- Será que esses biólogos ainda levam artistas pra fazer a pintura das florestinhas e bichinhos quando fazem trabalho de campo? tipo os amiguinhos de Humboldt?
- Claro que não! Se for um biólogo hipster, no máximo, leva uma Halma flex.
Muito bem, vamos aprender juntos sobre o que é o Hipster. Segundo uma amiga etnóloga, o hipster é quem "evoluiu" do hippie e está muito satisfeito com a "evolução" hahahahahah. Fazendo uma pesquisa preguiçosa no google, morri de rir das definições que encontrei, mas tô sem saco de escrever de maneira dicionaresca . Em poucas palavras, trata-se de uma maneira de se expressar no mundo através de um saudosismo recorrente, digamos assim. rs Isso inclui aversão à smartphone ou whatsapp.
Os lumberjack ou lumbersexual, segundo fontes seguríssimas, entram nesta categoria.
É um mix de festa junina, lenhador, grunge, hells angels fit, nerso da capitinga gostosão, roupa do vovô, e, white... ao que parece.
Aproveitando a onda, eu tô com uma coleção de vinil linda-maravilhosa neste inverno. Não vou mentir, sempre achei coisa de gente poser old school [hipster]. MAS, como tudo na vida muda, tenho percebido que o vinil permite a gente experimentar a música de uma forma diferente.
Além daquele barulhinho maravilhoso de matinho queimando toda vez que começa alguma musiquinha, os saudosos LP's [long play] nos permitem ouvir um album todinho de modo que mergulhamos na vibe do artista que elaborou uma sequencia especialmente pra gente. E, diferente do meu amado youtube [não dá pra cuspir no prato], você não precisa se preocupar com as propagandas irritantes ou qual a outra música que vai escolher... acabou a ansiedade! Esse é o ponto!
O LP foi feito pra você ouvir inteiro, como uma comidinha que você come inteira, sem guardar pra amanhã. Essa referência foi péssima, pois é ótimo quando sobra pra guardar pra amanhã, obviamente :3
Ainda que seja a empolgação da novidade, sinto que o som do LP preenche a casa de um jeito diferente. É uma mini festinha diária, um evento, quando coloco qualquer album pra ouvir. Tô amando! Além de tudo, ele ainda pede pra trocar de lado... ai, ai, ai, fofura total!
Dia desses estava sentada em um dos vagões da pink line e percebi uma dança, bem ao meu lado.
Me pareceu dois conhecidos que não se viam algum tempo. Um deles sentava ao meu lado e o outro à sua frente, de modo que a conversa que já tinha sido iniciada antes deu chegar, se transformava num espetáculo bem diante da minha localização privilegiada, escolhida sem muito critério.
Sem querer, e depois querendo muito, reparei nos movimentos de braços, pernas e depois do corpo inteiro que ambos realizavam de maneira sincronizada. Enquanto um falava em diversos tons o outro ria, mexia as mãos levantava e baixava o corpo, a cabeça ia junto com a fala e o riso. Eram movimentos que nunca se repetiam.
Estava diante de uma dança!
A dança consistia em linguagem, em comunicação, isso era a base da afinidade musical que a voz de ambos, cheia de alegria e entusiasmo pela performance do outro, tinha. Não parecia amor, paixão ou amizade, é difícil encontrar uma palavra... talvez movimento. Sem muitas regras e com muita fluidez, isso era afinidade.
Afinidade me pareceu bem estar, relaxamento, alegria... quando encontramos nossos afins. Uma maneira de ser, falar, escutar e sentir em silêncio, na medida que se expressa com o corpo e a voz com este outro... quanto mistério!
Era um homem e uma mulher, arrisco que teriam sessenta ou setenta anos. Uma análise apressada poderia indicar que estavam indo em direção ao Cottage Grove. Meu olhar era atento, persistente... porém furtivo, não podia ser descoberta. Meu encantamento poderia parecer rude.
Fiquei hipnotizada por aqueles braços e pernas gigantes que mal cabiam no banquinho da pink line. Continuavam se movimentando freneticamente, ainda que outros corpos passassem no pequeno corredor que os dividia. Ambos estavam próximos às portas, podiam sair a qualquer momento... juntos ou separados: isso não era o mais importante. Fiquei tão absorvida pelo movimento das vozes e corpos alheios que levei um susto quando o ruído congelado, que tem como sina se repetir infinitas vezes naqueles vagões, disse alto e feroz: Damen.
* Inspirado em Borderlands/La Frontera de Glória Anzaldua: pdf do livro:) Last week, comecei um curso de inglês. No primeiro dia, todos fomos nos apresentando com nome e país de nascimento. A professora, Helena Rickijevic, pediu para que adivinhássemos de onde ela "era". Muitos falaram Rússia, eu chutei Polônia [entendedores entenderão o motivo rs]. Ela sorriu e disse que seu pai havia nascido na Polônia, mas ela "era"da Bósnia.
Um mapinha para os perdidos que nem eu
Espremi o meu cérebro sobre o que eu sabia da Bósnia e só veio conflito armado e guerra. Fiquei tentando imaginar o tipo de vegetação que o país de Helena tinha, as danças, as frutas, os doces e até o tipo de casa que ela cresceu. Não veio nada: só a guerra. :/
Aos poucos, as pessoas foram se apresentando: Afeganistão, Ucrânia, Equador, Kensington, México, Nepal, China, Tailândia, Chile, Gana, Romênia e eu, do Brasil. Tomada pela empolgação instantânea, fiquei imaginando um Fórum maravilhoso, no qual nós discutíamos [juntinhos e abraçados] sobre "nossos" países e toda a experiência que cada um tinha. Desde a diversidade cultural, geográfica, AS COMIDINHAS, até os conflitos "pós-coloniais" [um posicionamento crítico, não como um período no tempo] através da história de vida de cada um... não seria maravilhoso?
O que nos traz à Illinois? O prazer de andar? Ainda não sei, sem pressa.
Fiz uma busca rápida sobre a língua de cada um dos países de meus coleguinhas de classe. Vou utilizar o critério de língua oficial... no entanto, considerando que o Brasil tem aproximadamente 150 línguas indígenas não-oficiais, tente supor a diversidade linguística dos países dos meus novos amiguinhos. Este critério "oficial"é falso, pra não dizer ridículo.
Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendaju.
Um dos mapas mais lindos do planeta.
Aqui tem o artigo falando do mapa:
http://www.etnolinguistica.org/biblio:nimuendaju-1981-mapa
[Respirando fundo] Vou continuar, só pra dizer que não falei das flores:
O livro didático oferecido para termos aulas de inglês duas vezes por semana é esse:
Observem as pessoas que estão no livro e o que estão fazendo.
A interpretação é livre <3
Ainda na semana passada, assisti a palestra "Decolonizing the Prehistory of Island Southeast Asia and Pacific" de John Edward Terrel, num dos principais Museus de História Natural de Chicago. Pra ser bem sincera, eu não tenho certeza se poderia estar assistindo essa palestra... provavelmente não. O fato é que eu assisti por ser exibidinha e entranhada. Por considerar abominável não compartilhar o que DEVE ser compartilhado, mesmo não sabendo se posso [juridicamente falando - #vidaloka] ou não, seguimos.
*
Ainda é difícil acompanhar uma palestra inteira em inglês, inclusive os debates, sem um desespero interno de saber do que as pessoas estão balançando a cabeça, rindo, ou de compreender todo o conteúdo que foi preparado para aquele momento. Passado um tempinho de pânico, lembrei das aulas e palestras que assisti na minha própria língua materna e da quantidade de vezes que não entendia bulhufas... ri sozinha e me acalmei.
John Terrell falava sobre a quantidade de línguas existentes num raio de 100 quilômetros quadrados naquelas ilhas maravilhosas da Western Melanésia, Polinésia [Oceania]. Eram aproximadamente uns setenta e cinco grupos linguísticos. Cada "vila" tem sua própria língua, seu próprio mundo e o fazem através de um cultural connection, segundo ele.
Do nada, um velhinho, bem velhinho, sentado na minha frente, perguntou o seguinte: porque tantas línguas diferentes não se "amalgamavam" [implorei pra Ana traduzir essa palavra pra mim rs] ou se fundiam? O botânico não parou por aí. Segundo ele, diversos estudos da sociologia biológica [oi?] afirmavam que na história mundial, as pequenas tribos foram se expandindo para grandes comunidades, naturalmente, e uniformizaram sua língua. Então, porque essas vilas não se amalgamavam?
Imaginei se a família Lima Barreto da etnia Tukano, do rio Tiquié, [Alto Rio Negro-Amazonas], teria a mesma opinião sobre o "naturalmente". Fiquei me perguntando o que leva a pessoa a ignorar os processos de violência que fazem parte de uma homogenização ou imposição de uma língua.
John respondeu: What's the pay off?
Ele ficou puto, alguns riram de canto de boca, ficou por isso mesmo e acabou a palestra.
Sério? Nojo de imaginar que o mundo inteiro vai falar esse dialetozinho mequetrefe. *
Difícil engolir a bosta desse inglês viu?
Hoje falaremos de projetos que já apontavam para relações internacionais entre o Brasil e a República Árabe do Egito, esse país lindo, que só faz gente linda. Percebam as características artísticas dos efeitos especiais desta obra atemporal "Essa é a mistura do Brasil com o Egito" ou "A dança do ventre". Assim como a empatia com a cultura local que o grupo artístico, avant-garde, nos faz sentir com a sua propositura.
Considerando o artigo de Marilyn-Diva Subject or Object: Women and the Circulation of Valuables in Highlands in New Guinea, negligenciaremos, muito a contra gosto, a discussão da mulher enquanto sujeito ou objeto. Não vamos considerar a apresentação performática do homem de alcunha jacaré, pois ele não é vítima da canção, digo, não é citado nas estrofes do grupo É o tchan .
Sentimento imprevisto: Marilyn errou. Não tem essa putaria de relativizar essa porra toda com exemplo lá das New Guiné não. Aqui o bagulho é claro, essa aberração é ultrajante! morte ao cuzão do califa!
Então, como eu ia dizendo, esta canção, incluindo o clipe, é uma saudação ao corpo da mulher cis e a sua forma de expressão em estado "pleno" através da dança. O estímulo provocado por esta potência, é homenageado por diversas vezes nas estrofes bem elaboradas. Este grupo, considerado Patrimônio da Cultura Brasileira, formou gerações que dispensaram ajuda psicológica-profissional no quesito pegação. A naturalidade com que estas técnicas corporais foram inseridas no seu cotidiano, dispensaram qualquer aula de C.F.B. [Ciência, Física e Biológica].
Foto de Luiz Vasconcelos, 2008. Manaus, bairro Lagoa Azul, 2008
Despejo Indígena no bairro Lago Azul, Manaus AM, 2008
"Depoimento de
Valda Ferreira de Souza/Mani Silva Satere
22 anos, etnia Sateré-Mawé
Dia 24 de abril de 2008
Naquele momento (referindo-se à ação de despejo pela tropa de choque da PM na Lagoa Azul em 10 de março de 2008), não sei o que passou pela minha cabeça para enfrentar todos aqueles policiais. Primeiro porque eles chegaram agredindo a gente, sem conversar foram empurrando e batendo. Não queriam saber se eu estava com criança, se eu estava grávida, e me empurraram em cima do fogo com violência. Cortaram nossas redes. Naquele momento pensei só em ficar lá mesmo, parada lá, para ver o que eles iriam fazer com a gente.
Eles chegaram cortando os punhos das redes. Ainda minha filhinha estava deitada na rede. Eles não queriam nem saber, cortaram as redes. Ela caiu no chão e foi o momento em que eu corri para pegá-la. E foi na hora em que eu parei no meio deles, quando eles iam levando tudo. E fiquei parado lá, não sabia se eles iriam me bater. Alguns dos policiais me chutaram e me cacetaram, como aparece nas fotos. Falavam muitas coisas nos ofendendo: que "a gente não era índio", que "a gente já era civilizado", que a gente era "invasor". Está certo que a gente errou um pouco lá, por causa que o dono tinha realmente o documento da terra, estava legal, e a gente não sabia. Mas se eles chegassem lá falando que o dono da terra estava legal e que a gente saísse, a gente ia se retirar de lá. Mas não foi isso que aconteceu. Chegaram agredindo a gente e batendo mesmo. Meu marido foi espancado, o André. Ele levou um... Com a espingarda, na boca dele, que espocou. Ele foi agredido e humilharam mesmo ele, antes daquele momento. Enquanto estavam batendo no meu marido, foi a hora em que eu fiquei com meu filho parada, enquanto eles foram me empurrando e me chutando. O que eu senti foi raiva mesmo dos policiais porque que fizeram isso conosco. A única coisa que falaram: foi o governador que mandou fazer isso com a gente. O presidente da Funai falou que tinha lavado as mãos por nós. Foi isso que eu fiquei com raiva, naquele momento fiquei cega, não queria nem saber se iriam me matar ou não. Realmente eu nem pensei no meu filhinho que estava no meu braço. Hoje quando eu olho aquelas fotos, me dá tristeza e remorso por terem feito isso com meu filho. Nem pensei em mim mesmo, se eu estava grávida, esperando um filho.
Nosso espaço aqui na Redenção é pequeno, cada vez vai crescendo as famílias. Como eu, com esse que vai nascer, já tenho quatro filhos, e o espaço aí é pequeno para eles brincarem. Minha filha brinca de bola, aí ela joga lá para baixo, não dando para pegar, porque os brancos não devolvem mais a bola. Eles implicam também com a gente. Aí não dá para ela correr, pois se correrem as crianças caem. Aí o espaço é pequeno. Estamos lutando por um espaço... Lá é bonito, grande, plano, dava para plantar e colher. E aconteceu isso.
Nós soubemos por meio dos parentes que já estavam lá há cinco anos, que já tinham sido retirados.Tinham alguns Sateré-mawé, que vieram de Maués, Kokama e Tikuna. Então nós fomos para lá. Fomos praticamente ajudá-los a conquistar um pedaço para nós. Nós soubemos por meio de outros povos que já estavam lá.
Nós não queríamos nem nos entrometer nos problemas deles [dos sem-terra] para lá. O problema deles era um, o nosso era outro. Falam que nós fomos usados pelos sem-terra. Não, nós não fomos usados. Até mesmo porque naquele momento ninguém nos defendeu. Nós mesmos ficamos lá, nem um branco nos defendeu. Tinha gente gritando lá: "não bate nela, não, ela é índia!". Essas coisas. Eles não queriam ouvir, falaram que a gente era mentiroso, que estavam nos usando. Os policiais mesmo falavam ofendendo, que a gente não presta para nada, só prestava para ser pisado, como eles fizeram com nossos cocais, nossas flechas, que eles quebraram tudo.
A gente tentava avisar as organizações como o CIMI. A gente tentava ligar para elas, só que elas não. A gente foi à Funai. Ele foi lá também, depois falou que no outro dia iria. Só que isso não aconteceu, ele nos abandonou, a Funai que é para nos proteger.
Algumas comunidades Sateré-mawé procuraram nossos direitos para ter um espaço melhor, outras não, estão para o outro lado à procura de outras coisas para si próprios que atrapalham um pouco. Mas têm outras organizações que estão interessadas na gente de ver um lugar melhor. Se nosso povo Sateré-mawé fosse tão unido assim por uma terra melhor acho que a gente conseguiria, mas não está havendo isso, não.
De modo geral, o principal desafio para nós é a terra e o trabalho mesmo. Não temos como trabalhar e plantar. Se tivesse uma terra grande que desse para trabalhar, acho que dava para tirar nosso sustento, mas não tem. Só vivemos do artesanato.
Lutamos por uma causa boa, por um lugar melhor, um lugar digno, que todo mundo merece ter. Eu queria aquele pedaço de chão para morar com meus filhos, vê-los crescer, brincando num lugar bom. Outras coisas que eles falaram é que a gente não tinha direito, porque essa terra era lá para o meio do mato. Acho que não, nós temos direito de viver uma vida boa, não somos socados no meio do mato sem termos direito a nada. Nós também estamos sendo humanos e queremos uma coisa melhor também.
Tem pessoas que moram na aldeia e voltam... Não é a questão da divisão "cidade" e "interior". Ele mora no "interior" e tem a relação com a "cidade". Não tem diferença de "cidade" e "interior".
São 18 organizações. Nós gostamos muito de separar. Elas se relacionam com a base, não há um corte. Os parentes da base, do "interior", se hospedam nas nossas casas. E fazemos defumação na casa inteira."
ALMEIDA; DOS SANTOS. Estigmatização e território: mapeamento situacional dos indígenas em Manaus. Manaus: PNCSA/UFAM, 2008. p. 111-3.
Exilado em Londres desde 1969, Caetano Veloso obteve permissão para ficar um mês no Brasil em janeiro de 1971 para assistir à missa comemorativa dos 40 anos de casamento de seus pais. No Rio de Janeiro, o cantor foi interrogado por militares que pediram para que fizesse uma canção elogiando a rodovia Transamazônica - na época em construção. Caetano não aceitou a "proposta", mas de volta a Londres, gravou no final do ano o LP com o nome de "Transa", lançando em território brasileiro em janeiro de 1972, quando o cantor voltou definitivamente ao país (wiki).
~ A britadeira pós-moderna e os sonhos amazonicocêntricos ~
Nesta semana que passou, fui ao Colégio Militar de Manaus com um amigo. Não teve nenhum motivo especial, estávamos passando por ali perto e gostaríamos de visitar a instituição onde passamos parte da adolescência. O CMM ainda mantém dois soldados munidos de fuzis na entrada principal do prédio e um deles me advertiu que eu não poderia entrar porque estava de sandália.
Na década de 90, entrávamos no colégio de segunda a sexta as 06:30 da manhã prestando continência aos dois oficiais na entrada principal. Na noite anterior ao colégio, tínhamos que passar nossas roupas, engraxar o sapato diariamente e polir a fivela do cinco com brasso, essa era minha parte favorita. O cabelo tinha de estar impecável: lê-se preso, repuxado inteiro para trás, ou feito coque. Brincos pequenos, unhas em esmalte com cores claras [salvo exceções da musa e professora de português/literatura ex-tenente Nicia] e cabelos sem cores "extravagantes" [rosa ou azul, nem pensar].
Ainda na primeira meia hora do dia [06:30-7:00], cantávamos o hino nacional, o hino do colégio, ouvíamos a coronel aluna mais linda da face da terra ~ Luciana Leite ~ proferir algumas palavrinhas, na sequência o tenente Fernando (?) dizia alguns informes da escola ou algumas críticas ao comportamento daqueles jovens cheios de hormônio e adrenalina transgressora.
entendedores entenderão (Duchamp vive)
Voltando ao episódio de 2016:
- Isto não é sandália, é um calçado confeccionado artesanalmente com couro, adaptado ao clima da região. Com toda a gabolice que me restava, arrematei que era ex-aluna e que portanto, tinha todo direito de entrar com as unhas de fora. Essa parte do "tenho todo direito" eu só pensei, não disse. rs
Apesar de estar falando muito sério diante daquele absurdo (unhas de fora), ele sorriu e nos encaminhou para a tenente Bárbara.
Eu, ainda que quisesse entrar no prédio, bufei de ódio e caminhei para falar com a tal superior, hierarquia é um ponto forte naquele recinto. Decidi seguir a estratégia de falar pouco, baixo e sorrir. Deixei o ex-major aluno conduzir a conversa preliminar enquanto me recuperava da raiva.
Desta maneira, munidos de sorrisos, "nos deixe entrar por favor" e outras narrativas de cunho emocional, a dupla de ex alunos conseguiu entrar satisfeita na Instituição. Dica de ouro: jamais subestimem a linguagem e as emoções (LUTZ; ABU-LUGHOD, 1990).
- Vocês só podem observar o pátio principal;
- Tudo bem, muito obrigada tenente.
Esta visita despretensiosa, me fez refletir sobre o que ainda existia de Colégio Militar em mim e o que ele significava na minha breve "trajetória" de vida. O primeiro aspecto que me fazia odiar tudo que aquilo representava, era a disciplina. Essa palavrinha, em linhas gerais, designa "obediência aos preceitos e as regras, boa conduta, respeito a um regulamento, boa ordem"... e só aí, já tenho motivos de sobra para reduzi-la a pó.
A "disciplina" munida de ordem, dentro de uma hierarquia rígida , não nos permite pensar sobre o que estamos fazendo, facilmente nos conduz a alienação... e com essa pequena chave, nos faz cometer as maiores atrocidades já vistas pela humanidade, sem exageros.
A tal da "disciplina", na minha cabeça, sempre esteve associada a instituições como escola, exército, igreja, hospícios, prisões, campos de concentração, morte, alienação... convenhamos, não é pouca coisa.
Acontece que tem algumas semanas, na esperança de mudar alguns hábitos de preguiça absoluta, que tenho pensado no seguinte:
~ um pouco de disciplina não faz mal a ninguém ~
(...)
Após inúmeras reflexões e do bicho papão da alienação, passei a observar os significados da palavra "disciplina" não mais como um fim em si mesmo, mas como instrumento de trabalho, um modo de agir que demonstra constância, método.
Passei a observar mais o cotidiano dos outros, o meu e colhi alguns depoimentos interessantes:
- Filha, havia um costume do seu avô Constantino, do meu avô João Luis, que eu demorei pra entender... ele queria que fizéssemos as refeições sempre juntos e no mesmo horário. Essa premissa significava não só uma intensão em fortalecer os laços de carinho e afeto entre os irmãos e os pais, mas numa gestão dos recursos da casa e da distribuição eficaz dos alimentos. Você imagina se todos fossemos esquentar (ou preparar) a comida em horários diferentes? aquele fogo que era pra durar um mês, não duraria nem uma semana. E como tua avó saberia se todos comeriam o suficiente?
Pois bem, iniciando o meu projeto de "atleta de fim de semana" com meu primo Ítalo na Vila Olímpica, observei dois amigos ensaiando uma coreografia do Boi Caprichoso... imaginei quantos ensaios eram necessários para que ambos dominassem a performance. Pra mim estava ótimo, mas para os dois, certeza absoluta que o treino era fundamental para melhorar a cada dia.
Decidi aprender a tocar um instrumento musical [depois escrevo mais sobre isso] e adianto: meus dedos estão em carne viva, não consigo nem lavar o cabelo direito :~
Os colégios militares foram criados a partir de 06 de maio de 1889, por decreto imperial, para abrigar os órfãos da guerra [inescrupulosa] do Paraguai. Há treze colégios espalhados em todo Brasil: Manaus, Belém, Fortaleza, Campo Grande, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Juiz de Fora, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Santa Maria e Rio de Janeiro.
Considerando que todxs nesse país, com rarí$$imas exceções, foram "educados" ou pelo exército ou pela igreja, não podemos considerar que nosso futuro estará determinado pelo nosso passado ad infinitum. O Colégio Militar de Porto Alegre, conhecido como o Colégio dos Presidentes, leva consigo o peso do nosso passado sangrento fundamentado na ordem e no progresso: Getúlio Vargas; Eurico Gaspar; Humberto de Alencar Castelo Branco; Artur da Costa e Silva; Emílio Garrastazu Médici; Ernensto Geisel; João Baptista de Oliveira Figueiredo.
Um fato interessante, que gostariam de ter subtraído da história desse país [1996], é que Carlos Lamarca foi ex-aluno do CMPA:
"O comandante do Colégio Militar de Porto Alegre, coronel José Eurico de Andrade Neves Pinto [impune até hoje], ordenou a eliminação dos registros da passagem de Carlos Lamarca pela escola, na década de 50. O nome de Lamarca foi tapado na placa da turma de formandos de 1957, exposta no colégio. Foi aplicada uma plaqueta de metal sobre o nome dele [hahahahahahaha, chega a ser ridículo]. As fichas do ex-aluno, que estudou no colégio de 1955 a 1957, foram queimadas."
Carlos Lamarca (1937-1971)
Engraçado que Lamarca tem aparecido na minha vida de maneiras interessantes... fica para um outro texto já escrito e não publicado neste blog. Ainda não conheço o Colégio Militar de Porto Alegre, mas pelas buscas que fiz, Marte e Minerva são xs deusxs que ornam a entrada principal do prédio, sem contar a arquitetura panóptica [Bentham, 1785] que parece tomar de conta, é uma hipótese.
Aprendizado [simples e sincero] da geração legião urbana. Independente de onde ela [disciplina] esteja , não é nem nunca será prerrogativa das instituições: disciplina é liberdade.
Este texto surge a partir de uma experiencia em uma sala de cinema nos arredores de Manaus, melhor, naquele shopping que insiste em não cair. As terças feiras promete não cobrar estacionamento de seus frequentadores e se auto intitula de "revolucionário". Pois bem, aprendemos que as facetas do capitalismo não tem limites...
Infelizmente, por motivo de felicidade, não tenho mais "carteirinha de estudante" e fui surpreendida com a "tabela cheia" dos placares das salas cinema. Nem adianta ir com a sua bolsinha de pano (encardida) que ganhou no congresso pra barganhar o menor preço, respire fundo e lembre-se da experiência que é lidar com bastante sangue, trilha sonora linda e historinhas criativas de um cara legal como o Tarantino: feche os olhos e pague.
Assisti, tem uns 40 minutos mais ou menos, "os oito odiados".
Neste texto que escrevo, há um manto invisível que me protege: o do amadorismo. Há também, uma certa ideia do livro de Michael Baxandall, que tive a oportunidade de ler/conhecer, conversar com outros colegas e considerar os vários questionamentos que vieram com o mesmo. Sem suspense! o livro era "padrões de intensão: a explicação histórica dos quadros".
Citando arbitrariamente o autor, ele explica que:
"Toda inferência crítica sobre a intensão (artística) é não só convencional em vários sentidos, mas também precária" (p. 194)
E agora, a parte que mais interessa:
"Novas atividades como a crítica de arte, que apenas recentemente se tornou uma profissão e foi reconhecida como uma disciplina acadêmica, tendem a se conceder muito depressa uma autoridade especial." (p. 196)
Paulo Nazareth (suspiros para este Homem)
Esse é o combinado: não tenho a menor intensão de discutir a "genialidade" do autor ou a obsessiva corrida atrás de uma originalidade cinematográfica, tal como cachorros que esperam a todo instante uma ração especial a cada estréia, com todo o respeito aos reservoir dogs, obviamente.
O foco é no que esse filme pode nos trazer pra ficarmos cada vez mais exibidinhos <3
*
Nesse domingo, as margens do Igarapé do 40, fui ao aniversário de uma amiga, e ainda que eu estivesse até o tucupi de álcool, pude ouvir ao longe: "eu acho que Foucault despolitiza o movimento social". Logo após ouvir essa frase de gente exibida, a música da festa se sobrepôs ao diálogo e eu me perdi no que estava ouvindo, foquei na melodia do meu contrário:
Jorge Aragão, Parintins para o mundo ver
Numa questão de segundos, estava na ilha. Lembrei do quanto foi difícil esconder a emoção que senti quando vi a Baixa do São José, devidamente encarnada, rasgar o bumbódromo acompanhada daquela batucada alucinada. Minha "identidade" azul e branca foi instantaneamente questionada. Prometi a mim mesma, em silêncio, que caso descobrisse que era garantido, viveria aquela farsa enquanto eu vivesse. Esperei, com o coração na mão, o meu boi preto entrar sem saber ao certo o que ia acontecer.
Ninguém gosta mais desse boi do que eu, Carlos Paulain
A entrada do meu boizinho me salvou, a marujada entorpeceu... e ali, no meio daquele multidão azulada, eu tive a certeza que era Caprichoso, ainda que abaladíssima pela baixa vermelha.
Voltando da minha reflexão solitária enquanto ilhéu, aterrissei às margens do 40 com o Foucault martelando a minha cabeça: pra que serve uma identidade?
*
Em The hateful eight, identifiquei algumas "categorias" aparentemente bem marcadas: mexicano, mulher, estrangeiros, negro, xerife e oficial do exército branco/hetero/cis, que vão nos ajudar a pensar em algumas bobagens divertidas.
abobrinhas
Esse texto demorou para ser publicado por ter seu parágrafo final abalado pelas torres de marfim dessa cidade. Ele já estava todo estruturado no meu miolo, idolatrando a personagem que mais apanhou [na cara] o filme inteiro ~Daisy Domergue ~
Seus dentes foram devidamente quebrados
ao longo do filme, nada de novo sob o sol #vaiterfeminismosim
Aparentemente, não se pode compreender nada, inclusive um filme, de forma absoluta, vamos lidar com as diversas interpretações enquanto camadas de entendimento.
O scholar sentenciou:
Tarantino me decepcionou, vocês viram os oito odiados? "os bandidos", não sei se vocês notaram, eram todos estrangeiros: mexicanos, franceses (...) nos Estados Unidos da América! E o final? bom, não podia ser pior, o xerife (o Estado/a lei) junto com Samuel Jackson [essa foi de doer] o negro do filme, JUNTOS enforcaram a estrangeira. Acho que Tarantino voltou atrás depois que explodiu a casa grande no último filme [Django] rs.
*
Ao meu amigo Tarantino, um versinho singelo:
Querido
não desisti de você
veja o exemplo da diva Beyoncé
~Courage~
Não fique na depré[once]
HAHAHAHAHA :P
fim
"Ela abraça seu cabelo crespo, sua negritude e sua essência feminina, falando sobre sexualidade, racismo e a opressão social que os africanos e seus descendentes sofriam e ainda sofrem todos os dias. Beyoncé canta sobre um Estados Unidos que nesse aspecto se parece muito com o Brasil e assim como cantou Elza Soares, a americana joga na cara da sociedade que, no fim das contas, 'a carne mais barata do mercado é a negra'. Por isso, a representação visual das canções fazem tanta alusão aos séculos passados: anos após diversas conquistas sociais, como o fim da escravidão e a segregação racial, os negros ainda sofrem. Tomavam limonada na esperança de ficarem mais brancos e hoje, séculos depois, ainda tomam tiros por simplesmente serem negros". ver em: http://www.mazeblog.com.br/resenha-beyonce-lemonade/
casa de caba: Erika, Alfredo, Samir, Jeorgio, Magaiver, Paulo, Josias.
foto: acervo da banda.
São eles, seis meninos e uma fantástica menina, não, ela não só enfeita o palco, enquanto "eles" tocam, cantam, Érika concentra, incorpora e domina o fluxo da banda, a percussão que nada mais é que um coração batendo forte e sincopado harmonizando com a performance que está por vir. Alfredo, com o instrumento de sopro, é a cereja do bolo: fantástico!
Dessa maneira, apresento a banda a partir das primeiras pistas do que Casa de caba é capaz.
Minha primeira experiência, foi a partir de um espetáculo dentro de outro espetáculo, vou explicar.
Aprendi com Fredrik Barth que "descrever não é explicar", longe de querer explicar a experiência que é assistir uma apresentação desse organismo vivo no palco pulsado por este coletivo encantado, a descrição já me garante um excelente treinamento na escrita e convenhamos, é um trabalho árduo fazê-la com um mínimo de sinceridade.
Quando escrevo um "espetáculo dentro do espetáculo", me refiro ao primeiro deles: a vista do ao mirante... que lugar!
Fonte: nossas raízes.
A caba, aos não nortistas, é um inseto conhecido em outras partes do país como vespa ou marimbondo, aquele que tem um ferrão assassino sabe? Uma picada do bichinho dá uma super febre, o local incha e fica umas 24h dolorido, falo com propriedade pois já fui vítima em uma das piscinas da vila olímpica (antes de ser ameba, já fui uma atleta! rs)
A caba
Foto: Juvenal Canto.
Em poucas palavras, "casa de caba" é sinônimo de afaste-se.
Lembro que quando a primarada se reunia em algum sítio (chácara), era uma emoção absurda encontrar uma casa de caba no caminho que fazíamos, os mais endiabrados chegavam bem perto e tacavam pedras ou pedaço de pau, a platéia ficava alucinada esperando cair partes daquela bola marrom pendurada no tronco da árvore - alvo. Apesar do pavor, todos tinham o desejo interno que aqueles "helicópteros assassinos" voassem de suas casinhas para sairmos gritando loucamente em busca de refúgio, tudo era uma grande diversão.
Casa de caba
No dia que os assisti, eles mantiveram um mosquiteiro no palco com muita razão, a caba é foda... não perdoa ninguém. No entanto, neste domingo de ao mirante, não havia mosquiteiro, o que abre espaço para uma reflexão interessante.
Entre o povo Sateré-Mawé, há um ritual de iniciação conhecido como o "Ritual da Tucandeira", em resumo é o seguinte: Várias formigas vivas são colocadas num chá de folha de caju amassada para que as tucandeiras entrem numa espécie de transe ou desmaio... elas não morrem, só ficam ali, quietinhas, tirando um cochilo.
Paralelo à esta atividade, é confeccionada com palha verde um tipo de luva, de maneira que as formigas "adormecidas" sejam colocadas delicadamente em cada buraquinho do trançado, os ferrões ficam arrumados na parte interna.
Fonte: TVAB Manaus.
Aos poucos, a belezocas vão acordando e os rapazes vão se organizando e passam horas com as mãos dentro da luva... eu disse horas! Pra que? ora... prestígio, saúde, honra, muitos se tornam guerreiros e ótimos caçadores, há boatos que o que aguenta mais tempo namora a mais gata* da aldeia.
Fonte: TVAB Manaus
* Advirto que isto é um blog com o objetivo de cultivar plantações de abobrinhas e não uma revista científica, sugiro buscar literatura específica ou um especialista caso se interesse pelo assunto, neste caso a querida Kalinda Felix. Acrescento que este texto não será discutido na Associação Brasileira de Antropologia (ABA) este ano.
Vamos voltar a "Casa de caba".
O mosquiteiro no palco significa a suposta "proteção" de quem não aguenta as ferroadas. Quando você menos espera, o espetáculo começa, melhor, a casa de caba é atingida por um pedaço de pau que simbolicamente saem em disparada em direção à plateia... Não fuja! É pura adrenalina!
Magaiver
Foto: acervo da banda.
O vocalista, vulgo Magaiver, tem uma presença de palco que impressiona. É quase inacreditável estar presenciando aquele show absurdamente artístico e performático num domingo tão despretensioso naquele lugar que você adora... apresentação de riqueza extraordinária, domínio do corpo, teatro, poesia, música... único, aliás, cada show é único... haja criatividade, é de arrepiar!
De acordo com o querido André de Moraes, o rapaz compõe as próprias músicas, são críticas, criativas, divertidas, desconstrutoras, deliciosamente dançantes! "spray de pimenta" e "cavalo do cão" são viciantes!!!
Aí vem o Dilermano e acaba com a minha mini plantação, vida difícil...
Dilermano Reis, olhos negros.
X: ainda não entendi sobre o que é essa música, tu ouviu? ouve!
Y: eu ouvi duas vezes, mas estava conversando contigo, não vale.
X: não consigo... ontem eu ouvi umas trinta vezes, sem sacanagem, fui dormir com ela na cabeça e nada...
Y: Calma, vai ver ela tem um sentimento que tu ainda não experimentou...
X: Pode ser... mas sei lá, tem alguma coisa de proibido aí! certamente é sobre conquista, olhos negros e tals... mas tem algum impedimento, classe ou etnia! ele pobre, a mulher rica ou ele negro e a mulher branca! ele começa dramático, tipo um título "esta música trata-se de um drama", mas depois fica mansinho, meio rodeando... ahhhh pode ser uma mulher casada também! É isso! mulher casada!!!!! Se declarando, meio constrangido, triste e pedindo desculpas! mas ele não desiste, segue firme no xaveco choroso, vê só: 1:46 ele se altera, dá um pití pra ela ceder, percebeu que não colou, daí ele volta a se declarar e tentar convencê-la! Em 2:18 é SENSACIONAL, acho que tá sugerindo segredo!!!! ehhhhhhhhhhhh segredo!!!!!!! Achava que ele tava tentando fazer uma gracinha ou piadinha... não! é segredo!!! Mas acho que ela continua durona e ele apela com o lamento escancarado lindão! No final é: "não rolou mas foda-se, valeu pela musiquinha" :D
Cavei um buraco e estou dentro dele nesse exato momento.
Quanto mais eu cavo, mais fundo ele fica e é cada vez mais difícil de sair, obviamente...
Seria uma vida sem jeito?
O trabalho dissertativo seria uma prisão?
Sorte que a malandragem, ou a perspicácia de um detento, te faz perceber que por se tratar de um cárcere, o buraco não pode ser só um buraco... trata-se de um túnel meus caros... surpresos? pois é! eu também!
Pra quem necessitava de cápsulas de otimismo, aí vai uma.
Mas é o seguinte, amanhã passa o efeito do placebo, agilidade na colher que a água tá na canela.
Racionais, diário de um detento.
"Manaus, dia 24 de abril de 2014, as 02:33 da manhã
Aqui estou, mais um dia
Sob o olhar sanguinário do vigia
Você não sabe como é escrever com a cabeça na mira de uma BAN-CÁ
Metralhadora FAPEAM ou CNPq
Estraçalha bolsista que nem papel
Na muralha, em pé, mais um professor doutor
Servindo o Estado, um orientador bom
(...)
Ele sabe o que eu desejo
Sabe o que eu penso
O dia tá chuvoso. O clima tá tenso
Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero
Será que o doutor ouviu minha oração?
Será que o orientador aceitou a prorrogação?
Mando um recado lá pro meu irmão:
Se tiver usando ABNT droga, tá ruim na minha mão
...
Pode crer, estudante gente fina
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar
Mato uma página pra ela não me matar
Mato o tempo pra ele não me matar
Homem é homem, mulher é mulher
Membro da banca é diferente, né?
Dá soco toda hora, tapa e beija os pés pra aliviar
Sangra até morrer no PPGAS!
Cada escrito uma lauda, um capítulo
Cada capítulo uma crítica
Cada crítica um motivo, uma história de lágrima
Sangue, vidas e glórias, abandono, mesquinharia, ódio.
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
pronto: eis um novo pós-graduando
Lamentos no corredor, na sala de reunião, no computador
Ao redor do trabalho de campo, em todos os cantos
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã
Aqui não tem santo
Rátátátá preciso evitar
Que um safado faça o trabalho por mim
Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das saias floridas
Tic, tac, ainda é 02:53
O relógio da coordenação, anda com meu pescoço na mão
Ratatatá, mais um ofício vai passar
Com gente de bem, retardada, "artista"
Vendo série/filmes, satisfeita, hipócrita
Com raiva por dentro, a caminho do centro
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é não, não é zoológico
Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador
Hoje, tá difícil, não saiu o sol
Hoje não tem visita, não tem pegação
Alguns companheiros têm a mente mais fraca
Não suportam o tédio, arrumam babacas
Graças ao carnaval e à trilha sambista
Falta só uma semana, três dias umas horas
Tem um HD lá em cima fechado
Desde terça-feira ninguém abre pra nada
Só o cheiro de gravação e maldição
Um pesquisador se enforcou com o fio do fone e a caneta na mão
Qual que foi? Quem sabe? Não conta
...
Nada deixa um antropólogo mais doente
Que a solidão da transcrição
Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?
A seleção tá esperando você
Pega todos os seus artigos aprovados
Seu currículo lattes e limpa o rabo
A vida acadêmica é sem futuro
Já ouviu falar de PHd?
Que veio do Collège com diploma
Um dia no barco recreio, não ele é só mais um
comendo rango azedo com pneumonia
Aqui tem os mano da etnografia, Manaus, Belém, Benjamin Constant,
Porto Nacional, Blumenau, Viçosa, Conceição do Araguaia...
Pesquisador sangue bom tem moral na quebrada
Mas pro doutorado é só uma região e mais nada
Vários PPGAS, quantos selecionados?
Veja a nota da CAPES de cada.
Na última coleta, o fulaninho veio aí
Trouxe uns formulários :P
(...)
ESSA MÚSICA NÃO TEM FIM?
Eu quero mudar, eu quero sair,
...
De madrugada eu senti um calafrio
Não era do vento, não era do frio
Correção do texto tem quase todo dia
Tem transcrição logo mais, eu sabia
Malandragem é tudo que o orientando tem
Conseguir terminar o texto, de forma violenta
Se o computador sacanear alguém
leva pro HD e salva o resto também
Fumaça no sistema, mudou o tema?
Fudeu! foi além! tem refém, é você!
Na maioria, se deixou envolver pelo campo
Por um papo que não tinha nada a perder
Dois nativos* considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir
Teorias, militâncias, influências
Uma maioria de grupo de pesquisa arrogante
Era a brecha que o diplomado queria
Avise o CNPq, chegou o grande dia
Depende do sim ou não de um só homem
Que prefere ser neutro pelo telefone
Ratatatá, tambaqui e champanhe
Eu fui almoçar, que se foda a minha tese!
Pesquisadores assumidos, publicações, reuniões
Quem tem mais publicação ganha medalha de prêmio!
O antropólogo é descartável no Brasil
Como modess usado ou bombril
Bolsa? Claro que o sistema não quis
Esconde o que a CAPES não diz
Ratatatá! Abobrinha jorra como água
Do ouvido, da boca e nariz
O meu orientador é doutor
Perdoe o que seu orientando diz
Dormiu de bruços na sauna da vez
Sem lençol, sem beber
Sem tomar banho, sem foder comer
Vai pegar uma escoliose na cadeira
Miopia é o de menos,
Aquele parágrafo final te sorri do inferno!
O prazo é frio e não sente pena
Só ódio e ri como a hiena
Ratatatá, você vai defender!
E vai nadar naquele rio de Alter,
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia da defesa, diário de um detento.