Das três, quase podres, fiz um bolo com mais duas maçãs pela manhã. Mariah não veio.
A última, podre de verdade, parti ao meio. A outra metade guardei na geladeira. Fiquei com um pouco de nojo, percebi que melou a parte acrílica.
No fim da noite, amassei com um pouco de açúcar, coloquei na panela e deixei caramelizar. Lembrei de uma caixinha de leite condensado quase no fim, já duro de tão ressecado. Com um pouco de água e um pouco de leite, "desgrudou". Misturei com a colher e adicionei na panela. Me pareceu um mingau de banana, acho que dá pra chamar de.
Fui conversar.
No meio do papo, percebi que eu sou aquela banana podre.
Em tempos de friozinho e vento, é impossível sair com os meus trapinhos práticos de Manaus, saia-camiseta ou vestido e a mesma sandália de couro antonio-conselheiro-forever.
"Eu espero que no frio tu pare de andar que nem mulambo! Eu não botei filha bonita no mundo pra se esconder e andar que nem mendiga! Meu Deus, pra que isso? Negativo, isso aqui tu não vai levar" (Minha mãe)
É... eu pensando se ia passar fome ou não em Chicago, e Dona Rosa preocupada com a minha finess nos isteites.
Aqui são ciroulas, calça, meia, camiseta, outra, blusa, casacão, tenizão impermeável, e algum pano pra enrolar no pescoço e salvar o nariz. Lá se foram duas horas... cintura? ombro sensualizando? perninha de fora? pescoço aparecendo? esqueça... :/
- Será que esses biólogos ainda levam artistas pra fazer a pintura das florestinhas e bichinhos quando fazem trabalho de campo? tipo os amiguinhos de Humboldt?
- Claro que não! Se for um biólogo hipster, no máximo, leva uma Halma flex.
Muito bem, vamos aprender juntos sobre o que é o Hipster. Segundo uma amiga etnóloga, o hipster é quem "evoluiu" do hippie e está muito satisfeito com a "evolução" hahahahahah. Fazendo uma pesquisa preguiçosa no google, morri de rir das definições que encontrei, mas tô sem saco de escrever de maneira dicionaresca . Em poucas palavras, trata-se de uma maneira de se expressar no mundo através de um saudosismo recorrente, digamos assim. rs Isso inclui aversão à smartphone ou whatsapp.
Os lumberjack ou lumbersexual, segundo fontes seguríssimas, entram nesta categoria.
É um mix de festa junina, lenhador, grunge, hells angels fit, nerso da capitinga gostosão, roupa do vovô, e, white... ao que parece.
Aproveitando a onda, eu tô com uma coleção de vinil linda-maravilhosa neste inverno. Não vou mentir, sempre achei coisa de gente poser old school [hipster]. MAS, como tudo na vida muda, tenho percebido que o vinil permite a gente experimentar a música de uma forma diferente.
Além daquele barulhinho maravilhoso de matinho queimando toda vez que começa alguma musiquinha, os saudosos LP's [long play] nos permitem ouvir um album todinho de modo que mergulhamos na vibe do artista que elaborou uma sequencia especialmente pra gente. E, diferente do meu amado youtube [não dá pra cuspir no prato], você não precisa se preocupar com as propagandas irritantes ou qual a outra música que vai escolher... acabou a ansiedade! Esse é o ponto!
O LP foi feito pra você ouvir inteiro, como uma comidinha que você come inteira, sem guardar pra amanhã. Essa referência foi péssima, pois é ótimo quando sobra pra guardar pra amanhã, obviamente :3
Ainda que seja a empolgação da novidade, sinto que o som do LP preenche a casa de um jeito diferente. É uma mini festinha diária, um evento, quando coloco qualquer album pra ouvir. Tô amando! Além de tudo, ele ainda pede pra trocar de lado... ai, ai, ai, fofura total!
Dia desses estava sentada em um dos vagões da pink line e percebi uma dança, bem ao meu lado.
Me pareceu dois conhecidos que não se viam algum tempo. Um deles sentava ao meu lado e o outro à sua frente, de modo que a conversa que já tinha sido iniciada antes deu chegar, se transformava num espetáculo bem diante da minha localização privilegiada, escolhida sem muito critério.
Sem querer, e depois querendo muito, reparei nos movimentos de braços, pernas e depois do corpo inteiro que ambos realizavam de maneira sincronizada. Enquanto um falava em diversos tons o outro ria, mexia as mãos levantava e baixava o corpo, a cabeça ia junto com a fala e o riso. Eram movimentos que nunca se repetiam.
Estava diante de uma dança!
A dança consistia em linguagem, em comunicação, isso era a base da afinidade musical que a voz de ambos, cheia de alegria e entusiasmo pela performance do outro, tinha. Não parecia amor, paixão ou amizade, é difícil encontrar uma palavra... talvez movimento. Sem muitas regras e com muita fluidez, isso era afinidade.
Afinidade me pareceu bem estar, relaxamento, alegria... quando encontramos nossos afins. Uma maneira de ser, falar, escutar e sentir em silêncio, na medida que se expressa com o corpo e a voz com este outro... quanto mistério!
Era um homem e uma mulher, arrisco que teriam sessenta ou setenta anos. Uma análise apressada poderia indicar que estavam indo em direção ao Cottage Grove. Meu olhar era atento, persistente... porém furtivo, não podia ser descoberta. Meu encantamento poderia parecer rude.
Fiquei hipnotizada por aqueles braços e pernas gigantes que mal cabiam no banquinho da pink line. Continuavam se movimentando freneticamente, ainda que outros corpos passassem no pequeno corredor que os dividia. Ambos estavam próximos às portas, podiam sair a qualquer momento... juntos ou separados: isso não era o mais importante. Fiquei tão absorvida pelo movimento das vozes e corpos alheios que levei um susto quando o ruído congelado, que tem como sina se repetir infinitas vezes naqueles vagões, disse alto e feroz: Damen.
- Vocês já sentiram aquele cheirinho de bolo no caminho da pink line?
- Já, é pra disfarçar o preparo da metanfetamina [C10H15N]. Já viu Breaking Bad?
Jimmy renda-se, ouça alto, essa música é foda.
[Tomzé sendo gênio, em 72 também. rs]
Acordei cedo e esperei o relógio marcar 8:00. Muito bem, na vida real, acordei sabe deus que horas. Comi rápido e saí já meio atrasada, faltavam 8 minutos para o 60 blue island passar. Decidi que não contaria à ninguém que iria ao local do crime, na morada da fumacinha da perdição.
Segundo informações seguríssimas, o [C10H15N] é muito potente e altamente viciante, causa euforia, aumento do estado de alerta, da auto-estima, do apetite sexual e intensificação de emoções. Exatamente a descrição dos efeitos de um brigadeiro no sangue de seres humanos com o paladar altamente apurado.
Tentei fazer todo o trajeto em menos de oito minutos, mas não foi possível. É muito pano pra colocar no corpinho até sair de casa! Aff!!!
A arte da bisbilhotagem é algo que merece respeito. Depois de me cobrir com todos as camadas necessárias pra não morrer, segui em direção à portinha branca. Eu tava pronta pro crime: a cada passo que dava, tinha a convicção que naquela casinha eles compartilhavam do mesmo amor delito que o meu, da mesma contravenção, do mesmo ato delinquente, todas as vezes que passava na frente do alley. Obstinada e cega de certeza, puxei a porta e entrei esbaforida de emoção em conhecer os tais criminosos, meus semelhantes.
- Hola, hay dulces?
- Sí! ¿qué quieres?
- Todos! :D
- wait! I don't have cash! : ~
[...]
- No se preocupe, voy a tomar uno de cada uno para usted.
Os doces criminosos são: Marina, Cocada, Dulce de camote, Alfajor, Dulce de tamarindo:
Vou especificar cada uma deles.
O Dulce de Camote é uma espécie de batata rosada que nunca tinha visto. Você as descasca e coloca para ferver na água com açúcar, canela e outras especiarias, vai depender de quem as faz. Ao morder o Camote, percebi que tem uma casquinha caramelizada que contrasta com o a textura macia da batata cozida. A parte interior é adocicada de forma suave, com muitos ingredientes combinadinhos no cozimento, o aroma é incrível. Elas tem tamanhos assimétricos e o conjunto fica disposto como pedras preciosas nas prateleiras. No momento que as observei, as janelas sujas e mal feitas que as conecta com o alley, deixavam entrar uma luz bem bonita sobre elas, foi lindo de ver.
O Alfajor tem como ingredientes principais açúcar, coco e uma pigmentação forte na cabeleira. Um rebelde! Cria uma atmosfera divertida em torno do docinho sabe? Fiquei imaginando em quais ocasiões eram confeccionados... quantas alegrias teriam ocasionado aos olhos atentos para uma bela surpresa desse rapazinho vestido de branco e cabelos rosados, pronto pra brincar. Certamente é o palhacinho da festa.
A Marina... ai, ai, ai... é próxima do doce-de-leite e dissolve na boca assim que você dá uma mordidinha... aprovada com louvor e direito a grito de torcida alucinada! hahahahaha. Além de deliciosa, ela tem carinha de festa também! Por vir toda marcadinha com um desenho espiralado, imaginei que ela tenha sido uma cobrinha antes de ter uma aparência de biscoito. A amêndoa faz a coroação da nossa rainha. Que belezinha! Nem precisava estar tão elegante assim, é uma vontade de beleza que nem sei explicar. <3
A Cocada tem formato de brigadeiro e é bem mais macia das que estou acostumada a comer, essa foi a favorita da Ana. Por sorte e muita agilidade, consegui tirar um pedaço antes que ela devorasse o docinho inteiro. A cocadinha redonda fica durinha por fora, provavelmente é posta pra assar porque a bundinha dela vem meio escurinha e ela tem uma barriga fofinha de quem cresceu com o calor, e um leve dourado na parte de cima. O miolo é macio e foi uma delícia tentar adivinhar o que tinha ali pra deixa-la do jeito que é.
O Dulce de tamarindo merece um tratado só pra ele! Ele é um camaleão na boca! Vem com uma carinha inocente, embrulhadinho no papel celofane e disposto numa colher, como se fosse uma lembrancinha de aniversário de criança. No entanto, suspeitei que tinha acidez e açúcar envolvido desde o princípio. Sua apresentação pessoal me lembrou muito o doce de cupuaçu. Peguei uma faca e tentei arrancar um pedaço pra provar. Eis o relato: Doce, ácido, tamarindo, azedo, ácido, azedo, lágrima nos olhos, vou morrer, adocicou, ardeu, ARDEU, adocicou de novo. fim! Que montanha russa! hahaahahah
Um pregador de peças, esse é o Dulce de Tamarindo. Certeza que minha mãe vai amar!
Segue o elenco quiebra-ley:
Dulce de Camote
Alfajor
Marina
Cocada
Dulce de tamarindo
O café da minha avó Ana, era um dos mais doces do mundo, se alguém a questionasse, ela dizia alto e em bom tom: "de amargo já basta a vida". Eu nunca gostei de café, mas nunca esqueci essas palavras dela. De alguma maneira, ela dizia que o doce é um agradinho na alma, vai bem mais fundo que uma simples prazer nas papilas gustativas.
Em que planeta vivemos, no qual um punhado de cretinos faz com que essas pessoas amáveis, gentis, generosas, com um conhecimento sofisticadíssimo sobre doces, numa relação primorosa com os ingredientes, sejam tratados literalmente como criminosos? Faz parte do plano de manter essa farsa de fronteira e nação?
Não há teoria economicista neo caralho a quatro que fundamente isso! É tão revoltante, baixo, inescrupuloso, inaceitável, injustificável, odioso, asqueroso.
Um aviso aos white collar: água, coco, tamarindo, açúcar, manteiga, galinha, canela, ovos, vaca, leite, batata, macaxeira, babaçu, castanha, açaí, bacaba, buriti, tambaqui, matrinxã, cará roxo, tucupi, camarão, costelinha... isso não vem em saco de cimento, não dá em prédio de concreto, nem em gasoduto, nem hidrelétrica! seus pulhas!
Mastiguem pedra, comam carvão, barro!
É isso que está reservado à vocês seus merdas!
Protesto na State Street, Chicago, 12 de novembro de 2016.
Motivo do protesto: "A construção deste oleoduto de 1.600 km e que atravessa quatro estados está a cargo de uma companhia texana e pretende transportar o petróleo até Illinois, destruindo os mananciais de água de muitas reservas de nativos americanos, além de destruir zonas consideradas sagradas há gerações".