Esqueci o que é escrever por aqui. Segundo uma doceira, pra você se tornar um profissional, você deve, assim que acordar, bater umas claras com leite fresco e açúcar todos os dias.
Será que vale o mesmo pra escrita? claro que sim!
Acordar, ler vinte-cinquenta páginas de um "livro" e escrever um parágrafo.
Ou antes de dormir, escrever um parágrafo. Porque não?
Existe muita beleza no ordinário.
Hoje estive nas ladeiras de Santa Tereza com música, bebidinha e churrasco, em uma segunda feira.
Na terra do entretenimento, isso me parece corriqueiro. É sempre um luxo, um requinte, ir além do ponto turístico, do cenário bobo e batido desse lugar. Nunca sei ao certo sobre o que estou vendo, o ouro de tolo é frequente. Estou cansada, o exotismo não é um privilégio do norte.
Demora encontrar gente-gente, sabe? É irritante!
A saber: não estou trabalhando, trata-se de licença qualquer coisa.
*
As ladeiras são lindas, escrevo porque hoje não senti medo.
Não senti medo de farda, não senti medo de polícia, não senti medo de moto, não senti medo do frisson olimpíada, não senti medo de pessoas. Simplesmente não senti medo e fiz [senti] parte da cidade. Faz tempo que não sei o que é isso. É real?
Estava com um ex morador de Santa Tereza da década de sessenta, acho.
Sentar numa praça quase à meia noite, diante de ladeiras e casinhas-luzinhas infinitas foi um prazer que não consigo descrever.
*
Saudades do que não vivi;
A morte une pessoas;
Julieta apetece o mundo, Almodovar é gênio;
Oklahoma é um Estado vermelho em 1929;
Amanhã é dia de lugar lugar favorito;
Colombo, docinhos e sentimento no mundo;
O amor acabou;
O mundo tem muita vida;
O mundo é muito grande;
A música é uma forma de oração;
Pessoas são bençãos;
Amazônia é um lugar, como qualquer um outro... use-o com moderação.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
segunda-feira, 28 de abril de 2014
sagrado x profano
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| O Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli (1486) |
A palavra "sagrado" provém do latim sacrum, que se referia aos deuses ou a alguma coisa em seu poder. Foi geralmente concebido especialmente, como referindo-se à área em torno de um templo. Já o termo santo vem de sanctus, significando "que tem caráter sagrado, augusto, venerando, inviolável, respeitável, purificador". (fonte: wiki)
Profano:
é a putaria no geral. (fonte: Natasha)
Esse mundo é uma bosta, um caos danado e eu só quero dançar, me divertir e terminar minha dissertação.
Deixo a complexidade com os pedantes de plantão.
Conversinhas promíscuas e papinhos sobre miolos de pote é o que há de melhor.
Viva Mary Douglas!
Fico com o ventinho do perigo.
"Sempre que impomos à nossa existência um modelo rigoroso de pureza, tornamo-la terrivelmente desconfortável; e se formos até às últimas consequências, desembocamos em contradições ou até na hipocrisia" (Mary Douglas)
Kylie Minogue, all the lovers, melhor,
o "surubão da Kylie".
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
campo, fronteira brasil colômbia
Longe?
Nada!
vim de recreio, sao cinco dias de viagem até Japurá. Lá voce irá esperar o barco da prefeitura por tempo indeterminado... soube que gabrielzinho *garcia marques, tem um texto a respeito dessa espera interminável...
depois mais dois dias, subindo o rio Japurá até chegar no rio Apapori... você irá sentir um medo absurdo de praia... e vai associá-las a morte iminente.
passado o suplício...
bem vindo a Vila Bittencourt, o finalzinho do Brasil.
Se acabou? Não, meu campo é mais pra cima.
3º Pelotão Especial de Fronteira de Vila Bitencourt,
de frente para o Rio Apaporis, e para Letícia, Colômbia.
Se volto de monomotor do exército?
JAMAIS! rs
Seja discreta com esse pavor, vá num psicólogo assim que voltar a Manaus.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
medo
Esse refrão me contaminou essa semana de mudança e medo,
- Alguém cuida de mim por favor? Estou apavorada!
- Não.
essa foi a resposta. "te vira", o outro completou.
Mas os caminhos da arte não seriam mais suaves? alguns diriam...
eu também pensei... mas para quem mora num país onde a desigualdade e a diferença ainda são marcadas pela violência, a resposta é não.
Pelas esquinas, ouve-se:
"Eu não tenho medo. Vou lutar até a morte, sou Tupinambá e estou preparado para morrer!"
Me sinto um bolo de fraqueza e covardia, simples assim.
Como alguém que tem medo do escuro e de avião se mete nesse palco de conflitos?
Meu ritual de iniciação precisava ser desse jeito?
com o meu coração na boca de forma tão constante?
que diabos estou fazendo aqui?!
pausa, três respirações bem profundas, ouvi dizer que é bom.
Nessas andanças, o que mais impressiona são as pessoas e a sensação de que ninguém é uma ilha, não estou só... e arrisco dizer que Vanessa está errada ao afirmar que alguém seja responsável por isso... estou nutrindo uma admiração profunda por essa luta, por essa etnia, por esses encontros.
Esses dias ouvi uma frase no vento:
"O medo é a negação de um poder que você tem..."
foi bom pra pensar.
Ainda tenho medo do escuro, do inseguro e não sinto nadica de nada desse poder... mas, desconfiar que ele existe e manter o foco na escrita, tem adiado a minha volta para Manaus todos os dias... não sei até quando.
Ass: Natasha, a covarde.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
sábado visceral: ritual, substância, visões
Não tinha lido quase nada propositalmente, sabia uma coisa ou outra: "o gosto é ruim".
Num ambiente controlado, isolado e especial, pessoas fantásticas e experientes, resolveram se reunir e compartilhar um momento único com neófitos.
Um detalhe importante: estava sem água e luz.
Velas, chás diversos, conversas e confecção de instrumento musical em palha foram os momentos iniciais. a recomendação foi preparar o corpo bebendo bastante líquido, o almoço deveria ser mínimo. as 20h começamos.
Houve a nominação, era necessário ter um dos nomes ancestrais.
sentamos em círculo, mulheres de um lado, homens do outro. cantos, danças, curiosidade.
vinte minutos se passaram, trinta? quarenta? ao todo: CINCO HORAS. mais.
peço ajuda a Jean Langdon (1992) no texto "A cultura Siona e a experiência alucinógena":
"Deve-se atravessar três estágios para que o espírito possa sair do corpo e viajar com o xamã. No primeiro estágio, o aprendiz apenas experimenta náusea e desconforto, que podem ser acompanhados por vômitos e diarréia".
suor, espasmos, medo, merda, cheiros, vômitos, vibrações, texturas, cores, visões, dores, nojo, pavor...
sem apologias: f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.
Etnografia completa* na dissertação: RÁ!
ou não. rs
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Alfred Hitchcock e o medo da morte
Você sabia que aquele caminhão que carrega um contêiner pode virar na curva, em cima de mim inclusive! aquelas porcarias não são parafusadas... tudo pra não pagar o seguro do caminhão inteiro... vou denunciar pro MP! e aquelas pedras que ficam na carroceria?! quem foi que disse que aquela lona azul segura alguma coisa? um crime! um abuso! teve uma vez, ali perto do puraquequara, que caiu uma pedra na cabeça de um cara que vinha num carro atrás... teve o cérebro esmagado... morreu na hora o coitado. Credo, nunca fico atrás de carro que carrega vergalhão, numa freada ele atravessa o carro e me mata no mesmo segundo... desvio sempre. os ônibus também são um problema, se você fica atrás deles, pode ser esmagado por um outro desenfreado... aconteceu com uma pessoa ali na sete de setembro... um outro problema são os camarotes de barco, aquelas porcarias daquelas portas, abre de dentro pra fora, se o barco afunda, eu fico presa e morro nessa bosta, tudo culpa de um engenheiro burro que não coloca a porta do jeito certo. tem um acidente que é super comum em barco também, o escapelamento, ouvi na CBN um dia desses que tem até um grupo de mulheres que fazem perucas para essas vítimas... nossa, deve ser um acidente horroroso... andar de voadeira é mais perigoso ainda, se aquela palheta pega no meu pescoço ou em qualquer parte do meu corpo... aiii não quero nem pensar.
e é assim que a sua linda imaginação fica maquinando, quando tá de bobeira.
----------------
dia desses, estávamos falando sobre mergulho, peixinhos, corais, sol, amor, paz e harmonia... daí uma amiga falou um pouco sobre a sua experiencia...
"teve uma vez, que eu fiz mergulho com cilindro... "
antes dela completar a frase, seu cérebro logo fez um link com aquele filme maldito que te fez ficar HORAS esperando o final mais que óbvio e angustiante:
daí ela continuou:
"eu usei todo o equipamento e desci aproximadamente uns 30 metros... é tudo muito bonito no fundo do mar... mas depois de um tempo me perguntei: QUE DIABOS EU ESTOU FAZENDO AQUI EMBAIXO?! TEM UM PRÉDIO EM CIMA DE MIM, subi, o mais rápido que pude".
com os devidos ajustes, é exatamente assim que eu me sinto ao andar de avião.
:~
além do escuro, o avião é algo que tá me tirando o sono. não sei o que fazer, já tentei me imaginar sem precisar viajar, sem ir pra congresso, sem fazer pesquisa em outras localidades mais distantes... sem tirar férias, sem conhecer os confins do judas, mas não consigo.
uma alternativa, foi o dramin. "é ótimo, nos primeiros minutos você dorme e acorda só quando chega". ¬¬
tomei um, turbulência, tomei meio, turbulência, TOMEI DOIS! e aí estava eu, um corpo dopado, com uma alma gritando e chorando por dentro, as lágrimas escorriam, mas você estava "aparentemente" calma. agradecimentos especiais à minha amiga, pelas palavras, carinho e compreensão.
Não sei dizer, quando exatamente isso começou, mas arrisco que foi numa vinda de são paulo para manaus. levei computador e estava assistindo melancolia.
Tudo bem que explosão e fim do mundo não são temas muito indicados pra você assistir num avião... mas eu não sabia que ia ter um siricutico! demorei alguns meses pra ver o final... toda vez que lembro (ava) tinha sentimentos de quase morte. loucura total.
Lost, perdidos nos andes, mamonas assassinas, a tia do meu amigo que morreu no acidente da gol às vésperas do meu aniversário, aquele acidente da TAM... enfim, o céu é o limite pra muita desgraça, tudo isso viaja com você.
como estava de férias, nem pensei duas vezes: COMPUTADOR EM CASA, claro. mas em alguns aviões tem aquelas telinhas que você escolhe filmes, documentários e bla bla bla pra assistir e te distrair da morte iminente.
Escolhi o novo do Hitchcock.
Desde que eu soube que ia estrear, procurei assistir os filmes dele... mas tantas coisas aconteceram que meu plano foi por água baixo. tinha prometido assistir o novo na casa de uma amiga, com direito a comidinhas naturebas e papos infinitos, mas nem deu certo também...
aproveitei a oportunidade de curtir minhas "últimas horas" me distraindo.
spoiler
a saber, o maior sucesso desse mestre do cinema, foi bancado por ele mesmo!
apesar de toda a sua fama de foda da sétima arte, esse prestígio não foi suficiente pro cara obter financiamento. e a partir desse desafio ele fez o filme mais popular de toda sua carreira.
um outro ponto bacana é a parceria que rola com mulher dele, e isso me faz pensar num outro texto sobre Camille Claudel, assisti uma peça e o último filme (2013) sobre ela no "festival oportunista de cinema francês". mas como eu disse, vale um outro texto só sobre ela :)
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| Juliete Binoche tá incrível |
Pra terminar, esse senhorzinho genial de nome Alfred, me livrou de duas horas e pouco de angustia e aflição, eu simplesmente esqueci que estava naquela bolha de horror e até fiquei preocupada de chegar e o filme não terminar. meus sinceros agradecimentos viu?
OBS: se você tiver alguma sugestão para essa doença, fique a vontade nos comentários.
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