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domingo, 4 de setembro de 2016

Árvore de defunto

Vovô Arlindo estava na mesa da cozinha e, como de costume, convidou filhos e netos para comerem o guisado. O prato do domingo era feito de pirarucu fresco. Atravessou a rua de sua casa e convidou tio Mário, chamou várias vezes sem sucesso, não tinha certeza se ele estava em casa... supôs que poderia ser o "novo" hábito manauara: entupir a casa de ar condicionado e trancar todas as portas durante o dia. 



No sábado, falou para sua filha mais velha, Rosimar, ir a taberna comprar óleo de dendê. Pela convivência de toda sua vida, a primogênita entendeu que seu pai gostaria que ela preparasse o guizado do peixão com o tal do óleo, "sem o leite de coco e muita verdura", ele disse. Vovô Arlindo sabia o que dizia.

Antes do prato principal ficar pronto, cozinhou quase um quilo de cará roxo e deixou sobre a mesa assim que acordou. Desta maneira, a prole esfomeada teria o que comer da manhã até o almoço. 

Depois que a panelada ficou pronta, do nada, tio Mário apareceu. A neta mais velha, que estava sentada na mesa gigante, comentou sobre a expedição feita pela manhã no terreno do tio. Explicou que ao observar minuciosamente toda aquela exuberante vegetação, um milhão de carrapicho's grudaram no seu vestido. Passado a raiva, verificou que o pé de limão estava morrendo, mas a goiabeira e o cajueiro estavam "carregadinhos", acrescentou que pareciam frutas de cemitério.

A morbidez de tal comentário, no meio do almoço de domingo, causou asco no seu avô, que havia acabado de colocar uma colherada de pirarucu na boca: 

"Eu não como goiaba, manga, jambo [...] fruta nenhuma de cemitério"

Todos riram e a neta metida a sabida perguntou o porque:

"Minha filha, uma árvore é como uma pessoa, sabe as nossas veias? onde passa o sangue? tem o mesmo dentro de um pé [de árvore]. As raízes vão fundo no chão, e no cemitério ela suga aquela lama de defunto. Eu não como aquilo por nada no mundo! aquilo é imundo!"

Tio Mário, exibindo um conhecimento altamente especializado, interviu e disse que se tratava da seiva, que era tudo transformado, e o que passava para fruta era apenas os nutrientes. Tia Mara, espocando de rir, deixou bem claro que comer  fruta  de cemitério era o mesmo que comer as frutas deliciosas do terreno do ti Nena. A única diferença era que o adubo tratava-se de cocô e não de restos humanos. Ti Nena tem a goiabeira mais saborosa do bairro por ter plantado em cima de sua fossa. 

Vovô Arlindo não disse nada a respeito da goiabeira do seu vizinho falecido, ti Nena. Ignorou todos os comentários da mesa, balançou a cabeça e afirmou que não comeria nada de árvore de defunto e ponto final. 



Fim

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Poliamor e tubérculos

Acabei de assistir um episódio de uma série do Netflix: Chef's Table.



Ao que tudo indica, é uma série que destaca pessoas apaixonadas [donas de restaurantes famosos rs] por elaborar comididinhas maravilhosas. Hoje assisti o primeiro [e acho que último, não quero viciar em televisão nesse momento da minha vida] que é protagonizado por Alex Atala.

Depois dele ter sido citado pela Manu Carneiro da Cunha no artigo "Questões suscitadas pelo conhecimento tradicional", faço votos que ela esteja comendo no DOM com desconto:

"O tema do conhecimento tradicional está hoje por toda a parte – no Banco Mundial, na Organização Mundial da Saúde, na FAO, na OMPI, na Unesco, e também em outros círculos menos oficiais: o chef de cozinha Alex Atala (aliás, em grande parte responsável pelo sucesso internacional do jambu) me disse que a contribuição culinária mais importante da Amazônia foi o tucupi". (p. 441, 2012)

Hoje não falaremos de Tucupi. Nem de jambu. No entanto, explico que o chef foi citado, por ser muito poser, inspirador neste início de madrugada e obviamente, por destacar as duas florestas mais lindas e florestudas do mundo:

- A vida são vários "ciclos". Corresponde a vida de uma planta. A parte que estamos vivos é a flor :)
- Eu descobri o que fazer com a raiva que eu sentia.
- Toda comida implica a morte, muita gente esquece disso.

Apesar de todas as coisas maravilhosas que assisti, falaremos de duas raizinhas que não foram citadas no documentário, mas que foram lembradas por Natasha com muito carinho.

Hoje falaremos sobre o cará roxo e a mandioquinha.

Na minha vida que não existe, teria uma plantação de mandioquinha no quintal. Eu não consigo nem imaginar em excluir o meu amor pelo cará roxo. A textura desse legume/fruta/pão, acompanhado daquele sabor que vai derretendo na boca, não pode ser sobreposto à mandioquinha. Agora fico me perguntando o porque de inserir esse versus perverso entre os dois.

Só de falar assim da mandioquinha, meu coração aperta.

Sempre comi a mandioquinha misturada na salada, sem perceber direito o sabor que ela tem. Até que experimentei uma sopa todinha só dela. PELOAMORDEDEUS. O coitadinho do cará roxo entra em desvantagem, porque a sopa feita do bichinho, fica esquisita: levanta a mão quem já tentou! hahahahahha EU! fica gosmento e a textura some. : ~


A mandioquinha, como um tubérculo único que explode em milhares de sabores na sua boca, apareceu pra mim em forma sopa. Aliás, sopa é um dos meus pratos favoritos da vida. Essa raizinha é tao maravilhosa, que ela sozinha é prato principal, é tanto sabor junto que nem sei explicar, parece uma sobremesa, uma torta salgada, um creme cheio de especiarias... mas não, é só ela, como veio ao mundo. :3

E foi nesse contexto de deslumbre e os preços altíssimos que esse produto importado tem ao aterrissar em Manaus, é que decidi o seguinte:

Se alguém pedir para você plantar batatas, substitua mentalmente por mandioquinha  <3 Por ser um ditado que ninguém mais usa, experimente plantar em casa mesmo pra se exibir pros seus amiguinhos.

*

Acabei de fazer uma busca breve sobre ela, descobri que a belezinha veio dos Andes, que fofinha né? Uma pena que ela só sobrevive no frio.

desenho estilo "viajante". rs


Clima

A mandioquinha necessita de clima ameno, com temperaturas entre 15°C e 18°C para se desenvolver bem, mas pode tolerar temperaturas um pouco mais altas ou um pouco mais baixas. Embora seja possível cultivá-la em baixa altitude, a mandioquinha cresce melhor entre 1700 m e 2500 m de altitude.
Aqui vai um beijinho pra minha irmã, que tem feito essa sopinha maravilhosa com frequência nesses maravilhosos 28 graus em Manaus.



Achei no youtube
Chefs Table, Season 2, Episode 2, Alex Atala




domingo, 23 de março de 2014

pote de farinha

- esse feijão tá uma delícia;
- é... essa calabresa defumada que dá o gosto... olha... tu quase derruba esse pote de farinha, fizeste igual ao rodrigo. ele que comprou esse.
- FOI?
- foi, ele espatifou a outra, foi farinha pra tudo que é lado... depois ele apareceu com esse pote, no meio da semana, todo embrulhado... acho que demorou pra encontrar. é super difícil achar, combina com os outros.
...
- esse milho tá super gostoso;
- também achei, a Clarinha já come sozinha, uma beleza!
...

*

Fico pensando se quebro esse pote de farinha... deveria ter esbagaçado no chão!
Uma lembrança... mais?

Continuo comendo a farinha do pote, agora com um pouco mais de cuidado...
Com tristeza, saudade e... muita raiva... e se...?

Foda-se.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Muito além do peso, Estela Renner.


L'enfant gras, Modigliani, 1915

documentário velhinho (rs), mas iniciei a noite lendo uma revista e topei com um artigo do Ricardo Manini falando sobre ele. não deu pra resistir! dá pra pensar tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa (!)... economia, política, povos indígenas, saúde, doença, meio ambiente, agricultura familiar, feiras, manaus moderna, demarcação, terras indígenas, guerras mundiais, naturebice, comidinhas... ai! bom filminho :)

Em homenagem a dor no peito que eu senti quando vi minha afilhada tomando danoninho pela primeira vez: 

Documentário: muito além do peso, 2012.

domingo, 15 de dezembro de 2013

qualificação e prezi

Quando ela estava no colégio, tia Patrícia fazia suas tarefas de casa naquela mesa grande da vovó Ana e do vovô Arlindo que ficava na cozinha. Nessa mesa grande, vovó fazia comidinhas rápidas para ela e os filhos, mas as netas sempre davam um jeito de filar essa iguaria:  feijão de praia cozido na água e sal, verdurinha (cheiro verde, cebola, tomate) picada, farinha seca (branca) e um pouco de óleo pra dar a liga. 

Misturava tudo e fazia pequenas porções com as mãos, cuidadosamente amassados...  aos poucos eles eram enfileirados no prato e viravam pequenos bolinhos carinhosamente chamados de “boloto”, cada um pegava o seu.


Depois do “boloto”, tia Paty limpava o fogão e fazia suas tarefas escolares na mesona. Esse oficio de “limpar o fogão antes de dormir”, seguia uma regra rigorosa: depois que a mais velha conseguisse um emprego no distrito industrial ou casasse, a seguinte seguia no ofício... sempre antes de dormir e/ou namorar.

Ai de quem fosse namorar antes de limpar o fogão. Vovó Ana ia buscar na sala e soltava o verbo: VÁ JÁ LIMPAR O FOGÃO! Ninguém queria passar por tal constrangimento.

A da vez era a Paty, Simone havia acabado de conseguir um trabalho na Philips.

As mais velhas, Rosa e Maria, eram lembradas com saudades em tempos de faxina. Mesmo casadas, enceravam o chão da casa da vovó nos finais de semana ao som de Roberto Carlos e “daquela mulher cega”: a Kátia.

Sou rebelde, não era a Kátia.

Por ser vizinha da minha avó, eu vivia lá. Colava na Patrícia, uma pentelha-chiclete mesmo.

Depois de limpar o fogão, Paty tinha um caderno de educação artística, onde ela fazia réplicas do teatro amazonas e onças. Eu amava vê-la pintando e desenhando. Ela tinha uma infinidade de lápis de cores... mas o seu zelo,  brabeza e perfeccionismo era tão grande e característico desta personalidade, que ninguém ousava triscar, obviamente. ou não na frente dela! hahahahaahaha

Segundo ela, os contornos de qualquer desenho com uma canetinha preta era o segredo para a beleza de qualquer pintura, eu seguia à risca. Aquele talento era sobrenatural pra mim.

A minha lembrança mais forte, foi a de um trabalho de biologia que ela desenhou cuidadosamente uma infinidade de vermes, protozoários, bactérias... foram diiias de tênias, amebas, platelmintos que flutuavam na minha cabeça... era tudo lindo demais.





Paty cresceu, eu também.

E momentos antes da minha qualificação, ela me apresentou o Prezi.



"Tu vais arrasar na tua qualificação! é bem simples de usar e as apresentações ficam lindas"

A vontade de aparecer é uma coisa incrível né? hahahahahah

Mas antes, vou falar de uma situação recorrente nessa minha vida pré-qualificação: a petrificação do corpo e da alma.

de acordo com o site/blog/delícia do pós-graduando, eu estava com a crise do powerpanicopoint.

"Priscila, repelida pelo PowerPoint
Priscila era uma menina de cachinhos dourados que fazia mestrado em algum departamento de Exatas no RJ. Tudo ia bem, até que duas semanas antes da sua defesa, Priscila se viu incapaz de abrir o programaPowerPoint. Toda vez que ela abria o programa um medo incontrolável tomava conta dela, e Priscila tinha que ser levada para o Hospital Universitário. Foi diagnosticada com: Crise do PowerPanicoPoint e como tratamento fez toda a sua apresentação de defesa no Prezi." 
(Daniel Agrimani)

Paty precisou sentar ao meu lado e segurar na minha mão para que eu abrisse o programa, eu estava absolutamente tensa e incapaz de fazer qualquer coisa. só tratamento na minha vida.

Depois de passar por esse momento frescurite aguda,  fiquei HORAS mexendo na apresentação, fotos, modelos e isso entrou pela madrugada, até eu topar com a história de Miguilim... Sim, você não tem o que fazer e as duas da manhã, véspera da sua qualificação, você baixa um pdf de "campo geral"... pra passar o tempo.

vai dormir garota!

*

No dia da qualificação, cheia de olheiras e tensão, a figura incrível do Rafa (membro da banca), depois deu instalar o projetor e rezar para abrir todos os arquivos, fala o seguinte:

"Prefiro ouvir você falar, olhando pra você".

gelei.

Tudo bem que eu me posicionei de maneira errada sabe? fiquei na posição contrária ao projetor :/ nem tive o tino de levantar e falar ao lado da imagem... colei na cadeira e lá mesmo fiquei. mas ok, tava nervosa e com as tripas moles. (sacaram né?) demorei uns 30 segundos pra perceber que toda a minha frescura/sofrimento pré-qualificação foi pras cucuias, bastava eu contar uma historinha e pronto. ah, só eu vi o prezi. hahahahahahahah

No fim das contas, qualificação não é um bicho de sete cabeças, você leva umas surrinhas, mas faz parte do "ritual do ralho".

Você e seus colegas de PPGAS, que passaram pelo ritual do ralho.
(Aleksandra Waliszewska) 

gostei :)

Tia Paty é linda e eu vou guardar pra sempre a dica do prezi, apesar do frio na barriga de você não saber se ele vai abrir ou não, as apresentações ficam arquivadas numa conta (do próprio prezi) e as informações são apresentadas de uma forma mais dinâmica sabe?  com vídeo, fotos, animações... impressiona gente besta que nem eu! hahahahaahah 

Fique craque na parada, vai que você precisa "vender" uma ideia/projeto legal, 
nunca se sabe.








quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ibsen e a monarquia: contos de madrinha e afilhada

Era uma vez uma madrinha que tinha a afilhada mais linda-gostosura-total. Em datas festivas e viagens mirabolantes a pessoa que vos fala pensa em mil agradinhos para essa bolinha de amor e dobrinhas. Tudo faz lembrar dela, desde aqueles vestidinhos cubanos, bordados pelas mãos daquelas senhorinhas que ficam nas janelas daquelas casas coloniais lindas... uma calcinha de renda renascença do sul da Bahia que custa o olho da cara... mas é linda de morrrer, ou aquele colarzinho de madeira feito pelos Tikuna, visto um dia desses... tudo lembra ela.

colarzinho Tikuna, fonte: Dani :)


É difícil ter criatividade com a quantidade de bonecas louras, finíssimas e aquele absurdo de rosa de todas as nuances. não, eu não sou uma madrinha "guerrilheira"! hahahahah mas aquela boina do Fidel ficou linda demais nela... :D~, minha comadre que me perdoe.

Dia desses estava pensando em duas categorias de elogio que são utilizadas com frequência em bebês fêmeas: boneca e princesa.

- Essa garotinha é uma boneca de tão linda;
- Parece uma princesa.

Vamos pensar, ou ser chatos, ou pedantes. dá no mesmo. acostume-se com o isolamento, seres humanos dessa espécie, dificilmente serão aceitas por gente legal e descolada.

Li um livro, emprestado pelo amigo sempre lembrado, que foi quase um soco no estômago:

"Casa de bonecas", escrita por Henrik Ibsen em 1879.



Essa peça foi escrita em 1879. VEJA BEM, 1879!!!!!!

E o mais absurdo/impressionante é que ainda somos criadas da mesma forma até hoje... tudo bem que o meu clã tende ao matriarcado... mas, nem sempre é assim.

Se você pensa em cuidar de meninas, ou convive com elas, ou quer educar meninos de forma diferente, ou está coçando o saco e quer ler algo que preste, ou que levou um pé na bunda daquela mulher cheia de opinião e fantástica, faça o favor de ler esse livro e deixe-se transformar por ele, você não é uma barsa, deixe ele agir sobre você, ou não tem sentido nenhum você se exibir dizendo que o leu.

ok, nada de chamar aquela belezinha de boneca.

Vamos a outra categoria: princesa. 



Desde muitos anos, vem sendo utilizada em baladas de baixo nível, 
por sujeitos cínicos e pouco respeitáveis.

Pelo amor! monarquia não né?

Se nós vivemos num regime republicano ou democrático de fato, não interessa (nesse momento). aquela época de piolhos e sífilis da monarquia no Brasil te dá arrepios até hoje. tudo bem que os vestidos da Kate Middleton são lindos, mas não caia nessa. seja forte, e adote formas mais criativas de chamar aquela bolinha de formosura com nomes carinhosos e inspiradores.

A madrinha te ama demais... e um dia, alguém vai entender toda essa pedância.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Tuxina


Há crianças que tem medo do escuro, do bicho papão, do velho do saco, do escuro (isso foi depois de velha)... eu? eu tinha medo de Tuxina.

Vou explicar.

"O oxiurus é um verme pequeno, cerca de 1 cm, em que parte, habita o intestino, e parte saem para fora, muitos ficando em volta do anus, provocando coceira anal. Em mulheres, pode causar também coceira na entrada da vagina. Ex: O menino não para quieto... parece que esta com tuxina" (dicionário informal)

Quando você era criança e descobriu o valor da farinha láctea na fruta, no leite, pura, com sorvete... com TUDO...

sua mãe pirou. daí a esperta disse o seguinte:

- Farinha láctea dá tuxina.

¬¬

Independente do que "era" a tal da tuxina, sua mãe, sábia, ainda contava com riqueza de detalhes os procedimentos para as belezocas saírem.

"filha, primeiro a mamãe vai amornar e adoçar o leite, daí vou colocar num pinico ou numa bacia. Depois você senta, sem encostar o bumbum. quando a lombriguinha estiver saindo, mamãe vai pegar um graveto e ir enrolando até ela sair todinha".

*

Agradecimentos especiais as parteiras tradicionais maravilhosas da etnia Kariri xocó, Pankararu, Pataxó hãhãhãe e Tupinambá que me fizeram relembrar dessa delícia de história.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

ao mestre, com amor e carinho



Homenagem ao professor mais admirado deste universo,
de uma, das quatro mulheres que o amam demais...


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

tacacá da tia Socorro



Gente, tucupi é uma delícia com qualquer coisa, até com sorvete! hahahahahah AMO!

Depois de encher o meu buchinho com acarajé naquele mundo baiano, fiquei desejando horrores o tacacá, eu sonhava com aquele caldinho com camarão e jambú (pouco) na cuia... 

Pensando nesse texto aqui, lembrei de uma pessoa que conheci num congresso em Buenos Aires, ele apresentou um trabalho sobre as tacacazeiras em Belém. Lembro que fiquei impressionada como Daniel Bitter, que estava envolvido com o processo/pedido do registro de ofício de tacacazeira no Iphan, com pouca teoria e muita descrição etnográfica, demonstrou que aquele modo de fazer tacacá era genial e digno de se tornar patrimônio... super talento!

Comecei a jogar o nome dele no google + tacacá... achei!

"Comida, trabalho e patrimônio. Notas sobre o ofício das Baianas de acarajé e das tacacazeiras".

assim como o acarajé e o tacacá, o artigo é uma delícia! dá pra ler numa sentada.

Que grande coincidência ter no mesmo texto o acarajé... adorei entender melhor a relação das baianas com essa comida de rua... inclusive sobre a polêmica discussão sobre o "bolinho de Jesus".
Lembro que no congresso, ele falou apenas do tacacá...

O mais engraçado é que ontem, conversando com uma amiga sobre temas de dissertação... lembramos que a última vez que tocamos no assunto foi lá no tacacá da tia Socorro, na cidade dos carros (...). Ainda que eu torça o nariz para esse nome "cidade dos carros"... faz sentido... rs, que lugar gostoso: é tranquilo e tem ventinho.

Apesar do preço salgado, Gisela que me perdoe, ainda não provei tacacá mais gostoso! sério...  fico diiiias desejando essa maravilha.

Olha que bonito que eu encontrei no texto do Daniel:

"Patrimônio, aqui, assume outros contornos semânticos, revelando-se indissociavelmente ligado ao corpo, à alma, às relações sociais, a certos lugares, ao modo com que essas comidas são servidas e consumidas, 
à sua estética, e assim por diante. As baianas e as tacacazeiras não são apenas cozinheiras capazes de produzir com competência certas comidas, são atores sociais que veiculam concepções de mundo. Ser baiana ou tacacazeira é uma forma específica de ser, estar e agir no mundo."

Graças à essas mulheres, tacacá sempre foi sinônimo de estar com a família... quando era pequena, nunca compravam uma cuia só pra mim... era sempre dividido com a mamãe ou outra pessoa conhecida que estivesse por ali... "o tucupi é muito forte pra elas", dizia. Ficava ansiosa para que chegasse a "minha vez"... era a hora de pescar um camarão e tomar aquele caldinho amarelo-ouro-delícia.



Segundo Daniel, "as tacacazeiras de hoje, na maioria, aprenderam o ofício com suas mães e avós ou com outras mulheres", lindo né? 

Vou bem ali tomar meu tacacá e matar minha saudade.








segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sábado visceral: ritual, substância, visões


Não tinha lido quase nada propositalmente, sabia uma coisa ou outra: "o gosto é ruim".

Num ambiente controlado, isolado e especial, pessoas fantásticas e experientes, resolveram se reunir e compartilhar um momento único com neófitos. 

Um detalhe importante: estava sem água e luz.

Velas, chás diversos, conversas e confecção de instrumento musical em palha foram os momentos iniciais. a recomendação foi preparar o corpo bebendo bastante líquido, o almoço deveria ser mínimo. as 20h começamos.

Houve a nominação, era necessário ter um dos nomes ancestrais. 

sentamos em círculo, mulheres de um lado, homens do outro. cantos, danças, curiosidade.
vinte minutos se passaram, trinta? quarenta? ao todo: CINCO HORAS. mais.

peço ajuda a Jean Langdon (1992) no texto "A cultura Siona e a experiência alucinógena":

"Deve-se atravessar três estágios para que o espírito possa sair do corpo e viajar com o xamã. No primeiro estágio, o aprendiz apenas experimenta náusea e desconforto, que podem ser acompanhados por vômitos e diarréia".

suor, espasmos, medo, merda, cheiros, vômitos, vibrações, texturas, cores, visões, dores, nojo, pavor...

sem apologias: f-a-n-t-á-s-t-i-c-o.

Etnografia completa* na dissertação: RÁ!

ou não. rs


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

cotidiano



Se sua cabeça acordar coçando, não se desespere, pode ser alergia.

você trocou os lençóis e limpou o seu quarto! não tem cabimento... suspeite do travesseiro, só pode ser ele! veja na internet se a sua ideia é boa e viável. 

escolha a metodologia mais fácil: água morna, máquina de lavar, sabão líquido, gotas de água sanitária. 

parece legal... e a ideia de um travesseiro limpinho e novinho começa a povoar seu imaginário, aquelas marcas de lágrima, rímel, baba (...) finalmente sairão!

a saber, você o quer apenas para dormir abraçada... acho super desconfortáveis na cabeça... vai entender!

poderia, mas não se trata de uma metáfora.

obstinei na ideia de lavá-los, colocar no sol, matar os ácaros remanescentes... cega nessa missão, dei continuidade ao plano e fiquei observando o batido na máquina de lavar...

- o que é isso na máquina?
- meu travesseiro...
- pode tirar! tu não tá vendo que isso vai quebrar essa máquina?
- mas mãe, eu vi na internet que...
- tira isso agora!

¬¬

tirei uma bola pesada e encharcada, além de sujo, tava gosmento e... lixo.

dica: ouvi dizer que... "cerca de 25% do peso de um travesseiro velho é devido à peles mortas, ácaros e seus resíduos. " (net)

sério, que nojo! 
obrigada mãe.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

aulas de francês



Présentation de vous et de la famille*


J'appelle Natasha, j'ai deux soeurs et je vis toujours avec mes parents. J'étudie maîtres de l'anthropologie et des peuples autochtones et de leur art.

Mon grand-père est mort Constantino a une semaine et quelques jours, ma maison est très triste, mon père visiter ma grand-mère tous les jours. Dans la famille de ma mère est très grande et belle, j'ai grandi avec mes tantes.

J'ai un ami qui s'appelle Valeria, elle a étudié l'anthropologie dans ma classe et maintenant, c'est mon voisin.

Valeria est ma nouvelle soeur, il est devenu un grand ami et compagnon dans les moments difficiles.

Mes tantes sont très belle et intelligente, tante Mara a eu un bébé appelé Ana Clara (Clarinha) et m'a demandé d'être sa marraine. Je suis très fier de cette invitation.

Clarinha a les yeux de ma grand-mère Ana Vidal, et est le plus bel enfant du monde.


*ainda não foi corrigido.

terça-feira, 25 de junho de 2013

injustiça: jamais fomos modernos.




não, eu não vou falar da taxa do ônibus, nem da saúde, nem da educação, nem da PEC 37 que está sendo discutida agora, a saber:

Proposta de Emenda Constitucional 37/2011. Se aprovada, o poder de investigação criminal seria exclusivo das polícias federal e civis, retirando esta atribuição de alguns órgãos e, sobretudo, do Ministério Público (MP).

A PEC 37 sugere incluir um novo parágrafo ao Artigo 144 da Constituição Federal, que trata da Segurança Pública. O item adicional traria a seguinte redação: "A apuração das infrações penais de que tratam os §§ 1º e 4º deste artigo, incumbem privativamente às polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal, respectivamente".

Neste exato momento ela foi negada.

Neste exato momento meu avô está doente... está internado num hospital público "Francisca Mendes" e seu prontuário não o acompanhou como deveria. Ao sair do "João Lúcio", uma medicação essencial foi "esquecida", por pura negligencia médica.

também não vou falar que ele passou dias com dores absurdas e que seu quadro foi piorado em função desse esquecimento...

não digo, que tive a experiência espiritual mais incrível esses dias e passei a confiar mais nas pessoas, inclusive nos pilotos de avião... nem que passei a baixar editais de doutorado concorridíssimos e me trancafiar em bibliotecas.

nem que estou torcendo muito pro professor de francês considerar minhas faltas e aceitar que eu faça aquela prova... Je ne renonce pas!

eu estou às vésperas da minha qualificação e a encruzilhada de pensamentos me acompanha... definitivamente, o mundo não foi separado e eu jamais fui moderna.

o pós (pré) trabalho de campo para um neófito em antropologia, é o momento de você abdicar da vida para refletir e digerir o seu material que foi coletado, que não foi pouco: ainda bem.

e cá estou eu, mergulhada em transcrições e leituras... obviamente, lutando diariamente contra a procrastinação inerente de uma internauta enlouquecida.

à minha defesa, digo que farei protestos sim, na minha escrita, pensamentos e argumentações.

esse foi o meu pedido de desculpas públicas aos meus não´s continuados dessa semana.

um beijo a todos,

volto ao meu cativeiro.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

desenhos visionários


Cristina Gonçalves, 2009 (instagram)


Fiquei o dia pensando numa pintura que vi no instagram, hoje.

Vez ou outra vinha na memória aquela sandália preta toda trançadinha no pé da menina e aquele gatinho que olhava pra traz... ele olhava pra quem? pra onde? arrisco dizer que lá é bem mais interessante que aqui, os gatos tem sempre razão.

o azul estava bonito, aposto que se você olhasse rápido... jamais perceberia que estava chovendo, a não ser pelo tamanho do guarda chuva e as poucas gotas que caem ao lado da moça.

Hoje eu li um texto da Angelika Gebhart-Sayer, sobre desenhos, sonhos e visões (...) ela fez a pesquisa entre os índios Shipibo-conibo. Além de bonito, achei muito bem escrito...

Dentro de um contexto específico, ela falou que o desenho é a "domesticação" de um mundo invisível/espiritual... e nesse mundo, a frequência  é caótica e as informações são incompreensíveis.

E é exatamente assim que eu me sinto hoje, nesse mundo caótico, incompreensível e molhado... a chuva não passa, vez ou outra ela vem conferir o seu grau de encharcamento...

eu já ensopei! já chega!

mas ela é insistente... está o tempo todo te testando, um abuso.

o que sobrou é a paciência e a esperança que ao menos um dia você construa aquela sombrinha rosa e imponente, igual ao da menina da pintura.

obrigada cris!

:*

pintura original:

Cristina Gonçalves, 2009



sábado, 1 de junho de 2013

restaurante SUYSEI, é muito amor

Dizem as más línguas que Lévi-Strauss ao escrever "O cru e o cozido", 
estava pensando num sushi. será? 


Tem um tempo que uma amiga pra lá de querida havia comentado que tinha em casa, um lugar onde todos os dias colocava moedas, era o cofrinho do Suysei... "temos que ir nesse restaurante ao menos uma vez por mês" disse entusiasmada.

pelo fato desta moça cozinhar muito bem, ela é a autora do bolo de chocolate com brigadeiro de cupuaçu, confiei na sua dica e fui conferir o tal do Suysei de perto.

Apesar de você perceber que comida japonesa faz parte de uma modinha irritante na cidade, você deve reconhecer que essa iguaria, quando bem feita, é uma delicia!

Poderia fazer duas denúncias envolvendo restaurantes de mesmo nome, escuros com músicas duvidosas, localizado no Vieiralves... dizer que já me serviram em pratos sujos (ÓDIO), por imaginar que eu não enxergaria naquela penumbra e, respire fundo, por passar um rato, com proporções de mucura, atrás da cadeira da sua amiga. Tive desconto nesse dia, ameacei denunciar para a ANVISA.

Tudo bem que depois de Ratatouille, você nutriu sentimentos absurdamente fraternais por esses roedores, adoro aquela cena que eles saem todos limpinhos e fofinhos da máquina de lavar louça, sério! mas na vida real não dá, rato e comida não combinam, só no desenho.



Até quinta feira, o seu restaurante favorito, eleito como o mais limpinho, gostoso e barato (hoje nem tanto) da cidade era o Ichiban. É perfeito você comer ao lado daquelas prateleiras de supermercado, observando qual o saquinho com doces (ou salgados) iria levar pra casa... sem contar aqueles sorvetes com sabores de melão, melancia (!) com aquelas letrinhas desenhadas... um amor.

Aproveitei o feriado pra trocar de amor, apresento o Suysei:

Novidade: fotos de arquivo pessoal :)
Gente do céu, eu tô encantada por esse lugar! já explico.

 Cada vez mais, eu estou convencida do seguinte: se você não gosta de cozinhar, de conhecer os alimentos, de se surpreender com os sabores... você nem precisa ser simpático... faça o favor de não montar um restaurante, sério.



Ao que tudo indica, os funcionários responsáveis pelo restaurante são uma família, e o ponto alto está naquele senhorzinho pequenininho, o Sr. Takeno, que fica pra lá e pra cá cheio de pratos na mão, lavando louça e deixando a mesa do bufê cada vez mais cheia pra você... ai, ai... suspiros. encanto total.

Sr. Takeno vestido de branco, ao fundo.


Cheguei bem cedo, umas 11:20, e eles ainda estavam servindo a mesa que fica os pratos...

dona Jóia, com muita atenção e simpatia, sugeriu que comêssemos de tudo um pouco e esse é o grande diferencial dos outros lugares que vendem comida japonesa, além de parecer que você foi adotado por uma família do Japão, eu experimentei um zilhão de comidas por um preço determinado sabe? eu não sabia o nome de nada e ia comendo desesperadamente de tudo, até o meu buchinho espocar! AMEI MUITO.

é infinitamente melhor que os demais rodízios, porque você mesma se serve e pode se esbaldar de sashimi! :D









se precisar de um copo, você mesma pega, se tiver vontade de tomar uma bebida, você abre o freezer e escolhe uma pra você! uma graça ver as crianças fazendo isso, autonomia total! fica com uma sensação que a "casa é sua" sabe?

repararam nos pratinhos? uma outra coisa fofa são as louças... meio retrô, casa de vovó sabe? suspiros... rs... muito diferente daqueles fast food temaki´s da vida... não tem comparação!

é muita fofura!
O tratamento é excepcional, a comida é excelente, a cozinha é aberta, o bufê é generoso e variado, o preço é razoável... depois dessa experiência, você só tem um certeza na vida, a de criar um cofrinho com o nome Suysei bem na frente... esse lugar é um vício!

o melhor da cidade, sem dúvida.


atenção:



Se você não entendeu, aí vai a legenda:


Endereço: Rua Urucará, bairro cachoeirinha, vá pela Tefé ;)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

amasso não é pegação

Os Ombros que Suportam o Mundo 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade


Você não é niilista, você só quer uma massagem.

faça um teste: coloque "massagem" no google e conte quantos negros aparecem nas imagens... surpresos? reflita.


apesar do primeiro tópico da pesquisa no google aparecer "Fernanda do prazer" não é desse tipo de massagem que eu tô falando. é daqueles amassos no corpo sem pegação. deu pra entender? vejamos.

dentre outras coisas, a massagem está na lista das dez "atividades" mais fantásticas que dá pra fazer com/no corpo. parece que o ódio, raiva, tensão e o desespero diário vai se esvaindo junto com o deslize daquelas mãos lindas, que resolveram amassar você.

se você fica constrangido com aquelas cadeiras no shopping/espaços públicos e aquele sexo casual é muito casual..., lembre-se que você tem uma fonte de prazer na sua família! sua irmã é fisioterapeuta... aliás, eu já disse que ela é linda, educada, carinhosa, fantástica, inteligente e NÃO É MASSAGISTA! é um absurdo  essa confusão! rs, ela só ama muito sua irmã e vez ou outra aceita três reais pra fazer massagem nela, com todas essas técnicas legais que ela aprendeu na faculdade... heheheheh

implore, chore, fale que a sua vida tá uma merda, que sofre todos os dias, que sente saudades, que vai morrer qualquer dia desses, que pode dormir no volante, que pode se afogar, que as pessoas são insensíveis e maldosas, que você PRECISA "olhar, ouvir e escrever"... e desencruar sua qualificação,  que uma massagenzinha de nada, vai te aliviar do peso do mundo...

mana, 

te amo.

:*





domingo, 3 de março de 2013

pequenos prazeres

1 reencontrar amigos no aeroporto;

2 substituir sobremesa pelo iogurte mais gosto$o do mundo:



3 almoçar peixe assado (proporções amazônicas), com os mais amados;

4 assistir a orquestra de violões do amazonas (OVAM) com maestro simpático por 0800.

bem vinda segunda feira.


domingo, 13 de janeiro de 2013

blog e família

Caso alguém da sua família descubra que você escreve num blog, e ela resolve dizer que a bruna surfistinha começou assim... não reflita muito à respeito, aceite como um elogio. afinal a moça vendeu vários livros e teve atriz global como intérprete.




Complete que natasha é um personagem, que as histórias são fictícias e que o único objetivo deste blog é melhorar a sua escrita quando for escrever sua dissertação/tese. Você sempre teve dificuldades com gramática, concordância nominal... aquelas aulas do colégio militar não foram suficientes, daí você aproveitou para sanar essa lacuna na sua vida escrevendo sandices... além de te divertir um bocado compartilhar as coisas por aqui.

Sua tia é linda, você é a sobrinha favorita, ela faz a sopinha mais gostosa do mundo e torça muito pra ela não contar sobre os conteúdos impróprios que você publica por aqui para os seus pais.  hehehehe




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