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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

águas de olivença

Engraçado que no campo, eu queria muito conversar e botar pra fora tudo o que eu tava sentindo e vivendo ali, escrevia loucamente no meu caderninho verde limão... e ele não foi suficiente... maravilha! "mas o que essa menina tanto escreve?" é que minha memória é curta... respondia sorrindo e bem devagar. deixar acumular era um tanto arriscado...

Em Manaus, tive que fazer um índice dos assuntos que surgiram por lá... e uma mini proposta.
levei pra orientadora, conversamos, gostamos, qualificação agendada. tô feliz.

Passada a orientação, me dei conta do que vem pela frente... que saco me ler! não tô conseguindo olhar naquelas folhas verdes e o caderninho azul emprestado e nunca devolvido que me acompanharam todos aqueles dias.

Me sinto exausta, e esse cansaço ainda não passou...

:/

*

Lembrei de uma noite, bem especial e linda...
fica o registro no blog, pra eu nunca esquecer dessa lua, dessa música.



i.c.u., lou doillon 

Olivença, fim de setembro de 2013.

domingo, 6 de outubro de 2013

a invenção* da coragem

Coisa boa é comprar livro na promoção... sua nano biblioteca precisa ficar recheada de lombadas bonitas, assim você tira aquelas fotos cheias de estilo com ela ao fundo dizendo a sociedade ou às redes sociais (que na atual conjuntura dá no mesmo) o quanto você é culta, inteligente, exibida... puro charme!

Melhor ainda é você comprá-los antes de qualquer viagem, na volta, aquelas caixinhas cheia de selos sobre a sua cama te dirão: "bem vinda querida"!



não vou fazer comercial da editora e sim falar de um pacotinho, comprado duvidosamente:

- ah, eu nem comprei! é a versão portátil... a letra deve ser minúscula!
- putz, agora já era.


Demorou pra eu aceitar essa edição de cores em neon... a anterior é linda... letrinhas "ontem, hoje e amanhã" brincando num fundo branco e comunicando flores, pés de galinhas, galhos de árvores, redes, neurônios... o que a sua imaginação alcançar.



Passada a fase da frescura estética, abri o livro e notei que as letras não eram tão pequenas! UFA! e super me achei por ter comprado esse livro por um preço tão bom... rá!

Roy Wagner inicia o livro falando da capacidade do homem inventar sua própria realidade... obviamente o trabalho do autor é bem mais complexo e se divide em seis capítulos... dentre eles "a invenção do eu".

Toda essa introdução pra falar do quanto você pode ser uma fraude... explico.

Na ausência de tudo que você considera digno num ser humano, invente que você tem.

Invente que você não se importa em passar quatro dias com a mesma roupa, de ficar um dia com e no outro sem calcinha (ela estava secando no sol) que não tem problema tomar banho só com água porque você nunca sabia ao certo pra onde ia, ou o que ia fazer, onde ia ficar e quantos dias iria passar naquele novo lugar (SENSACIONAL).

-vamos?
-vamos! 

Invente que você sabe cozinhar, que sabe tirar fotos, que corrige textos e ajuda nos manifestos, que sabe cuidar de crianças, que não tem medo do escuro, nem de barulhos estranhos, nem de pistoleiro, nem de fazendeiro de cacau, muito menos da figura simpática do Orixá Exu, que dormiu na sala juntinho de você, bem pertinho da sua esteira :~. 

Orixá Exu


Exu é o orixá da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èșù em yorubá significa “esfera” e, na verdade, Exu é o orixá do movimentoNa África na época das colonizações, o Exu foi sincretizado erroneamente com o diabo cristão pelos colonizadores, devido ao seu estilo irreverente, brincalhão e a forma como é representado no culto africano. Por ser provocador, indecente, astucioso e sensual, é comumente confundido com a figura de Satanás, o que é um equívoco de acordo com a construção teológica yorubá, posto que não está em oposição a Deus, muito menos é considerado uma personificação do malMesmo porque nesta religião não existem diabos ou entidades encarregadas única e exclusivamente de coisas ruins como fazem as religiões cristãs.(wiki)


Medo, muitas vezes, pode ser ignorância... porque fui treinada/ensinada a sentir tanto medo? porque o certo e o errado/o bem e mal foi tão "bem" separado? estou apaixonada pelo Candomblé... ele aparecerá em outros textos por aqui.

*

Invente que aquela quantidade absurda de carapanã que ferrou a sua cara inteira não tem a menor importância, invente que mesmo suja você é linda, aguenta ficar com o cabelo seboso e sem a sua capa de proteção diária: o protetor solar (!!!!!). 

Invente diariamente, que não é covarde, que tiro nenhum te acerta, que a violência não te alcança, que você aguenta, que vai se orgulhar de tudo isso, invente que você é uma antropóloga, mesmo sem o diploma, que aquele maldito medo de andar de avião que te dá caganeira antes do voo vai passar também... ainda que a mãe Darabi, depois de uma risada gostosa, ter te falado que isso não tem jeito:

- minha filha, isso é pra vida toda, já ouviu a música do Belquior?

Invente que vai ter jogo de cintura para driblar as fofocas e as intrigas,  os textos que você leu e as aulas que teve já advertiam do que é ser mulher no campo. Que vai fazer muitos amigos e possíveis parceiros de trabalho. Invente que você acredita no invisível, aliás, isso você não inventou... 

Chegará um dia que, depois de ter contado tanta mentira pra si mesma, aquela máscara vai te grudar na cara, e se continuar a dize-las umas 100 vezes, se tornará verdade.

De fraude, você se torna uma pessoa inventada, olha que beleza.

Pra quem queria voltar outra porque estava de saco cheio de si mesma,
o ritual de iniciação no campo teve um papel fundamental.

Agradecimentos especiais ao Instituto Brasil Plural, que financiou essa "empreitada".


*Categoria formulada por Roy Wagner que foi utilizada nesse post de forma vulgar e superficial, sério. Que é a linguagem deste blog, quando se trata de textos mais científicos. hehehehe





quarta-feira, 11 de setembro de 2013

medo



"não me deixe só, eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro...", diria Vanessa.

Esse refrão me contaminou essa semana de mudança e medo,

- Alguém cuida de mim por favor? Estou apavorada!
- Não.

essa foi a resposta. "te vira", o outro completou.

Mas os caminhos da arte não seriam mais suaves? alguns diriam...
eu também pensei... mas para quem mora num país onde a desigualdade e a diferença ainda são marcadas pela violência, a resposta é não.

Pelas esquinas, ouve-se:

"Eu não tenho medo. Vou lutar até a morte, sou Tupinambá e estou preparado para morrer!"

Me sinto um bolo de fraqueza e covardia, simples assim.
Como alguém que tem medo do escuro e de avião se mete nesse palco de conflitos?

Meu ritual de iniciação precisava ser desse jeito?
com o meu coração na boca de forma tão constante?
que diabos estou fazendo aqui?!

pausa, três respirações bem profundas, ouvi dizer que é bom.

Nessas andanças, o que mais impressiona são  as pessoas e a sensação de que ninguém é uma ilha, não estou só... e arrisco dizer que Vanessa está errada ao afirmar que alguém seja responsável por isso... estou nutrindo uma admiração profunda por essa luta, por essa etnia, por esses encontros.

Esses dias ouvi uma frase no vento:

"O medo é a negação de um poder que você tem..."

foi bom pra pensar.

Ainda tenho medo do escuro, do inseguro e não sinto nadica de nada  desse poder... mas, desconfiar que ele existe e manter o foco na escrita, tem adiado a minha volta para Manaus todos os dias... não sei até quando.

Ass: Natasha, a covarde.










segunda-feira, 2 de setembro de 2013

quando a mudança dói


"Renascer é uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Rede Globo (1993). Conta a saga de José Inocêncio, um fazendeiro da zona cacaueira de Ilhéus, Bahia". (wiki)

com as devidas alterações, é lá que Natasha passará uma senhora temporada fazendo seu trabalho de campo. que delícia! alguns diriam... mas hoje eu vou falar de dor e de mudança.

Nunca mudei, nem de casa, nem de bairro, nem de cidade, nem de família... minto, já mudei uma vez, de quarto... só, quando reformaram a casa. Se tem uma coisa que eu sempre quis, foi mudar. arrumar "tudo" numa caixa de papelão e ver como seria a cara do lugar pra chamar de meu.

Voltando a novela que tem como pano de fundo o sul da Bahia, 
tem uma cena que eu nunca esqueci.

Assim que Zé Inocêncio chega em Ilhéus, é pendurado em uma árvore e tem sua pele arrancada a faca pelos coronéis locais.

Meu couro tem sido arrancado todos esses dias... em especial, hoje.

Eu pude sentir o quanto a mudança pode ser dolorida, no entanto, absurdamente necessária. 

não foram os móveis, ou as roupas na bolsa. foi o couro que foi arrancado e aos poucos costurados por esses caminhos não imaginados.

Vou bem ali enfiar o facão no meu Jequitibá rei.









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