

- oi dona Dulce :)
- oi filha, senta ali.

sentei. esse dia tava uma merda.

sábado, 23 de maio de 2015

Moedores de carne humana



Nuvens densas, escuras, pesadas, cheia de cores que brincam entre o cinza clarinho e o negro do Rio Negro. Três palavras pairam, como nuvens pré temporal, na cabeça dos manauaras essa semana: bicicleta, homem e ônibus.

A pessoa que inventou um lugar chamado cidade, deve ter sido um louco varrido, um louco tão louco que só sendo louco pra ter inventado um negócio desse. Mais louco foi aquele que aceitou e vibrou com a ideia. Puxa saco de uma figa! Devia ser proibido esse tipo de gente no mundo. Na verdade, à época, quem discordou do nascimento da cidade, foi chamado de louco. Aposto. Devia ter votação pra acabar com essa porcaria. 

(   ) Sou a favor da cidade, da palmeira imperial, da morte aos periquitos irritantes, da piscina com cloro, do asfalto, da calçada com cerâmica, do condomínio, do ônibus, do mendigo, da sujeira, do rio que é esgoto, da construção da ponte que matou silenciosamente, do concreto, do cimento, do tijolo, da morte por esmagamento, do caminhão cheio de louça que vira em cima da menina, da morte que transforma gente em carne moída;

( x ) Sou contra a cidade. Quero um lugar que não tenha nome, com fruta no quintal, do fumo novinho da folha de tabaco, das caminhadas  - longas e pela sombra de árvores pequenas e gigantes - da bicicleta, do rio de guaraná limpinho, da canoa, da morte doce por afogamento, da morte por cair de uma árvore e se quebrar inteiro, de ser comido por piranha, ser engolido por um jacaré ou lutado bravamente com ele, veneno, vingança, de amor, por ser picado por mil cabas, por feitiço do Alto Rio Negro. 

Por ter o corpo esmagado embaixo de um pneu, não. 

A cidade mata rápido e de forma covarde.

Cidades são moedores de carne, cidades são moedores de gente. 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

comedores de rãs e algumas mortes

1. O Estado de São Paulo: "12 morrem em ataque a jornal francês e milhares vão às ruas".

2. Um livro bom e já citado por este blog: "Pelo menos 60 mil (SESSENTA MIL) pessoas morreram entre os muros do HOSPITAL PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA, cerca de 70% não tinha diagnóstico de doença mental", ninguém vai as ruas.

Cotidiano: "Filho de Dona Nice, quebradeira de coco no Maranhão, é decapitado. Não houve investigação", ninguém vai as ruas. 

Cotidiano: "Massacre de QUARENTA E TRÊS estudantes no México, corpos queimaram por 24 horas até serem jogados em um rio", alguns foram as ruas e este atentado ficará na nota de rodapé de algum artigo de alguém com escrita mais atenciosa. SÓ. 

Cotidiano: "Comissão Nacional da Verdade afirma que 8,3 mil indígenas foram mortos na ditadura militar", ninguém vai as ruas. 


Antes de qualquer frase escrita neste texto a partir de agora, gostaria de deixar claro que nenhuma morte justifica a outra, mas alguns critérios utilizados pela mídia (porca, imunda, burra) devem ser analisados com atenção para que não façamos parte de um coro doente e tão letal quanto qualquer instrumento (ideológico ou não) que matou os citados acima. 

Li algo interessante escrito por um amigo de longa data:

"O que esperar de um dos países mais preconceituosos e xenofóbicos da Europa? Aí o mundo Ocidental, "livre" e correto se sente atacado pelos homens maus do Oriente Muçulmano." (RODRIGUES, Clayton. 2015)

Em tempos de Kátia Abreu no Ministério Dilma coração valente, onde está a direita? a esquerda? a extrema esquerda? a extrema direita? a crítica? a crítica da crítica? as classificações perderam o sentido não só no Brasil, viraram rótulos de geleia. sem exagero.



O inferno serão sempre os outros, os bárbaros também. 



domingo, 23 de novembro de 2014

A comida militante

Não se engane, esse texto está sendo elaborado exclusivamente para os dotados de covardia.

Diante dos acontecimentos recentes contra os povos que não vivem no mesmo ritmo da economia brasileira baseada no agronegócio, por exemplo, você deve manter uma postura mais firme, vigorosa e militante contra as ações do governo federal. Só escrever não basta.

Se as manifestações estão cada vez mais violentas e o seu vudu da Katia Abreu não tem surtido efeito, saiba que há um espaço para você se manter politizada, firme e atuante nos seus ideias sem precisar levar ponto cirúrgico na testa.

Ataque pela comida, calma, vou explicar.

Pra início de conversa, se você decidiu ser vegano justificando que é contra fazendeiro, ruralista ou grandes criações de gado que vem expulsando os pequenos agricultores, dissolvendo a agricultura familiar e demais povos que mantém as duras penas a área de floresta em pé ainda existente nesse país pra você tomar água em casa, saiba que você será rechaçado se vier atacar de soja.


No Brasil a região que mais tem produzido a soja é a centro-oeste... bem pertinho do Parque Nacional do Xingu. A principal queixa dos que resolveram adotar um estilo de vida vegano é que  o consumo de soja por humanos no Brasil não chega a 1%. Já a pecuária, laticínio e ovos (que também usam ração e soja para pecuária) são praticamente 100% responsáveis pelo desmatamento, aquecimento global e efeito estufa.

Diante desta realidade, chegamos a conclusão que a vida não está fácil pra ninguém... tente elaborar outras estratégias para se manter circulando no meio social em que vivemos, ainda sobram a quinoa e pão integral, ouvi dizer que você ainda pode comê-los de boa. Se ficar difícil ser vegano em Manaus, minta e seja cauteloso.

O que fica cada vez mais nítido é que comer virou sinônimo de muita hipocrisia... enquanto você come, indiretamente alguém está sendo explorado, expulso, morto ou escravizado pro seu pratinho estar ali. 

A meta é você arregaçar as mangas:

1. Criar sua própria horta;
2. Ter suas aves pra comer vez ou outra;
3. Juntar com seus vizinhos pra tocar aquele projeto de fazer um pomar no PROSAMIM mais perto da sua casa;
4. Com ambição, ter uma vaquinha;
5. Cultivar uma mini floresta num espaço de seis vagas de carros que um indiano ensinou a fazer um dia desses no youtube.

How to grow a tiny forest anywhere

Tenha o cuidado de se informar quais as espécies
da região pra você não promover um desastre ambiental. 

O céu é o limite se você tem uma ideia legal.

Engraçado que antes de escrever esse texto, a motivação foi para falar da Dona Nice e agora não tô achando um gancho pra inseri-la, bom, o gancho foi esse! O texto é meu e ela entra agora. simples.

É fato que ao lutar por um cocô macio, sim, é isso mesmo que você leu, um cocô fibroso e macio, você percebeu que os grão, legumes e água são fundamentais nesse processo e passou a investir mais neles...

Diante deste propósito de vida muito digno e os encontros maravilhosos que acontecem na sua história, você conheceu Nice e Querubina, duas mulheres incríveis:


As quebradeiras de coco babaçu são mulheres agroextrativistas, guerreiras forjadas na luta pela conservação das florestas de babaçu, pela terra, pela valorização do extrativismo e pela dignidade de ser mulher, as quebradeiras de coco babaçu ganham força política ao se descobrirem como sujeito coletivo a partir da própria atividade produtiva que desenvolvem, sempre realizada em rodas de conversas, em grupos de amizade e em parcerias por laços de família, compadrio e vizinhança. Link: MIOCB - Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco de Babaçu.


Cacho de babaçu

Daí iniciou minha relação de amor com essas lindezas de pessoas e o azeite de óleo de babaçu da Nice que coloco diariamente na minha marmitinha e em uma infinidade de pratos que você pode fazer substituindo o óleo de cozinha (É INFINITAMENTE MAIS SAUDÁVEL)! Se você não teve a sorte de encontrá-las, ou conhecê-las... vá ao Maranhão nos municípios de Imperatriz ou Penalva, ou compre pelo Site: Produtos de Babaçu. amei! :)


Azeite, novembro, 2014.


Uma outra proposta legal é você consumir os produtos cultivados pelo Movimento Sem Terra (MST):


Tem outros produtos no próprio site do MST

Olha que entrevista linda:

É preciso mostrar para a sociedade as diferenças entre agronegócio e campesinato. O agronegócio procura evitar esta diferença, afirmando que a agricultura familiar é agronegócio. É preciso manter a diferença para que a sociedade entenda que o campesinato produz comida saudável enquanto o agronegócio produz comida contaminada, produz lixo. A reforma agrária tem que ser feita na perspectiva da agroecologia, com ordenamento territorial para proteção ambiental. Os limites do agronegócio está no que ele mais defende: a produção em grande escala. Leia na íntegra: revista fórum.

Essa matéria tá bem bacana também: MST 30 anos - da terra à comida.

Em Manaus há um grupo de mulheres indígenas/agricultoras da etnia Kokama que cultivam uma horta de legumes e verduras sem agrotóxicos na comunidade Nova Esperança. Fica no Km 08, mais conhecida como ramal do Brasileirinho, no bairro Puraquequara II (zona leste). É tudo muito lindo e gostoso!!! :D~

Fonte: Altaci Rubim

Fonte: Altaci Rubim

Fonte: Altaci Rubim
Atualmente as mulheres Kokama estão vendendo, também, os seguintes produtos:


ahhhhhhhhhhh eu quero uma garrafinha!!!! :)

Aproveite o ritmo de plantações e consuma o que tiver no sítio dos seus pais também:

Macaxeira, novembro, 2014. a primeira fofura!!! <3

Agora é o seguinte, se você acha que comprar um azeitinho das quebradeira de coco ou um saquinho de arroz do MST é o suficiente, não se iluda, como eu já disse no início do texto: ESCREVI PARA OS COVARDES (como eu). De toda forma, acredito sinceramente que a compra desse saco de arroz, ou o azeite, ou os legumes das mulheres indígenas seja bastante significativo para cada uma dessas pessoas.

Não esqueça de agradecer todos os dias à esses seres maravilhosos que pagam com a própria vida para que você respire, coma e beba água até hoje. Sinto lhe informar que não é exagero, pare de veicular discurso de ódio contra essas populações, ser contra a demarcação dos seus territórios e achar que a Globo tem razão quando vulgariza e criminaliza esses movimentos que resistem as duras penas à esse modelo absurdo de desenvolvimento. Aliás, esse desenvolvimento é pra quem?

O mundo é bem maluco.

Leia: "Cem anos de solidão", maravilhoso é pouco.







segunda-feira, 18 de agosto de 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Poe e a vingança

Tem um tempinho que criar novas rotinas era sua melhor especialidade... 

Tem uma recente que está até razoável. acordando em horário satisfatório, atividades físicas na vila olímpica, suquinhos naturebas, bibliotecas, a MALDIÇÃO DA TRANSCRIÇÃO - isso é coisa do demônio, sério - revisar loucamente o texto escrito e evitar encontrar qualquer ser na rua que te faça lembrar da sua escrita... isso tem funcionado, o problema é o tempo. ele anda curto e você não é uma máquina de fazer biscoitos.

Esqueci de um detalhe diário que negligenciei nesse primeiro parágrafo.

Tenho lido um conto por dia de Edgar Allan Poe, logo que acordo.

Alguns diriam: 

- você tá louca? esse cara só pensa em horror, mistério, morte...! como você começa o dia com ele?
- deprimente Natasha, muda esse disco!

Então, vou explicar como cheguei ao querido Poe.

Alguém já comentou no blog e fiquei com a pulga na orelha, fui conferir a resenha naquela versão de "guia de leitura" safada/L&PM pocket... mas que dá pro gasto... curti, ok.

Fui na modesta biblioteca que o Sr. meu pai montou para as moçoilas da casa... e ótimo! ele estava lá! tenho uma versão bem bonitinha do "histórias extraordinárias" na mão. Na empolgação, li a primeira página do conto: "a queda da casa de usher"... mas o meu estado emocional da época não me permitiu continuar... era muito prelúdio de história de terror de quinta pro meu gosto, preconceito total e foda-se, não vou ler isso.



Até que me deparei com um texto do querido Norbert Elias: "Les pêcheurs dans le Maelström".
Já não basta essa praga ser em francês? que diabos é Maelström?!

*

Hoje eu percebo o quanto aquele brinquedinho é importante...

quebra-cabeça

Fazer nota mental de brincar loucamente com a minha afilhada...

*

No início do texto de Norbert Elias, ele já explica o título... e é referente ao conto de quem? do Poe!

"Uma descida ao Maelström"... pg. 377.

Pra ser uma exibidinha completa, corri lá e li antes. DEMAIS!
adorei tanto o texto do Elias quanto o conto de Poe, a relação foi genial!!!

E aí começou a nova rotina: Poe me dá bom dia, todos os dias.

*

Agora preciso apresentar a minha mais nova melhor amiga virtual: Tatiana Feltrin :)
Esse mundo é meio triste sabe? a gente gosta tanto, se sente bff, mas a Tati nem tchum pra mim. ô mundo cruel. 

A Tati é uma devoradora de folhas escritas! ela é professora de inglês e os livros que lê é no percurso do trabalho pra casa e de casa pro trabalho... ao todo dá umas três horas... não é incrível?! PARE DE RECLAMAR ONTEM!

Ela lê cada porcaria, coitada... mas acho admirável o exercício de transformar o cérebro num músculo sedento sabe? não me peça pra ler porcaria, eu não leio. sério. já me basta os meus parágrafos! sem falsa modéstia. Já a Tati... céus! é um exemplo de boa samaritana.

Mas antes de falar da minha impressão dos poucos contos que li do Poe, vocês precisam ver esse vídeo da minha amiga Tati:

10 coisas que talvez você não saiba sobre E. A. Poe, Tatiana Feltrin.


Gente, é muita morte na vida deste homem!!!!
E aí que as coisas foram ficando mais claras no meu miolinho cinzento... 

*

Então, 

tenho passado por algumas dificuldades... dentre elas, as minhas limitações em lidar com o "fim" o "ponto final existencial"sabe? com a morte inclusive... isso tem gerado alguns transtornos que ainda enche MUITO o meu saco e tem levado rios de dinheiro do meu bolso.

A morte de alguém, se você não for um psicopata/assassino, é algo que foge totalmente do controle certo?
certo. Ninguém sabe o porque dessas merdas acontecerem. E não tem UMA versão razoável do pós morte que te conforte... uma tristeza.

Nos contos de Poe, os personagens tem o total controle sobre a morte... inclusive, ele chega a enterrá-los vivos! SENSACIONAL! 

Sabe porque?
Ele se vingou!

Vingança!
VINGANÇA!
V-I-N-G-A-N-Ç-A-!

*

Poe, meu querido... eu entendo você.

Beijos com muito carinho e admiração,

Natasha.










domingo, 23 de março de 2014

Daniela Arbex: a mulher que sabia javanês



- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo ! 
- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado ! 
- Cansa-se. mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil  imbecil e burocrático.

Fonte: O homem que sabia javanês, Lima Barreto. 

A burocracia se tornou uma ferramenta para matar, pra você que acredita na ONU e acha que ser ativista dos direitos humanos é fofura total, tome cuidado, a fogueira, a forca, a cadeira elétrica foram substituídas.

É um papelzinho aqui, uma lei acolá... e zás! adeus liberdade, a morte é certa! para aprofundar e criar argumentos memoráveis de boteco, leia sobre a "judicialização da política".

Ando muito impressionada com um livro que li recentemente da Daniela Arbex, essa jornalista mineira é incrível.

LEITURA OBRIGATÓRIA!


Se pra você, o "inferno eram os outros" ou os alemães e as atrocidades da segunda guerra mundial, prepare-se, o buraco é mais embaixo ou em Barbacena... aquela cidade mineira, cheia de flores, docinhos e queijos, que ficou nacionalmente conhecida pelo personagem da "escolinha do professor raimundo", Joselino Barbacena. 


Essa foi a principal lembrança de Barbacena até ter acesso as histórias e fotos do livro de Daniela:

foto: Luiz Alfredo, da então revista O Cruzeiro

foto: Luiz Alfredo, da então revista O Cruzeiro

foto: Luiz Alfredo, da então revista O Cruzeiro

foto: Luiz Alfredo, da então revista O Cruzeiro



foram 60 mil mortos entre os anos de 1903 a 1980


Coisas que não vão sair da sua cabeça:

uma decisão "brilhante" (sem ironias, essa ideia foi aderida em outras instituições) do Estado de aumentar o número de leitos no hospital colônia com camas de feno, sim, palha (!) onde era impossível fazer a higiene de fezes, urinas, além da proliferação de roedores e insetos de toda qualidade que você imaginar.

a outra ideia brilhante, foi fazer um curso de "tratamentos com choque"... as cozinheiras ou responsáveis pela limpeza eram "treinadas" para manipular as máquinas... mas esse treinamento era feito com os próprios pacientes... "puxa vida, esse morreu, mais sorte na próxima maria, vamos baixar a frequencia, pega outro paciente".

os que se cobriam sua barriga com fezes, para que não fossem tocados ou violentadas de alguma forma, mulheres grávidas utilizavam essa técnica com frequência.

a comida que mesmo com variedades de legumes e verduras nas hortas, era feita sem, "pois não havia quem cortasse".

a mais chocante de todas, foi a prática corriqueira dos funcionários, de deixar os pacientes no meio do "pátio" sem roupa, com frio... tente imaginar a temperatura em Barbacena, se quando o tempo fica nublado (ou chove) em Manaus você já tira aquele seu casaquinho da gaveta, imagina pelada, com fome e ao relento no sudeste do país. 

Eles se agrupavam e dormiam empilhados para driblar o frio, muitos amanheciam mortos, asfixiados, ou pela baixa temperatura. os que não sobreviviam eram decompostos em ácido para virar sabão, no pátio mesmo, quando os corpos começaram a não ter mais interesse nas faculdades de medicina... gente, o que é isso... estamos falando de meados de 80 (MIL NOVECENTOS E OITENTA) e sabe-se lá até quando isso ainda ocorre.

salve Franco Basaglia!


Referência mundial para reformulação da assistência à saúde mental
1924-1980, Veneza

As universidades/faculdades de medicina também foram cúmplices, havia/há um comércio abominável de corpos e a grande maioria do hospital colônia era (quando era) diagnosticada com tuberculose, ou seja.

Eles eram a escória da humanidade, mas asfaltaram ruas, trabalharam na construção civil e nas hortas em regime de escravidão total... isso não tem trinta anos... mesmo após a lei 180 de 1978.

Os considerados loucos eram, muitas das vezes, pessoas que estavam tristes, mulheres com TPM, mulheres que brigavam com os pais e gritavam na rua, prostitutas, bêbados, mãe solteira... se identificou com alguma? aliviou por não ter nascido em Barbacena? você, muito provavelmente, teria sido colocado no "trem de doidos" e seria uma vítima do hospital Colônia.

70% dos internados não tinham "doença mental".

Fiz uma disciplina que sempre quis fazer e, recentemente, foi inaugurada em Manaus no PPGAS/UFAM: "antropologia do direito". pra você que gosta de ficar exibidinho e afiado é uma ótima! Li alguns textos sobre o Estado... e estou terminando o trabalho final falando de reservas/parques e terras indígenas da etnia Mura.  
Sinceramente? você chega a conclusão que essa bosta toda de estado e lei, é uma ficção, uma cadeira elétrica. percebi que o tempo todo, estamos num treinamento idiota pra falar Javanês sabe? e que eu tenho muita dificuldade em aceitar esse papel de coadjuvante/cúmplice/vítima das ações de um louco desenfreado. mudez, ódio e roupantes são sentimentos constantes. 

pergunte-se bem rapidinho, onde estão os "loucos", "os presidiários", "os usuários" e tente imaginar em quais condições eles vivem. este exercício serve para as ditas "instituições totais", temas favoritos de Foucault.

Ah, ele também esteve em Barbacena!

No livro diz que o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) fez uma pesquisa em 2004 (DOIS MIL E QUATRO) e sabe-se que existem 28 (VINTE E OITO) instituições com as mesmas práticas do hospital de Barbacena até hoje, tente dormir com essa... até quando você vai dar poder pra essa cambada de filho da outra?

Enquanto isso, no lustre do castelo, você toma seu leitinho quente com farinha láctea antes de ir pra sua caminha gostosa, falando mau daqueles seres pavorosos e sem classe que frequentam shopping center. hã? uma país de imbecis.

castelo rá-tim-bum

Ontem estava andando pelo bairro e vi uma senhora que costuma caminhar nua pela rua com um sorriso sempre enigmático no rosto. pela primeira vez na vida, não senti vontade de levá-la para nenhum outro lugar, nem cobrir o seu corpo, finalmente aprendi que ela pode andar do jeito que quiser, por onde quiser... livre são os "loucos"! os incomodados que se retirem/se mudem/se matem (grata), o quanto antes, muito obrigada Daniela Arbex.

Estou doida pra escrever e mostrar as fotos das "ruínas de paricatuba"! 
mas precisava dessa introdução do livro da Dani.

Dani e Luiz, o fotógrafo das imagens utilizadas no livro, do hospital colônia.


*

Me propus a ler três livros de "ensino médio" por esses dias:

1. O triste fim de policarpo quaresma (Lima Barreto), por sorte, tenho em casa. tio Fabinho fez vestibular em mil novecentos e bolinha e esqueceu por aqui;
2. O homem que sabia javanês (Lima Barreto), baixei na net, é um pdf porco!
3. Urupês (Monteiro Lobato), fiquei com vontade de comprar, ao mesmo tempo quero aprender a usar o kindle pra ler essas coisas mais básicas em pdf e comprar só os livros metidinhos sabe? mas nem sei, tô em transição, falta espaço pra livro e a mochila de viagem anda pesando demais... ando nutrindo fortes desejos por um tablet. mas gosto tanto de livro... ai... :~, vamos ver.

*
por favor, parem de me chamar pra beber! tenho que defender em março e ando arrumando muita sarna pra me coçar! ok, mentira. se não chamar vou ficar puta e acrescento, beber E comer por favor. caldeira só em data comemorativa, faço votos que reformem sua cozinha. 



ps: esse texto estava escrito desde janeiro (acho)... rolêzinho no shopping ainda era notícia.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sábado visceral: ritual, substância, visões


Não tinha lido quase nada propositalmente, sabia uma coisa ou outra: "o gosto é ruim".

Num ambiente controlado, isolado e especial, pessoas fantásticas e experientes, resolveram se reunir e compartilhar um momento único com neófitos. 

Um detalhe importante: estava sem água e luz.

Velas, chás diversos, conversas e confecção de instrumento musical em palha foram os momentos iniciais. a recomendação foi preparar o corpo bebendo bastante líquido, o almoço deveria ser mínimo. as 20h começamos.

Houve a nominação, era necessário ter um dos nomes ancestrais. 

sentamos em círculo, mulheres de um lado, homens do outro. cantos, danças, curiosidade.
vinte minutos se passaram, trinta? quarenta? ao todo: CINCO HORAS. mais.

peço ajuda a Jean Langdon (1992) no texto "A cultura Siona e a experiência alucinógena":

"Deve-se atravessar três estágios para que o espírito possa sair do corpo e viajar com o xamã. No primeiro estágio, o aprendiz apenas experimenta náusea e desconforto, que podem ser acompanhados por vômitos e diarréia".

suor, espasmos, medo, merda, cheiros, vômitos, vibrações, texturas, cores, visões, dores, nojo, pavor...

sem apologias: f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.

Etnografia completa* na dissertação: RÁ!

ou não. rs


domingo, 18 de agosto de 2013

pureza e perigo: o corpo é pouco

ameba


(...)

Peste bubônica

Câncer, pneumonia

Raiva, rubéola

Tuberculose e anemia

Rancor, cisticercose

Caxumba, difteria

Encefalite, faringite
Gripe e leucemia...
E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania...
Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Cãibra, lepra, afasia...
O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
(...)
Titãs, O pulso.

Dia desses almocei no INPA... e sempre o imagino como minha mini Manaus num mundo ideal: estou falando do bosqueado lindo que tem por lá. o almoço foi bom e tinha uns saquinhos tentadores de DOCE DE LEITE (!!!!) com a data de validade a.c. e expostas a poeira, baratas, ratos e tudo que a sua imaginação permitir... arrisco dizer que eles foram os culpados.

náusea, dores de cabeça, dores abdominais.

primeira suspeita: é o calor;
segunda suspeita: tô grávida;
terceira suspeita: infecção intestinal.

fui no meu SPA favorito, levar a tia Bia que estava com dores absurdas nas costas e aproveitei pra fazer umas perguntinhas ao google, digo, ao médico do plantão.

depois de fazer aqueles exames constrangedores, veio o diagnóstico:
ataque violento de ameba e outros amiguinhos.

- toma annita.
- aquele que o xixi fica da cor de marca texto?
- esse.


foram quatro dias de muita dor e cocô líquido, obviamente. o meu emocional oscilava entre "chega, vou me entregar, não dá mais pra viver desse jeito... vou mudar de vida, nunca mais como porcaria, vou estudar mais, inclusive doar umas roupas, organizar os textos, ler mais, vou qualificar, chega de enrolação... vou morrer, não aguento mais... essa bipolaridade linda durou um tempo.

entre um delírio e outro, assumi uma reflexão mais holística e pensei que essa semana de confinamento e dor, poderia ser um sinal de um processo/ritual de purificação, limpeza... de repente, tudo pareceu fazer sentido!

Todos os protozoários, pessoas, sentimentos (...) que um dia habitaram em mim, estavam se retirando devido a dolorosa eficácia de annita... em outras palavras, "eu caguei você".

Mary Douglas é a autora do livro Pureza e perigo: ensaios sobre noções de poluição e tabu (1966), onde analisou diversos rituais considerando os conceitos de pureza e perigo como um meio para pensar a estrutura social. todos piram no Levítico.




O texto explica que no século XIX as religiões primitivas se diferenciavam das grandes religiões do mundo com base na ideia de que as primeiras são inspiradas pelo medo e estão inextricavelmente misturadas com as noções de impureza e de higiene. 

A relação de impureza está totalmente ligada com a desordem e é disso que eu tô falando minha gente! CHEGA! 

fui tentar fundamentar toda minha doidice de Monica Geller, nas teorias de higiene - ordem - desordem do mundo - mas, minha amiga Mary me sugeriu calma e selecionou alguns pensamentos interessantes para o dia de hoje, vejamos:


"a impureza, que é normalmente destrutiva, pode se tornar criadora, transformadora"

"A busca pela pureza desemboca em contradições. Ex: pureza sexual: a ausência total de contato entre os sexos, não só nega a própria sexualidade, como, literalmente, leva à esterilidade."

"Sempre que impomos à nossa existência um modelo rigoroso de pureza, tornamo-la terrivelmente desconfortável; e se formos até às últimas consequências, desembocamos em contradições ou até na hipocrisia"


Mary Douglas fofinha <3

Querida Mary, 

até que para um domingo, você nos propõe excelentes reflexões.

grata por tudo,

Natasha.














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