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domingo, 28 de agosto de 2016

FUNAI: 40 mil pessoas

Hoje, pela manhã e tarde, a Escola de Educação Fazendária [ESAF] fez com que quarenta mil pessoas lessem o conteúdo da prova para o cargo de "Indigenista" da Fundação Nacional do Índio [FUNAI]. O nascimento macabro do Serviço de Proteção aos Índios [SPI] e os desastrosos passos da FUNAI, sob os nossos olhos pouco atentos, no que diz respeito os povos indígenas, não foram suficientes pra me tirar o motivo do meu dia feliz. É preocupante! eu sei... 

Quarenta mil pessoas se inscreveram para fazer esse concurso, e independente da motivação de cada um, elas tiveram que ler essa prova maravilhosa [a grosso modo] que a ESAF proporcionou. É indiferente quem irá passar ou não. Hoje, quarenta mil pessoas [independente da formação] leram e refletiram, ao menos um tiquinho, no que é e no que foi ser índio nesse país.

#PEC215NÃO #FORATEMER

~muito feliz~

domingo, 24 de julho de 2016

Valda Ferreira de Souza, Lagoa Azul, 2008


Foto de Luiz Vasconcelos, 2008. Manaus, bairro Lagoa Azul, 2008


Despejo Indígena no bairro Lago Azul, Manaus AM, 2008



"Depoimento de
Valda Ferreira de Souza/Mani Silva Satere

22 anos, etnia Sateré-Mawé
Dia 24 de abril de 2008

Naquele momento (referindo-se à ação de despejo pela tropa de choque da PM na Lagoa Azul em 10 de março de 2008), não sei o que passou pela minha cabeça para enfrentar todos aqueles policiais. Primeiro porque eles chegaram agredindo a gente, sem conversar foram empurrando e batendo. Não queriam saber se eu estava com criança, se eu estava grávida, e me empurraram em cima do fogo com violência. Cortaram nossas redes. Naquele momento pensei só em ficar lá mesmo, parada lá, para ver o que eles iriam fazer com a gente.

Eles chegaram cortando os punhos das redes. Ainda minha filhinha estava deitada na rede. Eles não queriam nem saber, cortaram as redes. Ela caiu no chão e foi o momento em que eu corri para pegá-la. E foi na hora em que eu parei no meio deles, quando eles iam levando tudo. E fiquei parado lá, não sabia se eles iriam me bater. Alguns dos policiais me chutaram e me cacetaram, como aparece nas fotos. Falavam muitas coisas nos ofendendo: que "a gente não era índio", que "a gente já era civilizado", que a gente era "invasor". Está certo que a gente errou um pouco lá, por causa que o dono tinha realmente o documento da terra, estava legal, e a gente não sabia. Mas se eles chegassem lá falando que o dono da terra estava legal e que a gente saísse, a gente ia se retirar de lá. Mas não foi isso que aconteceu. Chegaram agredindo a gente e batendo mesmo. Meu marido foi espancado, o André. Ele levou um... Com a espingarda, na boca dele, que espocou. Ele foi agredido e humilharam mesmo ele, antes daquele momento. Enquanto estavam batendo no meu marido, foi a hora em que eu fiquei com meu filho parada, enquanto eles foram me empurrando e me chutando. O que eu senti foi raiva mesmo dos policiais porque que fizeram isso conosco. A única coisa que falaram: foi o governador que mandou fazer isso com a gente. O presidente da Funai falou que tinha lavado as mãos por nós. Foi isso que eu fiquei com raiva, naquele momento fiquei cega, não queria nem saber se iriam me matar ou não. Realmente eu nem pensei no meu filhinho que estava no meu braço. Hoje quando eu olho aquelas fotos, me dá tristeza e remorso por terem feito isso com meu filho. Nem pensei em mim mesmo, se eu estava grávida, esperando um filho. 

Nosso espaço aqui na Redenção é pequeno, cada vez vai crescendo as famílias. Como eu, com esse que vai nascer, já tenho quatro filhos, e o espaço aí é pequeno para eles brincarem. Minha filha brinca de bola, aí ela joga lá para baixo, não dando para pegar, porque os brancos não devolvem mais a bola. Eles implicam também com a gente. Aí não dá para ela correr, pois se correrem as crianças caem. Aí o espaço é pequeno. Estamos lutando por um espaço... Lá é bonito, grande, plano, dava para plantar e colher. E aconteceu isso.

Nós soubemos por meio dos parentes que já estavam lá há cinco anos, que já tinham sido retirados.Tinham alguns Sateré-mawé, que vieram de Maués, Kokama e Tikuna. Então nós fomos para lá. Fomos praticamente ajudá-los a conquistar um pedaço para nós. Nós soubemos por meio de outros povos que já estavam lá. 

Nós não queríamos nem nos entrometer nos problemas deles [dos sem-terra] para lá. O problema deles era um, o nosso era outro. Falam que nós fomos usados pelos sem-terra. Não, nós não fomos usados. Até mesmo porque naquele momento ninguém nos defendeu. Nós mesmos ficamos lá, nem um branco nos defendeu. Tinha gente gritando lá: "não bate nela, não, ela é índia!". Essas coisas. Eles não queriam ouvir, falaram que a gente era mentiroso, que estavam nos usando. Os policiais mesmo falavam ofendendo, que a gente não presta para nada, só prestava para ser pisado, como eles fizeram com nossos cocais, nossas flechas, que eles quebraram tudo. 

A gente tentava avisar as organizações como o CIMI. A gente tentava ligar para elas, só que elas não. A gente foi à Funai. Ele foi lá também, depois falou que no outro dia iria. Só que isso não aconteceu, ele nos abandonou, a Funai que é para nos proteger. 

Algumas comunidades Sateré-mawé procuraram nossos direitos para ter um espaço melhor, outras não, estão para o outro lado à procura de outras coisas para si próprios que atrapalham um pouco. Mas têm outras organizações que estão interessadas na gente de ver um lugar melhor. Se nosso povo Sateré-mawé fosse tão unido assim por uma terra melhor acho que a gente conseguiria, mas não está havendo isso, não.

De modo geral, o principal desafio para nós é a terra e o trabalho mesmo. Não temos como trabalhar e plantar. Se tivesse uma terra grande que desse para trabalhar, acho que dava para tirar nosso sustento, mas não tem. Só vivemos do artesanato. 

Lutamos por uma causa boa, por um lugar melhor, um lugar digno, que todo mundo merece ter. Eu queria aquele pedaço de chão para morar com meus filhos, vê-los crescer, brincando num lugar bom. Outras coisas que eles falaram é que a gente não tinha direito, porque essa terra era lá para o meio do mato. Acho que não, nós temos direito de viver uma vida boa, não somos socados no meio do mato sem termos direito a nada. Nós também estamos sendo humanos e queremos uma coisa melhor também. 

Tem pessoas que moram na aldeia e voltam... Não é a questão da divisão "cidade" e "interior". Ele mora no "interior" e tem a relação com a "cidade". Não tem diferença de "cidade" e "interior". 

São 18 organizações. Nós gostamos muito de separar. Elas se relacionam com a base, não há um corte. Os parentes da base, do "interior", se hospedam nas nossas casas. E fazemos defumação na casa inteira."

ALMEIDA; DOS SANTOS. Estigmatização e território: mapeamento situacional dos indígenas em Manaus. Manaus: PNCSA/UFAM, 2008. p. 111-3.


"O progresso não gosta de índio" - Casa de caba








quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

campo, fronteira brasil colômbia

Longe?
Nada! 

vim de recreio, sao cinco dias de viagem até Japurá. Lá voce irá esperar o barco da prefeitura por tempo indeterminado... soube que gabrielzinho *garcia marques, tem um texto a respeito dessa espera interminável... 

depois mais dois dias, subindo o rio Japurá até chegar no rio Apapori... você irá sentir um medo absurdo de praia... e vai associá-las a morte iminente. 

passado o suplício...

bem vindo a Vila Bittencourt, o finalzinho do Brasil. 
Se acabou? Não, meu campo é mais pra cima.
 
3º Pelotão Especial de Fronteira de Vila Bitencourt, 
de frente para o Rio Apaporis, e para Letícia, Colômbia.


Se volto de monomotor do exército?
JAMAIS! rs

Seja discreta com esse pavor, vá num psicólogo assim que voltar a Manaus.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Tuxina


Há crianças que tem medo do escuro, do bicho papão, do velho do saco, do escuro (isso foi depois de velha)... eu? eu tinha medo de Tuxina.

Vou explicar.

"O oxiurus é um verme pequeno, cerca de 1 cm, em que parte, habita o intestino, e parte saem para fora, muitos ficando em volta do anus, provocando coceira anal. Em mulheres, pode causar também coceira na entrada da vagina. Ex: O menino não para quieto... parece que esta com tuxina" (dicionário informal)

Quando você era criança e descobriu o valor da farinha láctea na fruta, no leite, pura, com sorvete... com TUDO...

sua mãe pirou. daí a esperta disse o seguinte:

- Farinha láctea dá tuxina.

¬¬

Independente do que "era" a tal da tuxina, sua mãe, sábia, ainda contava com riqueza de detalhes os procedimentos para as belezocas saírem.

"filha, primeiro a mamãe vai amornar e adoçar o leite, daí vou colocar num pinico ou numa bacia. Depois você senta, sem encostar o bumbum. quando a lombriguinha estiver saindo, mamãe vai pegar um graveto e ir enrolando até ela sair todinha".

*

Agradecimentos especiais as parteiras tradicionais maravilhosas da etnia Kariri xocó, Pankararu, Pataxó hãhãhãe e Tupinambá que me fizeram relembrar dessa delícia de história.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

United States of America



- vou tirar o visto.
- mas tu não foi pra Cuba?!
- ah, vou aproveitar os dois dias de bobeira por lá, acho um abuso ter de viajar pra tirar essa porcaria. 
- que decepção, tanto lugar bonito pra ti conhecer...

¬¬

parabéns, você está cercada de gente chata.

*

Depois de andar horrores pela cidade do barro vermelho,
deu vontade de tomar um suquinho perto da FUNAI...
a moça que me ofereceu a delícia líquida, apresentou os sabores e o primeiro foi o de cupuaçu! perguntei de onde ela era, obviamente.

- sou candanga.

hã?

"Candango" é o termo dado aos trabalhadores que imigravam à futura capital para sua construção. De origem Africana,Candango significa "ordinário", "ruim", e era a denominação que se dava aos trabalhadores que participaram da construção de Brasília ...  é dado também as pessoas que nascem no Distrito Federal, uma forma de homenagear os pioneiros. (dicionário informal on line)

Eu preciso de um dicionário mais completo, tá ficando feio o negócio.

O que passava na cabeça de Juscelino?
E a multidão que resolveu migrar para essa cidade imaginada?... incrível, assombroso...

Apesar do carinha que projetou Brasília (não foi o Niemeyer) dizer que foi inspirada na sua amada Julieta -> Leleta -> borboleta e não num avião (segundo as informações de uma exposição linda no Congresso) a cidade parece MUITO com aquele meio de transporte que você detesta.

Ainda que eu tenha conhecido a cidade no meu primeiro Encontro de Estudantes de Ciências Sociais (ENECS), e nunca mais ter pisado por lá tem uns trocentos anos, não foi difícil se embrenhar pelos caminhos da concrete jungle:

1. A Embaixada americana;

O caminho barrento

2. A catedral, não esqueça de fazer umas fotos de efeito no celular;



3. A FUNAI, apesar dela ter mudado de endereço, o que te rendeu uma bela caminhada... ah, é um prédio super sem graça e a arte índia não existe mais;

4. O Memorial dos povos indígenas e ficar doida com as bonecas Karajás e os vestidos Maxacali!!!!

Boneca Karajá

Área interna, simulando uma maloca


Cestaria Guarani

Vestidos Maxacali (essa exposição foi no RJ)


5. O memorial JK, e ficar chocada do corpo dele estar embalsamado todos esses anos (desde 1976) numa cripta bonita e assombrosa, além de babar no tapete gigante bordado por umas 300 pessoas da diamantina, e pagar pau pra sua biblioteca LINDA e recheada de livrinhos que você leu na disciplina antropologia do Brasil com o professor mais exigente do mundo;

foto pra se exibir nas redes sociais



7. Uma manifestação de estudantes contra ao descaso do Hospital Universitário e não pela chegada dos médicos cubanos #fica a dica;





8. O cirque du soleil, mas o ingresso era, digamos, ABSURDO de caro;

perdi as fotos do meu celular :~

9. Uma sopinha de cenoura, beterraba e mangarataia *.*

10. Um barzinho árabe de comidinha gostosa;

11. Uma exposição de fotografia fantástica a céu aberto, que te fez observar outras brasílias, mais líquidas e solidárias... faltou dizer que a utopia é hoje, carne e osso é amanhã.

*

adorei.

#ilhéus #partiu
























domingo, 6 de outubro de 2013

a invenção* da coragem

Coisa boa é comprar livro na promoção... sua nano biblioteca precisa ficar recheada de lombadas bonitas, assim você tira aquelas fotos cheias de estilo com ela ao fundo dizendo a sociedade ou às redes sociais (que na atual conjuntura dá no mesmo) o quanto você é culta, inteligente, exibida... puro charme!

Melhor ainda é você comprá-los antes de qualquer viagem, na volta, aquelas caixinhas cheia de selos sobre a sua cama te dirão: "bem vinda querida"!



não vou fazer comercial da editora e sim falar de um pacotinho, comprado duvidosamente:

- ah, eu nem comprei! é a versão portátil... a letra deve ser minúscula!
- putz, agora já era.


Demorou pra eu aceitar essa edição de cores em neon... a anterior é linda... letrinhas "ontem, hoje e amanhã" brincando num fundo branco e comunicando flores, pés de galinhas, galhos de árvores, redes, neurônios... o que a sua imaginação alcançar.



Passada a fase da frescura estética, abri o livro e notei que as letras não eram tão pequenas! UFA! e super me achei por ter comprado esse livro por um preço tão bom... rá!

Roy Wagner inicia o livro falando da capacidade do homem inventar sua própria realidade... obviamente o trabalho do autor é bem mais complexo e se divide em seis capítulos... dentre eles "a invenção do eu".

Toda essa introdução pra falar do quanto você pode ser uma fraude... explico.

Na ausência de tudo que você considera digno num ser humano, invente que você tem.

Invente que você não se importa em passar quatro dias com a mesma roupa, de ficar um dia com e no outro sem calcinha (ela estava secando no sol) que não tem problema tomar banho só com água porque você nunca sabia ao certo pra onde ia, ou o que ia fazer, onde ia ficar e quantos dias iria passar naquele novo lugar (SENSACIONAL).

-vamos?
-vamos! 

Invente que você sabe cozinhar, que sabe tirar fotos, que corrige textos e ajuda nos manifestos, que sabe cuidar de crianças, que não tem medo do escuro, nem de barulhos estranhos, nem de pistoleiro, nem de fazendeiro de cacau, muito menos da figura simpática do Orixá Exu, que dormiu na sala juntinho de você, bem pertinho da sua esteira :~. 

Orixá Exu


Exu é o orixá da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èșù em yorubá significa “esfera” e, na verdade, Exu é o orixá do movimentoNa África na época das colonizações, o Exu foi sincretizado erroneamente com o diabo cristão pelos colonizadores, devido ao seu estilo irreverente, brincalhão e a forma como é representado no culto africano. Por ser provocador, indecente, astucioso e sensual, é comumente confundido com a figura de Satanás, o que é um equívoco de acordo com a construção teológica yorubá, posto que não está em oposição a Deus, muito menos é considerado uma personificação do malMesmo porque nesta religião não existem diabos ou entidades encarregadas única e exclusivamente de coisas ruins como fazem as religiões cristãs.(wiki)


Medo, muitas vezes, pode ser ignorância... porque fui treinada/ensinada a sentir tanto medo? porque o certo e o errado/o bem e mal foi tão "bem" separado? estou apaixonada pelo Candomblé... ele aparecerá em outros textos por aqui.

*

Invente que aquela quantidade absurda de carapanã que ferrou a sua cara inteira não tem a menor importância, invente que mesmo suja você é linda, aguenta ficar com o cabelo seboso e sem a sua capa de proteção diária: o protetor solar (!!!!!). 

Invente diariamente, que não é covarde, que tiro nenhum te acerta, que a violência não te alcança, que você aguenta, que vai se orgulhar de tudo isso, invente que você é uma antropóloga, mesmo sem o diploma, que aquele maldito medo de andar de avião que te dá caganeira antes do voo vai passar também... ainda que a mãe Darabi, depois de uma risada gostosa, ter te falado que isso não tem jeito:

- minha filha, isso é pra vida toda, já ouviu a música do Belquior?

Invente que vai ter jogo de cintura para driblar as fofocas e as intrigas,  os textos que você leu e as aulas que teve já advertiam do que é ser mulher no campo. Que vai fazer muitos amigos e possíveis parceiros de trabalho. Invente que você acredita no invisível, aliás, isso você não inventou... 

Chegará um dia que, depois de ter contado tanta mentira pra si mesma, aquela máscara vai te grudar na cara, e se continuar a dize-las umas 100 vezes, se tornará verdade.

De fraude, você se torna uma pessoa inventada, olha que beleza.

Pra quem queria voltar outra porque estava de saco cheio de si mesma,
o ritual de iniciação no campo teve um papel fundamental.

Agradecimentos especiais ao Instituto Brasil Plural, que financiou essa "empreitada".


*Categoria formulada por Roy Wagner que foi utilizada nesse post de forma vulgar e superficial, sério. Que é a linguagem deste blog, quando se trata de textos mais científicos. hehehehe





quarta-feira, 11 de setembro de 2013

medo



"não me deixe só, eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro...", diria Vanessa.

Esse refrão me contaminou essa semana de mudança e medo,

- Alguém cuida de mim por favor? Estou apavorada!
- Não.

essa foi a resposta. "te vira", o outro completou.

Mas os caminhos da arte não seriam mais suaves? alguns diriam...
eu também pensei... mas para quem mora num país onde a desigualdade e a diferença ainda são marcadas pela violência, a resposta é não.

Pelas esquinas, ouve-se:

"Eu não tenho medo. Vou lutar até a morte, sou Tupinambá e estou preparado para morrer!"

Me sinto um bolo de fraqueza e covardia, simples assim.
Como alguém que tem medo do escuro e de avião se mete nesse palco de conflitos?

Meu ritual de iniciação precisava ser desse jeito?
com o meu coração na boca de forma tão constante?
que diabos estou fazendo aqui?!

pausa, três respirações bem profundas, ouvi dizer que é bom.

Nessas andanças, o que mais impressiona são  as pessoas e a sensação de que ninguém é uma ilha, não estou só... e arrisco dizer que Vanessa está errada ao afirmar que alguém seja responsável por isso... estou nutrindo uma admiração profunda por essa luta, por essa etnia, por esses encontros.

Esses dias ouvi uma frase no vento:

"O medo é a negação de um poder que você tem..."

foi bom pra pensar.

Ainda tenho medo do escuro, do inseguro e não sinto nadica de nada  desse poder... mas, desconfiar que ele existe e manter o foco na escrita, tem adiado a minha volta para Manaus todos os dias... não sei até quando.

Ass: Natasha, a covarde.










segunda-feira, 2 de setembro de 2013

quando a mudança dói


"Renascer é uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Rede Globo (1993). Conta a saga de José Inocêncio, um fazendeiro da zona cacaueira de Ilhéus, Bahia". (wiki)

com as devidas alterações, é lá que Natasha passará uma senhora temporada fazendo seu trabalho de campo. que delícia! alguns diriam... mas hoje eu vou falar de dor e de mudança.

Nunca mudei, nem de casa, nem de bairro, nem de cidade, nem de família... minto, já mudei uma vez, de quarto... só, quando reformaram a casa. Se tem uma coisa que eu sempre quis, foi mudar. arrumar "tudo" numa caixa de papelão e ver como seria a cara do lugar pra chamar de meu.

Voltando a novela que tem como pano de fundo o sul da Bahia, 
tem uma cena que eu nunca esqueci.

Assim que Zé Inocêncio chega em Ilhéus, é pendurado em uma árvore e tem sua pele arrancada a faca pelos coronéis locais.

Meu couro tem sido arrancado todos esses dias... em especial, hoje.

Eu pude sentir o quanto a mudança pode ser dolorida, no entanto, absurdamente necessária. 

não foram os móveis, ou as roupas na bolsa. foi o couro que foi arrancado e aos poucos costurados por esses caminhos não imaginados.

Vou bem ali enfiar o facão no meu Jequitibá rei.









segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sábado visceral: ritual, substância, visões


Não tinha lido quase nada propositalmente, sabia uma coisa ou outra: "o gosto é ruim".

Num ambiente controlado, isolado e especial, pessoas fantásticas e experientes, resolveram se reunir e compartilhar um momento único com neófitos. 

Um detalhe importante: estava sem água e luz.

Velas, chás diversos, conversas e confecção de instrumento musical em palha foram os momentos iniciais. a recomendação foi preparar o corpo bebendo bastante líquido, o almoço deveria ser mínimo. as 20h começamos.

Houve a nominação, era necessário ter um dos nomes ancestrais. 

sentamos em círculo, mulheres de um lado, homens do outro. cantos, danças, curiosidade.
vinte minutos se passaram, trinta? quarenta? ao todo: CINCO HORAS. mais.

peço ajuda a Jean Langdon (1992) no texto "A cultura Siona e a experiência alucinógena":

"Deve-se atravessar três estágios para que o espírito possa sair do corpo e viajar com o xamã. No primeiro estágio, o aprendiz apenas experimenta náusea e desconforto, que podem ser acompanhados por vômitos e diarréia".

suor, espasmos, medo, merda, cheiros, vômitos, vibrações, texturas, cores, visões, dores, nojo, pavor...

sem apologias: f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.

Etnografia completa* na dissertação: RÁ!

ou não. rs


domingo, 30 de junho de 2013

DESMATAMENTO: sua companhia para escrever, desenhar e pintar.


Numa manhã de despedida, estava na estrada do Turismo observando a paisagem e avistei uma fábrica da faber-castell.

Em Manaus?

Naquele instante, um mundo de cores se abriu pra você... aquela música do Toquinho começou a tocar na sua cabeça... fez lembrar de quando você era criança e das festinhas de aniversário que sempre rolava um palhaço fazendo mímica e interpretando tão linda melodia.


Numa fração de segundos, todo esse momento mágico se esvaiu, você lembrou qual a matéria prima daquele lindo lápis de cor.

Implantar uma fábrica da Faber Castell na Amazônia foi uma ideia de gênio!


Há quem acredite nesse conto da carochinha:

Since 1761

"Ela já tem 246 anos de vida, é a maior fabricante de lápis do mundo e detém a liderança absoluta do mercado no Brasil, mas não está satisfeita. Preocupada com o meio ambiente, e também com o futuro de sua principal matéria- prima, a madeira, a Faber-Castell vem investindo pesado em ações ambientais nos últimos anos, o que já vem lhe rendendo bons frutos. A empresa, que consome anualmente mais de 100 mil toneladas de madeira, hoje já consegue, através de seu programa de reflorestamento, ser auto-suficiente e ainda formar um estoque respeitável para os próximos anos." (grifos meus)

oremos.

sábado, 22 de junho de 2013

pintura corporal indígena


Lévi-Strauss sobre a pintura Kadiwéu:

Envolve, além do valor decorativo, um elemento sutil de sadismo que explica, ao menos em parte, por que o apelo erótico das mulheres kadiwéu (expresso nas pinturas e por elas traduzido) atraía outrora para as margens do rio Paraguai os fora-da-lei e os caçadores de aventura. Vários deles, hoje envelhecidos e instalados maritalmente entre os indígenas, descreveram-me, palpitantes, os corpos de adolescentes nuas completamente cobertos de teias e arabescos de uma sutileza perversa. (LÉVI-STRAUSS. O desdobramento da representação nas artes da Ásia e da América. In:Antropologia Estrutural II.p. 273, 1958)


Este parágrafo foi citado e comentado pela autora Dorothea Voegeli Passeti (2008) no livro “Lévi-Strauss, antropologia e arte minúsculo, incomensurável” da  seguinte forma:

Todo antigo entusiasmo desaparece, como se as “mulheres com pose de ídolos” agora fossem reduzidas a perversas conquistadoras de homens, aguçando o gosto sádico de aventureiros e criminosos através de um artifício aparentemente mutilador de seus próprios corpos.

Lévi-Strauss adverte, do primeiro ao último parágrafo desse artigo, que a arte primitiva deve ser analisada através de métodos cada vez mais científicos. Se o erotismo da pintura kadiwéu lhe parecia algo inexplicável pelo desejo masculino, agora recebe um tratamento objetivo e racional: a deformação artificial do rosto pela pintura, substituindo uma cirurgia impossível e inacabável, produz um efeito sádico, como se, de fato, o rosto ficasse mutilado. O argumento parece se aproximar, perigosamente, daquele dos primeiros missionários. (PASSETI, 2008, p. 155)


Ignore essa discussão de Claude e Dorothea,
na dúvida, cubra-se dessa "sutileza perversa" do qual suspirava Lévi-Strauss...

pintura corporal, espiritualidade, sexualidade. não necessariamente nessa ordem.

escolha uma para chamar de sua... recomendo muito.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

desenhos visionários


Cristina Gonçalves, 2009 (instagram)


Fiquei o dia pensando numa pintura que vi no instagram, hoje.

Vez ou outra vinha na memória aquela sandália preta toda trançadinha no pé da menina e aquele gatinho que olhava pra traz... ele olhava pra quem? pra onde? arrisco dizer que lá é bem mais interessante que aqui, os gatos tem sempre razão.

o azul estava bonito, aposto que se você olhasse rápido... jamais perceberia que estava chovendo, a não ser pelo tamanho do guarda chuva e as poucas gotas que caem ao lado da moça.

Hoje eu li um texto da Angelika Gebhart-Sayer, sobre desenhos, sonhos e visões (...) ela fez a pesquisa entre os índios Shipibo-conibo. Além de bonito, achei muito bem escrito...

Dentro de um contexto específico, ela falou que o desenho é a "domesticação" de um mundo invisível/espiritual... e nesse mundo, a frequência  é caótica e as informações são incompreensíveis.

E é exatamente assim que eu me sinto hoje, nesse mundo caótico, incompreensível e molhado... a chuva não passa, vez ou outra ela vem conferir o seu grau de encharcamento...

eu já ensopei! já chega!

mas ela é insistente... está o tempo todo te testando, um abuso.

o que sobrou é a paciência e a esperança que ao menos um dia você construa aquela sombrinha rosa e imponente, igual ao da menina da pintura.

obrigada cris!

:*

pintura original:

Cristina Gonçalves, 2009



terça-feira, 4 de junho de 2013

xavante, xamanismo e sepultura

índios xavante empurrando avião. Foto: José Medeiros, 1949.


a saber,

"A música Itsari foi gravada na Aldeia Pimentel Barbosa (Xavante) no ano de 1995, às margens do rio da morte no estado de Mato Grosso" (wiki)










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