quarta-feira, 18 de maio de 2016
domingo, 15 de maio de 2016
Colégio Militar de Manaus
Nesta semana que passou, fui ao Colégio Militar de Manaus com um amigo. Não teve nenhum motivo especial, estávamos passando por ali perto e gostaríamos de visitar a instituição onde passamos parte da adolescência. O CMM ainda mantém dois soldados munidos de fuzis na entrada principal do prédio e um deles me advertiu que eu não poderia entrar porque estava de sandália.
Na década de 90, entrávamos no colégio de segunda a sexta as 06:30 da manhã prestando continência aos dois oficiais na entrada principal. Na noite anterior ao colégio, tínhamos que passar nossas roupas, engraxar o sapato diariamente e polir a fivela do cinco com brasso, essa era minha parte favorita. O cabelo tinha de estar impecável: lê-se preso, repuxado inteiro para trás, ou feito coque. Brincos pequenos, unhas em esmalte com cores claras [salvo exceções da musa e professora de português/literatura ex-tenente Nicia] e cabelos sem cores "extravagantes" [rosa ou azul, nem pensar].
Ainda na primeira meia hora do dia [06:30-7:00], cantávamos o hino nacional, o hino do colégio, ouvíamos a coronel aluna mais linda da face da terra ~ Luciana Leite ~ proferir algumas palavrinhas, na sequência o tenente Fernando (?) dizia alguns informes da escola ou algumas críticas ao comportamento daqueles jovens cheios de hormônio e adrenalina transgressora.
entendedores entenderão (Duchamp vive)
Voltando ao episódio de 2016:
- Isto não é sandália, é um calçado confeccionado artesanalmente com couro, adaptado ao clima da região. Com toda a gabolice que me restava, arrematei que era ex-aluna e que portanto, tinha todo direito de entrar com as unhas de fora. Essa parte do "tenho todo direito" eu só pensei, não disse. rs
Apesar de estar falando muito sério diante daquele absurdo (unhas de fora), ele sorriu e nos encaminhou para a tenente Bárbara.
Eu, ainda que quisesse entrar no prédio, bufei de ódio e caminhei para falar com a tal superior, hierarquia é um ponto forte naquele recinto. Decidi seguir a estratégia de falar pouco, baixo e sorrir. Deixei o ex-major aluno conduzir a conversa preliminar enquanto me recuperava da raiva.
Desta maneira, munidos de sorrisos, "nos deixe entrar por favor" e outras narrativas de cunho emocional, a dupla de ex alunos conseguiu entrar satisfeita na Instituição. Dica de ouro: jamais subestimem a linguagem e as emoções (LUTZ; ABU-LUGHOD, 1990).
- Vocês só podem observar o pátio principal;
- Tudo bem, muito obrigada tenente.
Esta visita despretensiosa, me fez refletir sobre o que ainda existia de Colégio Militar em mim e o que ele significava na minha breve "trajetória" de vida. O primeiro aspecto que me fazia odiar tudo que aquilo representava, era a disciplina. Essa palavrinha, em linhas gerais, designa "obediência aos preceitos e as regras, boa conduta, respeito a um regulamento, boa ordem"... e só aí, já tenho motivos de sobra para reduzi-la a pó.
A "disciplina" munida de ordem, dentro de uma hierarquia rígida , não nos permite pensar sobre o que estamos fazendo, facilmente nos conduz a alienação... e com essa pequena chave, nos faz cometer as maiores atrocidades já vistas pela humanidade, sem exageros.
A tal da "disciplina", na minha cabeça, sempre esteve associada a instituições como escola, exército, igreja, hospícios, prisões, campos de concentração, morte, alienação... convenhamos, não é pouca coisa.
Acontece que tem algumas semanas, na esperança de mudar alguns hábitos de preguiça absoluta, que tenho pensado no seguinte:
~ um pouco de disciplina não faz mal a ninguém ~
(...)
Após inúmeras reflexões e do bicho papão da alienação, passei a observar os significados da palavra "disciplina" não mais como um fim em si mesmo, mas como instrumento de trabalho, um modo de agir que demonstra constância, método.
Passei a observar mais o cotidiano dos outros, o meu e colhi alguns depoimentos interessantes:
- Filha, havia um costume do seu avô Constantino, do meu avô João Luis, que eu demorei pra entender... ele queria que fizéssemos as refeições sempre juntos e no mesmo horário. Essa premissa significava não só uma intensão em fortalecer os laços de carinho e afeto entre os irmãos e os pais, mas numa gestão dos recursos da casa e da distribuição eficaz dos alimentos. Você imagina se todos fossemos esquentar (ou preparar) a comida em horários diferentes? aquele fogo que era pra durar um mês, não duraria nem uma semana. E como tua avó saberia se todos comeriam o suficiente?
Pois bem, iniciando o meu projeto de "atleta de fim de semana" com meu primo Ítalo na Vila Olímpica, observei dois amigos ensaiando uma coreografia do Boi Caprichoso... imaginei quantos ensaios eram necessários para que ambos dominassem a performance. Pra mim estava ótimo, mas para os dois, certeza absoluta que o treino era fundamental para melhorar a cada dia.
Decidi aprender a tocar um instrumento musical [depois escrevo mais sobre isso] e adianto: meus dedos estão em carne viva, não consigo nem lavar o cabelo direito :~
Os colégios militares foram criados a partir de 06 de maio de 1889, por decreto imperial, para abrigar os órfãos da guerra [inescrupulosa] do Paraguai. Há treze colégios espalhados em todo Brasil: Manaus, Belém, Fortaleza, Campo Grande, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Juiz de Fora, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Santa Maria e Rio de Janeiro.
Considerando que todxs nesse país, com rarí$$imas exceções, foram "educados" ou pelo exército ou pela igreja, não podemos considerar que nosso futuro estará determinado pelo nosso passado ad infinitum. O Colégio Militar de Porto Alegre, conhecido como o Colégio dos Presidentes, leva consigo o peso do nosso passado sangrento fundamentado na ordem e no progresso: Getúlio Vargas; Eurico Gaspar; Humberto de Alencar Castelo Branco; Artur da Costa e Silva; Emílio Garrastazu Médici; Ernensto Geisel; João Baptista de Oliveira Figueiredo.
Um fato interessante, que gostariam de ter subtraído da história desse país [1996], é que Carlos Lamarca foi ex-aluno do CMPA:
"O comandante do Colégio Militar de Porto Alegre, coronel José Eurico de Andrade Neves Pinto [impune até hoje], ordenou a eliminação dos registros da passagem de Carlos Lamarca pela escola, na década de 50. O nome de Lamarca foi tapado na placa da turma de formandos de 1957, exposta no colégio. Foi aplicada uma plaqueta de metal sobre o nome dele [hahahahahahaha, chega a ser ridículo]. As fichas do ex-aluno, que estudou no colégio de 1955 a 1957, foram queimadas."
Carlos Lamarca (1937-1971)
Engraçado que Lamarca tem aparecido na minha vida de maneiras interessantes... fica para um outro texto já escrito e não publicado neste blog. Ainda não conheço o Colégio Militar de Porto Alegre, mas pelas buscas que fiz, Marte e Minerva são xs deusxs que ornam a entrada principal do prédio, sem contar a arquitetura panóptica [Bentham, 1785] que parece tomar de conta, é uma hipótese.
Aprendizado [simples e sincero] da geração legião urbana. Independente de onde ela [disciplina] esteja , não é nem nunca será prerrogativa das instituições: disciplina é liberdade.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
The Hateful Eight, Beyoncé e abobrinhas
Este texto surge a partir de uma experiencia em uma sala de cinema nos arredores de Manaus, melhor, naquele shopping que insiste em não cair. As terças feiras promete não cobrar estacionamento de seus frequentadores e se auto intitula de "revolucionário". Pois bem, aprendemos que as facetas do capitalismo não tem limites...
Infelizmente, por motivo de felicidade, não tenho mais "carteirinha de estudante" e fui surpreendida com a "tabela cheia" dos placares das salas cinema. Nem adianta ir com a sua bolsinha de pano (encardida) que ganhou no congresso pra barganhar o menor preço, respire fundo e lembre-se da experiência que é lidar com bastante sangue, trilha sonora linda e historinhas criativas de um cara legal como o Tarantino: feche os olhos e pague.
Assisti, tem uns 40 minutos mais ou menos, "os oito odiados".
Neste texto que escrevo, há um manto invisível que me protege: o do amadorismo. Há também, uma certa ideia do livro de Michael Baxandall, que tive a oportunidade de ler/conhecer, conversar com outros colegas e considerar os vários questionamentos que vieram com o mesmo. Sem suspense! o livro era "padrões de intensão: a explicação histórica dos quadros".
Citando arbitrariamente o autor, ele explica que:
"Toda inferência crítica sobre a intensão (artística) é não só convencional em vários sentidos, mas também precária" (p. 194)
E agora, a parte que mais interessa:
"Novas atividades como a crítica de arte, que apenas recentemente se tornou uma profissão e foi reconhecida como uma disciplina acadêmica, tendem a se conceder muito depressa uma autoridade especial. " (p. 196)
Paulo Nazareth (suspiros para este Homem)
Esse é o combinado: não tenho a menor intensão de discutir a "genialidade" do autor ou a obsessiva corrida atrás de uma originalidade cinematográfica, tal como cachorros que esperam a todo instante uma ração especial a cada estréia, com todo o respeito aos reservoir dogs, obviamente.
O foco é no que esse filme pode nos trazer pra ficarmos cada vez mais exibidinhos <3
*
Nesse domingo, as margens do Igarapé do 40, fui ao aniversário de uma amiga, e ainda que eu estivesse até o tucupi de álcool, pude ouvir ao longe: "eu acho que Foucault despolitiza o movimento social". Logo após ouvir essa frase de gente exibida, a música da festa se sobrepôs ao diálogo e eu me perdi no que estava ouvindo, foquei na melodia do meu contrário:
Nesse domingo, as margens do Igarapé do 40, fui ao aniversário de uma amiga, e ainda que eu estivesse até o tucupi de álcool, pude ouvir ao longe: "eu acho que Foucault despolitiza o movimento social". Logo após ouvir essa frase de gente exibida, a música da festa se sobrepôs ao diálogo e eu me perdi no que estava ouvindo, foquei na melodia do meu contrário:
Jorge Aragão, Parintins para o mundo ver
Numa questão de segundos, estava na ilha. Lembrei do quanto foi difícil esconder a emoção que senti quando vi a Baixa do São José, devidamente encarnada, rasgar o bumbódromo acompanhada daquela batucada alucinada. Minha "identidade" azul e branca foi instantaneamente questionada. Prometi a mim mesma, em silêncio, que caso descobrisse que era garantido, viveria aquela farsa enquanto eu vivesse. Esperei, com o coração na mão, o meu boi preto entrar sem saber ao certo o que ia acontecer.
A entrada do meu boizinho me salvou, a marujada entorpeceu... e ali, no meio daquele multidão azulada, eu tive a certeza que era Caprichoso, ainda que abaladíssima pela baixa vermelha.
Voltando da minha reflexão solitária enquanto ilhéu, aterrissei às margens do 40 com o Foucault martelando a minha cabeça: pra que serve uma identidade?
*
Em The hateful eight, identifiquei algumas "categorias" aparentemente bem marcadas: mexicano, mulher, estrangeiros, negro, xerife e oficial do exército branco/hetero/cis, que vão nos ajudar a pensar em algumas bobagens divertidas.
Ninguém gosta mais desse boi do que eu, Carlos Paulain
A entrada do meu boizinho me salvou, a marujada entorpeceu... e ali, no meio daquele multidão azulada, eu tive a certeza que era Caprichoso, ainda que abaladíssima pela baixa vermelha.
Voltando da minha reflexão solitária enquanto ilhéu, aterrissei às margens do 40 com o Foucault martelando a minha cabeça: pra que serve uma identidade?
*
Em The hateful eight, identifiquei algumas "categorias" aparentemente bem marcadas: mexicano, mulher, estrangeiros, negro, xerife e oficial do exército branco/hetero/cis, que vão nos ajudar a pensar em algumas bobagens divertidas.
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| abobrinhas |
Esse texto demorou para ser publicado por ter seu parágrafo final abalado pelas torres de marfim dessa cidade. Ele já estava todo estruturado no meu miolo, idolatrando a personagem que mais apanhou [na cara] o filme inteiro ~Daisy Domergue ~
Seus dentes foram devidamente quebrados
ao longo do filme, nada de novo sob o sol #vaiterfeminismosim
Aparentemente, não se pode compreender nada, inclusive um filme, de forma absoluta, vamos lidar com as diversas interpretações enquanto camadas de entendimento.
O scholar sentenciou:
Tarantino me decepcionou, vocês viram os oito odiados? "os bandidos", não sei se vocês notaram, eram todos estrangeiros: mexicanos, franceses (...) nos Estados Unidos da América! E o final? bom, não podia ser pior, o xerife (o Estado/a lei) junto com Samuel Jackson [essa foi de doer] o negro do filme, JUNTOS enforcaram a estrangeira. Acho que Tarantino voltou atrás depois que explodiu a casa grande no último filme [Django] rs.
*
Ao meu amigo Tarantino, um versinho singelo:
Querido
não desisti de você
veja o exemplo da diva Beyoncé
~Courage~
Não fique na depré[once]
HAHAHAHAHA :P
fim
"Ela abraça seu cabelo crespo, sua negritude e sua essência feminina, falando sobre sexualidade, racismo e a opressão social que os africanos e seus descendentes sofriam e ainda sofrem todos os dias. Beyoncé canta sobre um Estados Unidos que nesse aspecto se parece muito com o Brasil e assim como cantou Elza Soares, a americana joga na cara da sociedade que, no fim das contas, 'a carne mais barata do mercado é a negra'. Por isso, a representação visual das canções fazem tanta alusão aos séculos passados: anos após diversas conquistas sociais, como o fim da escravidão e a segregação racial, os negros ainda sofrem. Tomavam limonada na esperança de ficarem mais brancos e hoje, séculos depois, ainda tomam tiros por simplesmente serem negros". ver em: http://www.mazeblog.com.br/resenha-beyonce-lemonade/
Beyoncé, Formation
Ciúme, o estrume do amor
Mulher indigesta, 1932.
Não aprendi nada com aquela sentimental canção
Nada pra alertar meu coração
Mulher indigesta você só merece mesmo o céu
Como está no samba de Noel
Você produz raiva, confusão, tristeza e dor
Prova que o ciúme é só o estrume do amor
Vá numa sessão de descarrego ou no médico
Meu amor, tem preço módico
Nãoo tem um tijolo nem um paralelepípedo
Só resta o funk melódico
Num abraço, abraçaço, essa letra te juro
Esse papo de céu foi só pelo Noel
Nem com cheiro de flor bateria em você
Não sou bravo nem forte e nem mesmo do norte
Sem canto de morte no meu HD
O paralelepípedo é o jeito diverso
Que quer dizer raiva e mais raiva e mais raiva
Raiva e desprezo e terror, desamor
O tijolo é gritar você me exasperou
Que você me exasperou
Você me exasperou
Você me exasperou
Você me exasperou
*
Mulher indigesta você só merece mesmo o céu
Como está no samba de Noel
Você produz raiva, confusão, tristeza e dor
Prova que o ciúme é só o estrume do amor
Vá numa sessão de descarrego ou no médico
Meu amor, tem preço módico
Nãoo tem um tijolo nem um paralelepípedo
Só resta o funk melódico
Num abraço, abraçaço, essa letra te juro
Esse papo de céu foi só pelo Noel
Nem com cheiro de flor bateria em você
Não sou bravo nem forte e nem mesmo do norte
Sem canto de morte no meu HD
O paralelepípedo é o jeito diverso
Que quer dizer raiva e mais raiva e mais raiva
Raiva e desprezo e terror, desamor
O tijolo é gritar você me exasperou
Que você me exasperou
Você me exasperou
Você me exasperou
Você me exasperou
*
Mas que mulher indigesta! (Indigesta)
Merece tijolo na testa
Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar
E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Essa mulher é ladina
Toma dinheiro é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista.
*
Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz
Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor.
terça-feira, 19 de abril de 2016
Tô
Tô
Tô bem de baixo, pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder faltar
Devagarinho pra poder caber
Bem de leve pra não perdoar
Tô estudando pra saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar
Eu tô te explicando pra te confundir,
Eu tô te confundindo pra te esclarecer,
Tô iluminado pra poder cegar,
Tô ficando cego pra poder guiar.
Suavemente pra poder rasgar
Com o olho fechado pra te ver melhor
Com alegria pra poder chorar
Desesperado pra ter paciência
Carinhoso pra poder ferir
Lentamente pra não atrasar
Atrás da vida pra poder morrer
Eu to me despedindo pra poder voltar
Eu tô te explicando pra te confundir,
Eu tô te confundindo pra te esclarecer,
Tô iluminado pra poder cegar,
Tô ficando cego pra poder guiar.
(Tom Zé)
sábado, 16 de abril de 2016
O gênio da multidão
?
Existe suficiente falsidade e absurda violência odiosa no ser humano mediano
para abastecer qualquer exército de qualquer época
e os melhores no assassinato são aqueles que se declaram contra ele
e os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor
e os melhores na guerra, por fim, são aqueles que pregam a paz
aqueles que pregam Deus precisam de Deus
aqueles que pregam a paz não tem paz
aqueles que pregam o amor não tem amor
cuidado com os pregadores
cuidado com os sabe-tudo
cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidados com aqueles que detestam a pobreza
ou os que têm orgulho dela
cuidado com aqueles que rapidamente elogiam
porque eles precisam de elogios em troca
cuidado com aqueles que rapidamente censuram
porque tem medo daquilo que não conhecem
cuidado com aqueles que sempre procuram multidões porque
não são nada sozinhos
cuidado com o homem mediano, com a mulher mediana
cuidado com seu amor, seu amor é mediano
busca o mediano
mas existe talento em seu ódio
existe talento suficiente em seu ódio para matar você
para matar qualquer um
não querendo a solidão
não entendendo a solidão
eles vão tentar destruir qualquer coisa
que seja diferente deles
não sendo capazes de criar arte
eles não entenderão a arte
eles tomarão seu próprio fracasso em serem criativos
simplesmente como uma falha do mundo
não sendo capazes de amar completamente
eles verão o seu amor como incompleto
e então eles irão lhe odiar
e o ódio deles será perfeito
como um diamante brilhoso
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta
sua arte mais refinada.
(Hank Bukowski)
Bukowski, born into this
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Sobre etnocentrismo e outras descobertas
Este texto, diz respeito a descobertas interessantes ao longo da vida de uma menina.
Episódio I: tipos humanos
Episódio I: tipos humanos
No auge de minha sétima série, surgiu no colégio uma menina que se chamava Silvya Cristina. Era seu "nome de guerra". Silvynha era uma menina comum, sob o meu olhar imaturo, até o momento em que a professora de português, Josana, nos questionou sobre nossas férias. De um por um, íamos dizendo o que tínhamos feito sob o olhar atento da professora e dos demais colegas.
- Joguei video game;
- Aprendi a fazer bolo;
- Fui à casa da minha avó;
- Brinquei na rua com meus amigos;
- Andei no Iate da minha família e depois brinquei um pouco de jet ski no rio Negro (CRISTINA, Silvya).
Neste exato momento, Silvya Cristina, filha do coronel, indicava algo de diferente em relação aos demais que a ouviam com atenção e interesse. Haviam duas palavras que não sairiam de nossas cabeças: iate e jet ski.
Aposto que NINGUÉM sabia quanto custava um desses dois itens, mas todos tinham certeza de algo: era coisa de "gente rica". Houve um silêncio naquele momento e todos passaram a cochichar que aquilo era um comportamento de gente exibida, que ela era fresca, patricinha e que não víamos a hora dela nos convidar pra andar naquele "barco lindo", bem diferente dos recreios da cidade de Manaus, considerados inseguros, sujos, inóspitos.
Silvya Cristina virou sinônimo de distinção.
Para o azar dos invejosos, Silvya Cristina pouco se importava com a opinião alheia e saia desfilando com todo seu charme naquela instituição careta do exército. Quando estávamos para terminar o segundo ano do segundo grau, anunciou que estudaria em uma escola norte americana, que sentiria muitas saudades de todos nós, mas que mandaria cartas e nos contaria todas as novidades.
A primeira foto que nos enviou, estava numa quadra de esportes, uniformizada, entre os adolescentes brancos, louros e altos que se tornaram seus colegas durante um ano. Ao voltar, nos explicou que lá as garotas não se importavam com roupas caras ou com o formato do corpo ou o com o cabelo "arrumado" (lê-se: liso), tal como no Brasil, segundo ela, o mais importante era a pele, a maquiagem... e que portanto, gastou todo o dinheiro que seu pai a enviava com produtos da marca Maybelline. O ritual era acordar bem cedo, se maquiar e correr para sala de aula, ela explicou que sofreu um pouco de preconceito até entender que era assim.
*
Com o relato sobre a amazonense "exibida" da década de 90, Silvya Cristina, percebemos, pela primeira vez, a distinção clara entre ricos e pobres, enquanto uma classificação de tipos humanos. Nas aulas de sociologia ministradas pelo Tenente Batatinha com o livro da cor verde oliva fornecido pelo próprio exército, nunca tínhamos ouvido falar de Karl Marx ou sobre "lutas de classe", desta maneira, aquele episódio classificatório não significou nada pra mim. Não sabia justificar exatamente porque, mas tinha a certeza absoluta que era rica e lidava com muita naturalidade sobre esse sentimento.
Episódio II - A baronesa da "ralé"
Durante toda minha infância e adolescência, percebia que desfrutava de um tipo de lazer que outras crianças não desfrutavam (ou achava que não). Diversas vezes, pegávamos a kombi de algum tio e íamos ao sítio do Geraldo, amigo do papai na estrada Manaus-Itacoatiara. Passávamos o final de semana nadando naquele igarapé geladinho, pegando fruta com os primos, dormindo a noite toda na rede e ouvindo histórias engraçadas do tio Benoni.
Um outro fator importante de distinção foram as viagens de avião. Poucas crianças haviam viajado de avião, eu tinha tido essa experiência por duas vezes: a primeira para Porto Velho, a segunda para Fortaleza. Isso era motivo de sobra para me achar riquíssima diante dos demais coleguinhas.
Algo que merece destaque, foram as festas de aniversário com muito docinho, bolo confeitado e a boneca Barbie. Pouquíssimas meninas tinham tão luxuoso brinquedo.
Dentre os outros distintivos, cito que do pré-escolar à quinta série, eu detinha os melhores lápis-de-cores da única escola particular do bairro e minha melhor amiga era filha do padeiro de um estabelecimento famoso da cidade, no bairro da compensa: a Wanúcia.
Eu nunca ouvi falar que tive alguma dificuldade na vida.
Sem contar que, durante anos, eu ouvia que a minha família era a mais honrada e a mais bonita das redondezas. Que no alto Juruá, onde meus avós moravam, só existia fartura: muita melancia, abacaxi, farinha, ovo de tracajá batido, chocolate feito de cacau, peixe, carne de caça e várias delícias que minha mãe contava, de dar água na boca só de lembrar! O mais divertido era ouvir as brigas entre minha mãe e tio Nonato, onde ela sempre o derrubava da canoa, ou a tia Rama que rasgou dinheiro quando foi comprar algo na taberna.
Que o meu tio Mário, ex-integrante da banda curto-circuito, era o melhor músico da cidade, pois ninguém tocava violão igual a ele ou tinha o melhor repertório, recheado de Chico da Silva, Zé ramalho e Fagner. Passava as tardes nos ensinando a tocar flauta, piano e violão, infelizmente sem sucesso nenhum na empreitada.
Que meu avó Arlindo era um herói, pois com muito trabalho e determinação, trouxe os filhos para estudar na cidade, que minha avó Ana era muito bonita, forte e generosa, que todos no bairro a amavam por nunca negar comida à ninguém. Que meu pai era o homem mais inteligente e amoroso daquelas bandas e o melhor: minha mãe era a mulher mais sábia e linda do mundo.
Sem exageros, a primeira vez que vi um concurso de miss Brasil, questionei ao meu principal interlocutor, meu pai, da seguinte maneira: Como pode existir esse concurso se a mamãe era a mulher mais bonita?
E assim vivi durante anos, naquela mini bolha de amor, beleza e prosperidade infinita.
Episódio III - Quando descobri que era "pobre"
O bairro onde meus pais moram, conhecido popularmente como "cidade das palhas", cresceu a partir da década de sessenta, época esta quando eles se mudaram para lá. Durante muitos anos, através da rádio local do Sr. Aquino, mais conhecido como "Carrapeta", foi considerado como o território mais violento e sanguinário da cidade, o que gerou uma memória social que perdura até os dias atuais.
No ensino médio, convidei uma amiga para estudar na minha casa, mas ela, com toda a delicadeza do mundo, disse que só iria se fosse escondido... seu pai havia advertido que aquele bairro era muito perigoso e que não queria que ela andasse por ali.
Naquele momento percebi que a questão territorial, ou o seu local de nascimento/moradia, determinava o estigma da pobreza, ainda que eu nunca houvesse pensado sobre o assunto.
Um outro fator importante para consolidar essa "dúvida de classe", foi ouvir de uma amiga, filha de um sério intelectual da cidade, que ela era uma pessoa simples, legal e socialista, pois estabelecia amizade com pessoas pobres como eu, fulana e sicrana. Ouvi com curiosidade, atenção e continuei tentando entender o que me deixava naquela condição. Seria "estilo de vida"? Conta bancária dos pais ou sua? Quem tá classificando todo mundo? O que determina?
Percebi também, que um outro fator que determina a distinção de alguém de maneira instantânea (e não construída), é o tão "culto" seus pais são, não necessariamente você ou as experiências pessoais de cada indivíduo.
Para você que está desesperado em não ser classificado de "pobre", não se iluda, esta classificação não é pautada apenas no quanto você acumulou no banco. Ajuda muito se você mudar de bairro.
Episódio IV - O poder de classificar
O poder de classificar os outros em categorias limitadoras (ex: maconheiro, marginal, galeroso, pobre, puta, burro), aconteceu comigo durante meu último (e brevíssimo) trabalho de campo, em uma comunidade quilombola, eminentemente rural, às margens do rio Andirá/AM.
A anfitriã, gentilmente, me questionou se estava tudo bem com a minha hospedagem, se faltava algo, se a cama estava confortável, se a comida era suficiente, se eu estava bem acomodada de uma maneira geral. Eu, com a delicadeza de um bode, disse com toda displicência do planeta: "não se preocupe comigo querida, estou acostumada". Ao proferir essas palavras, fiquei horrorizada comigo mesma e do que estava falando. Pensei em um tom alto e feroz:
- ACOSTUMADA COM O QUE?
- O QUE EU QUIS DIZER COM ISSO?
Sorri amarelo e me calei.
Procurei dentro do meu íntimo e utilizando toda a reflexividade que me restava naquele momento, descobri com a frieza cirúrgica o que tinha feito.
Episódio V - Quando descobri que Manaus era uma cidade inóspita*
* más condições para sobreviver (...)
No ano passado, 2015, tive a feliz oportunidade de participar do casamento de uma amiga, a Lívia. Eu não a encontrava fazia mais ou menos dez anos. Ela morou em Manaus no período que seu pai havia sido transferido pra cá, e estudamos o ensino médio juntas. Isso era bastante comum naquele colégio de boinas vermelhas. Depois de alguns anos, seu pai foi transferido novamente para sua cidade de origem, mais precisamente para o sudeste do país. Desde então, passamos a conversar por cartas, e-mails, depois o moderno msn.
Durante a festa do seu casamento, vários amigos daquela época estavam presentes e passaram a lembrar de como foram suas vidas em Manaus na década de 90:
- Nossa, eu lembro que não tinha nada pra fazer naquela cidade, meus pais viviam entediados;
- O pior era não ter água potável, minha mãe morria de medo que pegássemos alguma doença. Tinha sempre aquelas garrafas da "santa cláudia" espalhadas pela casa;
- Tinha tanto mosquito que eu nem conseguia respirar;
- Nossa, Manaus era muito suja. E o calor? insuportável! Mudou alguma coisa?
- Índio eu nunca vi na época que tava lá, mas eles ainda existem?
- Eu nunca vi tanta gente feia na minha vida, desculpa amiga, mas é verdade;
- Mas a nossa turma era muito legal, saudades amiga <3
- Mas e vc? virou antropóloga né? o que faz mesmo?
- Critico todo mundo de uma maneira elegante, ainda é difícil pra mim, mas tô estudando.
Todos riram.
(...)
Após os relatos, fiquei pensando que eu também estava em Manaus na década de 90, junto com eles. Por que não fazia a mesma leitura sobre a cidade? O que havia acontecido comigo pra não ter percebido essa calamidade pública sob o meu nariz? Que óculos eles usaram? Quais eu usei?
*
Durante o tempo que eu passei sem escrever nesse blog, vez ou outra me pegava refletindo sobre minha postura agressiva, muitas vezes prepotente e arrogante de uma "nativa" abusada e exibida. Esclareço que o etnocentrismo toma conta dessa escrita, com a certeza de que o lugar onde se nasce não oferece autoridade plena para falar sobre ele.
Considerando que há pessoas extremamente comprometidas e críticas no que diz respeito as classificações sobre a Amazônia (e outros "lugares inóspitos") e as pessoas que vivem aqui é que:
- Natasha, só por hoje, não será xenofóbica e preconceituosa, pois entende que este poder, ou melhor, esse raio classificador, pode estar nas mãos de qualquer um, inclusive nas suas.
- Joguei video game;
- Aprendi a fazer bolo;
- Fui à casa da minha avó;
- Brinquei na rua com meus amigos;
- Andei no Iate da minha família e depois brinquei um pouco de jet ski no rio Negro (CRISTINA, Silvya).
Neste exato momento, Silvya Cristina, filha do coronel, indicava algo de diferente em relação aos demais que a ouviam com atenção e interesse. Haviam duas palavras que não sairiam de nossas cabeças: iate e jet ski.
Aposto que NINGUÉM sabia quanto custava um desses dois itens, mas todos tinham certeza de algo: era coisa de "gente rica". Houve um silêncio naquele momento e todos passaram a cochichar que aquilo era um comportamento de gente exibida, que ela era fresca, patricinha e que não víamos a hora dela nos convidar pra andar naquele "barco lindo", bem diferente dos recreios da cidade de Manaus, considerados inseguros, sujos, inóspitos.
Silvya Cristina virou sinônimo de distinção.
Para o azar dos invejosos, Silvya Cristina pouco se importava com a opinião alheia e saia desfilando com todo seu charme naquela instituição careta do exército. Quando estávamos para terminar o segundo ano do segundo grau, anunciou que estudaria em uma escola norte americana, que sentiria muitas saudades de todos nós, mas que mandaria cartas e nos contaria todas as novidades.
A primeira foto que nos enviou, estava numa quadra de esportes, uniformizada, entre os adolescentes brancos, louros e altos que se tornaram seus colegas durante um ano. Ao voltar, nos explicou que lá as garotas não se importavam com roupas caras ou com o formato do corpo ou o com o cabelo "arrumado" (lê-se: liso), tal como no Brasil, segundo ela, o mais importante era a pele, a maquiagem... e que portanto, gastou todo o dinheiro que seu pai a enviava com produtos da marca Maybelline. O ritual era acordar bem cedo, se maquiar e correr para sala de aula, ela explicou que sofreu um pouco de preconceito até entender que era assim.
*
Com o relato sobre a amazonense "exibida" da década de 90, Silvya Cristina, percebemos, pela primeira vez, a distinção clara entre ricos e pobres, enquanto uma classificação de tipos humanos. Nas aulas de sociologia ministradas pelo Tenente Batatinha com o livro da cor verde oliva fornecido pelo próprio exército, nunca tínhamos ouvido falar de Karl Marx ou sobre "lutas de classe", desta maneira, aquele episódio classificatório não significou nada pra mim. Não sabia justificar exatamente porque, mas tinha a certeza absoluta que era rica e lidava com muita naturalidade sobre esse sentimento.
Episódio II - A baronesa da "ralé"
Durante toda minha infância e adolescência, percebia que desfrutava de um tipo de lazer que outras crianças não desfrutavam (ou achava que não). Diversas vezes, pegávamos a kombi de algum tio e íamos ao sítio do Geraldo, amigo do papai na estrada Manaus-Itacoatiara. Passávamos o final de semana nadando naquele igarapé geladinho, pegando fruta com os primos, dormindo a noite toda na rede e ouvindo histórias engraçadas do tio Benoni.
Um outro fator importante de distinção foram as viagens de avião. Poucas crianças haviam viajado de avião, eu tinha tido essa experiência por duas vezes: a primeira para Porto Velho, a segunda para Fortaleza. Isso era motivo de sobra para me achar riquíssima diante dos demais coleguinhas.
Algo que merece destaque, foram as festas de aniversário com muito docinho, bolo confeitado e a boneca Barbie. Pouquíssimas meninas tinham tão luxuoso brinquedo.
Dentre os outros distintivos, cito que do pré-escolar à quinta série, eu detinha os melhores lápis-de-cores da única escola particular do bairro e minha melhor amiga era filha do padeiro de um estabelecimento famoso da cidade, no bairro da compensa: a Wanúcia.
Eu nunca ouvi falar que tive alguma dificuldade na vida.
Sem contar que, durante anos, eu ouvia que a minha família era a mais honrada e a mais bonita das redondezas. Que no alto Juruá, onde meus avós moravam, só existia fartura: muita melancia, abacaxi, farinha, ovo de tracajá batido, chocolate feito de cacau, peixe, carne de caça e várias delícias que minha mãe contava, de dar água na boca só de lembrar! O mais divertido era ouvir as brigas entre minha mãe e tio Nonato, onde ela sempre o derrubava da canoa, ou a tia Rama que rasgou dinheiro quando foi comprar algo na taberna.
Que o meu tio Mário, ex-integrante da banda curto-circuito, era o melhor músico da cidade, pois ninguém tocava violão igual a ele ou tinha o melhor repertório, recheado de Chico da Silva, Zé ramalho e Fagner. Passava as tardes nos ensinando a tocar flauta, piano e violão, infelizmente sem sucesso nenhum na empreitada.
Que meu avó Arlindo era um herói, pois com muito trabalho e determinação, trouxe os filhos para estudar na cidade, que minha avó Ana era muito bonita, forte e generosa, que todos no bairro a amavam por nunca negar comida à ninguém. Que meu pai era o homem mais inteligente e amoroso daquelas bandas e o melhor: minha mãe era a mulher mais sábia e linda do mundo.
Sem exageros, a primeira vez que vi um concurso de miss Brasil, questionei ao meu principal interlocutor, meu pai, da seguinte maneira: Como pode existir esse concurso se a mamãe era a mulher mais bonita?
E assim vivi durante anos, naquela mini bolha de amor, beleza e prosperidade infinita.
Episódio III - Quando descobri que era "pobre"
O bairro onde meus pais moram, conhecido popularmente como "cidade das palhas", cresceu a partir da década de sessenta, época esta quando eles se mudaram para lá. Durante muitos anos, através da rádio local do Sr. Aquino, mais conhecido como "Carrapeta", foi considerado como o território mais violento e sanguinário da cidade, o que gerou uma memória social que perdura até os dias atuais.
No ensino médio, convidei uma amiga para estudar na minha casa, mas ela, com toda a delicadeza do mundo, disse que só iria se fosse escondido... seu pai havia advertido que aquele bairro era muito perigoso e que não queria que ela andasse por ali.
Naquele momento percebi que a questão territorial, ou o seu local de nascimento/moradia, determinava o estigma da pobreza, ainda que eu nunca houvesse pensado sobre o assunto.
Um outro fator importante para consolidar essa "dúvida de classe", foi ouvir de uma amiga, filha de um sério intelectual da cidade, que ela era uma pessoa simples, legal e socialista, pois estabelecia amizade com pessoas pobres como eu, fulana e sicrana. Ouvi com curiosidade, atenção e continuei tentando entender o que me deixava naquela condição. Seria "estilo de vida"? Conta bancária dos pais ou sua? Quem tá classificando todo mundo? O que determina?
Percebi também, que um outro fator que determina a distinção de alguém de maneira instantânea (e não construída), é o tão "culto" seus pais são, não necessariamente você ou as experiências pessoais de cada indivíduo.
Para você que está desesperado em não ser classificado de "pobre", não se iluda, esta classificação não é pautada apenas no quanto você acumulou no banco. Ajuda muito se você mudar de bairro.
Episódio IV - O poder de classificar
O poder de classificar os outros em categorias limitadoras (ex: maconheiro, marginal, galeroso, pobre, puta, burro), aconteceu comigo durante meu último (e brevíssimo) trabalho de campo, em uma comunidade quilombola, eminentemente rural, às margens do rio Andirá/AM.
A anfitriã, gentilmente, me questionou se estava tudo bem com a minha hospedagem, se faltava algo, se a cama estava confortável, se a comida era suficiente, se eu estava bem acomodada de uma maneira geral. Eu, com a delicadeza de um bode, disse com toda displicência do planeta: "não se preocupe comigo querida, estou acostumada". Ao proferir essas palavras, fiquei horrorizada comigo mesma e do que estava falando. Pensei em um tom alto e feroz:
- ACOSTUMADA COM O QUE?
- O QUE EU QUIS DIZER COM ISSO?
Sorri amarelo e me calei.
Procurei dentro do meu íntimo e utilizando toda a reflexividade que me restava naquele momento, descobri com a frieza cirúrgica o que tinha feito.
Episódio V - Quando descobri que Manaus era uma cidade inóspita*
* más condições para sobreviver (...)
No ano passado, 2015, tive a feliz oportunidade de participar do casamento de uma amiga, a Lívia. Eu não a encontrava fazia mais ou menos dez anos. Ela morou em Manaus no período que seu pai havia sido transferido pra cá, e estudamos o ensino médio juntas. Isso era bastante comum naquele colégio de boinas vermelhas. Depois de alguns anos, seu pai foi transferido novamente para sua cidade de origem, mais precisamente para o sudeste do país. Desde então, passamos a conversar por cartas, e-mails, depois o moderno msn.
Durante a festa do seu casamento, vários amigos daquela época estavam presentes e passaram a lembrar de como foram suas vidas em Manaus na década de 90:
- Nossa, eu lembro que não tinha nada pra fazer naquela cidade, meus pais viviam entediados;
- O pior era não ter água potável, minha mãe morria de medo que pegássemos alguma doença. Tinha sempre aquelas garrafas da "santa cláudia" espalhadas pela casa;
- Tinha tanto mosquito que eu nem conseguia respirar;
- Nossa, Manaus era muito suja. E o calor? insuportável! Mudou alguma coisa?
- Índio eu nunca vi na época que tava lá, mas eles ainda existem?
- Eu nunca vi tanta gente feia na minha vida, desculpa amiga, mas é verdade;
- Mas a nossa turma era muito legal, saudades amiga <3
- Mas e vc? virou antropóloga né? o que faz mesmo?
- Critico todo mundo de uma maneira elegante, ainda é difícil pra mim, mas tô estudando.
Todos riram.
(...)
Após os relatos, fiquei pensando que eu também estava em Manaus na década de 90, junto com eles. Por que não fazia a mesma leitura sobre a cidade? O que havia acontecido comigo pra não ter percebido essa calamidade pública sob o meu nariz? Que óculos eles usaram? Quais eu usei?
*
Durante o tempo que eu passei sem escrever nesse blog, vez ou outra me pegava refletindo sobre minha postura agressiva, muitas vezes prepotente e arrogante de uma "nativa" abusada e exibida. Esclareço que o etnocentrismo toma conta dessa escrita, com a certeza de que o lugar onde se nasce não oferece autoridade plena para falar sobre ele.
Considerando que há pessoas extremamente comprometidas e críticas no que diz respeito as classificações sobre a Amazônia (e outros "lugares inóspitos") e as pessoas que vivem aqui é que:
- Natasha, só por hoje, não será xenofóbica e preconceituosa, pois entende que este poder, ou melhor, esse raio classificador, pode estar nas mãos de qualquer um, inclusive nas suas.
A volta do malandro, Chico, 1985
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