Quando ela estava no colégio, tia Patrícia
fazia suas tarefas de casa naquela mesa grande da vovó Ana e do vovô Arlindo
que ficava na cozinha. Nessa mesa grande, vovó fazia comidinhas rápidas para
ela e os filhos, mas as netas sempre davam um jeito de filar essa iguaria: feijão de praia cozido na água e sal,
verdurinha (cheiro verde, cebola, tomate) picada, farinha seca (branca) e um
pouco de óleo pra dar a liga. Misturava tudo e fazia pequenas porções com as mãos,
cuidadosamente amassados... aos poucos
eles eram enfileirados no prato e viravam pequenos bolinhos carinhosamente
chamados de “boloto”, cada um pegava o seu.
Depois do “boloto”, tia Paty limpava o fogão e
fazia suas tarefas escolares na mesona. Esse oficio de “limpar o fogão antes de
dormir”, seguia uma regra rigorosa: depois que a mais velha conseguisse um
emprego no distrito industrial ou casasse, a seguinte seguia no ofício... sempre antes de dormir e/ou namorar.
Ai de quem fosse namorar antes de limpar o fogão.
Vovó Ana ia buscar na sala e soltava o verbo: VÁ JÁ LIMPAR O FOGÃO! Ninguém
queria passar por tal constrangimento.
A da vez era a Paty, Simone havia acabado de conseguir
um trabalho na Philips.
As mais velhas, Rosa e Maria, eram lembradas
com saudades em tempos de faxina. Mesmo casadas, enceravam o chão da casa da
vovó nos finais de semana ao som de Roberto Carlos e “daquela mulher cega”: a
Kátia.
Sou rebelde, não era a Kátia.
Por ser vizinha da minha avó, eu vivia lá. Colava
na Patrícia, uma pentelha-chiclete mesmo.
Depois de limpar o fogão, Paty tinha um caderno
de educação artística, onde ela fazia réplicas do teatro amazonas e onças. Eu amava
vê-la pintando e desenhando. Ela tinha uma infinidade de lápis de cores... mas
o seu zelo, brabeza e perfeccionismo era tão
grande e característico desta personalidade, que ninguém ousava triscar, obviamente. ou não na frente dela! hahahahaahaha
Segundo ela, os contornos de qualquer desenho com
uma canetinha preta era o segredo para a beleza de qualquer pintura, eu seguia
à risca. Aquele talento era sobrenatural pra mim.
A minha lembrança mais forte, foi a de um
trabalho de biologia que ela desenhou cuidadosamente uma infinidade de vermes, protozoários, bactérias... foram diiias de tênias, amebas, platelmintos que flutuavam na
minha cabeça... era tudo lindo demais.
Paty cresceu, eu também.
E momentos antes da minha qualificação, ela me
apresentou o Prezi.
"Tu vais arrasar na tua qualificação! é bem simples de usar e as apresentações ficam lindas"
A vontade de aparecer é uma coisa incrível né? hahahahahah
Mas antes, vou falar de uma situação recorrente nessa minha vida pré-qualificação: a petrificação do corpo e da alma.
de acordo com o site/blog/delícia do pós-graduando, eu estava com a crise do powerpanicopoint.
"Priscila, repelida pelo PowerPoint Priscila era uma menina de cachinhos dourados que fazia mestrado em algum departamento de Exatas no RJ. Tudo ia bem, até que duas semanas antes da sua defesa, Priscila se viu incapaz de abrir o programaPowerPoint. Toda vez que ela abria o programa um medo incontrolável tomava conta dela, e Priscila tinha que ser levada para o Hospital Universitário. Foi diagnosticada com: Crise do PowerPanicoPoint e como tratamento fez toda a sua apresentação de defesa no Prezi."
(Daniel Agrimani)
Paty precisou sentar ao meu lado e segurar na minha mão para que eu abrisse o programa, eu estava absolutamente tensa e incapaz de fazer qualquer coisa. só tratamento na minha vida.
Depois de passar por esse momento frescurite aguda, fiquei HORAS mexendo na apresentação, fotos, modelos e isso entrou pela madrugada, até eu topar com a história de Miguilim... Sim, você não tem o que fazer e as duas da manhã, véspera da sua qualificação, você baixa um pdf de "campo geral"... pra passar o tempo.
vai dormir garota!
*
No dia da qualificação, cheia de olheiras e tensão, a figura incrível do Rafa (membro da banca), depois deu instalar o projetor e rezar para abrir todos os arquivos, fala o seguinte:
"Prefiro ouvir você falar, olhando pra você".
gelei.
Tudo bem que eu me posicionei de maneira errada sabe? fiquei na posição contrária ao projetor :/ nem tive o tino de levantar e falar ao lado da imagem... colei na cadeira e lá mesmo fiquei. mas ok, tava nervosa e com as tripas moles. (sacaram né?) demorei uns 30 segundos pra perceber que toda a minha frescura/sofrimento pré-qualificação foi pras cucuias, bastava eu contar uma historinha e pronto. ah, só eu vi o prezi. hahahahahahahah
No fim das contas, qualificação não é um bicho de sete cabeças, você leva umas surrinhas, mas faz parte do "ritual do ralho".
Você e seus colegas de PPGAS, que passaram pelo ritual do ralho.
(Aleksandra Waliszewska)
gostei :)
Tia Paty é linda e eu vou guardar pra sempre a dica do prezi, apesar do frio na barriga de você não saber se ele vai abrir ou não, as apresentações ficam arquivadas numa conta (do próprio prezi) e as informações são apresentadas de uma forma mais dinâmica sabe? com vídeo, fotos, animações... impressiona gente besta que nem eu! hahahahaahah
Fique craque na parada, vai que você precisa "vender" uma ideia/projeto legal,
Hoje começaremos o texto falando de uma personalidade importantíssima do cenário Amazonense:
Manuel da Gama Lôbo d'Almada (17.. -1799). se você deu risinhos sacanas, você vai entender do que eu estou falando.
Num dia qualquer, munida de poucos reais e duas comadres para bater perna pelo centro de Manaus, vá obstinada na caça ao tecido-de-estampa-perfeita. vou explicar.
Desde o dia em que sua amiga prometeu fazer um roupinha para o seu computador, seus pensamentos foram povoados pela temática... e a única certeza que você tinha na vida é que seriam frutas.
uma delas, entendida no assunto, completou: vamos na rua lobo d'almada.
Essa rua é recheada de lojas de tecidos... e procurando informações sobre esse geógrafo/militar (o lobinho), descobri que ele foi um dos responsáveis por levantar uma fábrica de panos de algodão e outra de tecidos e redes... com 18 teares e 10 rolos de fiar com 24 fusos cada um. tudo bem, eu não sei o que isso significa exatamente (teares e fusos), só sei que ele foi "o cara"da pseudo indústria têxtil no Amazonas... além da fabricação de cordas e amarras de piaçaba e calabares...
Arrá! piaçaba eu sei o que é! inclusive, vale a leitura da dissertação premiada da querida Elieyd, (Lica) "os piaçabeiros do Médio Rio Negro: identidade étnica e conflitos territoriais". gente, isso é muito interessante, meu avô materno trabalhou com isso!
barco com piaçaba. heheheh
Só um resuminho pro trabalho não ser jogado ao vento:
... a dissertação de Elieyd Menezes apresenta um detalhamento do modo de vida das pessoas nos piaçabais (locais onde as fibras de piaçaba são extraídas na floresta) em Barcelos, interior do Amazonas. “É um universo que abrange intrínsecas relações de poder entre “patrão” (comerciantes que se dizem donos dos igarapés onde há palmeiras de piaçaba) e “freguês” (piaçabeiros)”, comenta Elieyd. A autora diz que o sistema de aviamento - baseado no adiantamento de mercadorias a crédito - é muito presente no município. “É um sistema historicamente conhecido na Amazônia, onde o comerciante (patrão) fornece mercadorias ao freguês (trabalhador extrativista), o qual deverá pagar por elas. Porém, os preços são altos, algumas vezes superfaturados e a dívida dificilmente é quitada porque sempre o trabalhador extrativista precisa desses produtos, como alimentos, roupas, lanternas, facões”, registra.
Voltando ao Lobinho, tô com a impressão que ele era super malvado depois dessa introdução da Elieyd, ele mandava buscar de outros lugares o algodão, a cana, curauá, muriti, cera virgem de abelhas (hã?), tucum dos rios Solimões e Negro (suspiros...) e a piaçaba... sabe se lá em quais condições isso acontecia.
Mas então, não vou falar da piaçaba. foi só um link legal.
Linda!
O que o seu Lobo não esperava é que a sua rua ficasse conhecida por ter o estabelecimento mais generoso de Manaus: o remulos club. fazendo uma mini busca na internet, encontrei uma reclamação do João:
primeiramente tendo cerveja gelada e mulheres a disposição está otimo,só não leva 10 porque tem meninas que cobram muito caro e tem umas que só quer barão eu moro em são luis passei minhas ferias a cidade é 100000000 e gostei do remulos parabens manaus aconselho a todos a ir em manaus.
João parece coerente nas suas queixas, mas não entrarei no mérito por não ter conhecido o lugar, nem o João, nem as meninas. Entretanto, não posso deixar de parabenizá-las. Infelizmente, a casa mais carinhosa de Manaus, foi fechada pela Secretaria Municipal do Centro (SEMC) ???? e pela SEMINF pois funcionava como um motel ilegal. ¬¬
Mais uma vez, o Estado acabando com a felicidade alheia. fizeram o absurdo de construir um muro de alvenaria na frente! santa hipocrisia! só faltou o sal e a pá de cal...
Dica: nunca, jamais, desperdice a oportunidade de aprender alguma coisa... JAMAIS. * Então, nessa simbólica rua, mais próxima a sete de setembro, tem um zilhão (mentira) de lojas de tecidos: se jogue atrás da sua estampa perfeita. Por estar vivendo um momento de obsessão pelo artista Paulo Nazareth, as escolhidas foram as bananas!
Paulo Nazareth (projeto)
Super na dúvida qual a melhor frase...
Deu pra entender a obsessão? rs mas não é só isso, essa frutinha é MUITO cobiçada na região norte, a pacovã então, nem se fala! Durante muito tempo me acompanhou no twitter e foi meu apelido até hoje, de infância: chorona, caía por tudo, vivia com hematomas, sem contar as "sementinhas"que decoram meu couro. "essa menina é uma banana", caia como uma luva.
No entanto, o problema de idealizar um tecido ou qualquer coisa na vida, é que você passa a odiar tudo o que você vê. Nada é tão legal quanto o tecido que está criado na sua cabeça. você pensa em desenhá-lo, pintar sua própria estampa, pedir pela internet... qualquer coisa.
Mas graças a falta de paciência das suas amigas bom senso e a vontade de cobrir minha máquina de escrever moderna o quanto antes, comprei um de laranja. até que gostei sabe?
as bananinhas ficam pra depois, não as esqueci.
Agora vamos à prática! simmmm você vai aprender a fazer uma capinha também.
1. Vá direto na loja "Kamila", os tecidos são uma fofura, o problema são os preços. saia de lá o quanto antes, não vale a pena (não tinha as bananinhas);
2. Na sequência, vá na Tapajós... mas, não tinha NENHUMA estampa legal;
3. Rode mais um pouco e pare na "Nova Jersey". essa portinha desconhecida. não é tão farta de tecidos bonitinhos como a Kamila, mas se você garimpar, acha umas estampas legais com preço justo (pasmem: menos da metade que na Kamila). Não esqueça de comprar a linha que vai combinar (ou não) com o seu tecido. ahhhh tem o feltro. mas a Isa disse que tinha na sua casa. ótimo né?
tirei essa foto num domingo, por isso estava fechada.
essa foi a primeira etapa.
*
Já com as armas na mão, vá para a casa da sua amiga num domingo preguiçoso.
chegando lá, você vai sentir um sono absurdo e inexplicável, causando constrangimento em todos que estão ali no recinto. aproveite e tire umas fotos da casa dela, se ela deixar, claro! você ainda tem um Pibic sobre decoração correndo nas suas veias! hahahahaah
casa da Isa 1: EU QUERO ESSE QUADRO!
Casa da Isa 2
casa da Isa 3: Laerte, fofura total! dá pra trocar as roupinhas!!! *.*
ah, uma dica importante: jamais saia da sua casa com fome ou sono. você pode virar um monstro do lago ness a qualquer instante, é quase incontrolável, como se você estivesse com hipoglicemia sem ser diabética sabe? um horror.
Para aliviar o sono e quebrar o clima daquele evento mulherzinha, pegue seu computador e declame umas músicas dos Racionais MC's, elas vão achar estranho, mas você está em treinamento... tente incorporar o Suplicy e arrase:
Ore por nós pastor, lembra da gente no culto dessa
Noite, firmão segue quente
Admiro os crente, da licença aqui
Mó funçao, mó tabela, pow, desculpa ai
Eu me, sinto às vezes meio pá, inseguro
Que nem um vira-lata sem fé no futuro
Vem alguém lá, quem é quem, quem sera meu bom
Dá meu brinquedo de furar moletom
Porque os bico que me vê com os truta na balada
Tenta ver, que saber de mim não vê nada
Porque a confiança é uma mulher ingrata
Que te beija, e te abraça, te rouba e te mata
Desacreditar, nem pensa, só naquela
Se uma mosca ameaça me cata piso nela
O bico deu mó guela, ró
Bico e bandidão vão em casa na missão
Me tromba na cohab
De camisa larga, vai sabe Deus que sabe
Qual é a maldade comigo inimigo num mique
Tocou a campanhia plin, pá trama meu fim, dois maluco
Armado sim, um isqueiro e um stopim
Pronto pra chamar minha preta pra falar
Que eu comi a mina dele, rá, se ela tava lá
Vadia, mentirosa, nunca vi tão mó faia
Espírito do mal
Cão de buceta e saia
Talarico nunca fui, é o seguinte
Ando certo pelo certo, como 10 e 10 é 20
Já penso doido, e se eu tô com o meu filho no sofá
De vacilo desarmado era aquilo
Sem culpa, sem chance, nem pra abri a boca
Ia nessa sem sabe
(pô cê vê) vida loka
Mais na rua num é não, até jack
Tem quem passa um pano
Impostor pé de breque, passa pro malandro
A inveja existe, e a cada 10, 5 é na maldade
A mãe dos pecado capital é a vaidade
Mais se é para resolver, se envolver, vai meu nome
Eu vou fazer o que, se a cadeia é pra homem
Malandrão eu, não, ninguém é bobo
Se quer guerra terá
Se quer paz, quero em dobro
Mais verme é verme, é o que é
Rastejando no chão, sempre embaixo do pé
E fala 1, 2 vez, se marcar até 3
Na 4ª xeque-mate, que nem no xadrez
Eu sou guerreiro do rap
E sempre em alta voltagem
Um por um, Deus por nós, tô aqui de passagem
Vida loka
Eu não tenho dom pra vitima
Justiça e liberdade, a causa é legitima
Meu rap faz o cântico do lokos e dos românticos
Vo por o sorriso de criança, onde for
Os parceiros tenho a oferece minha presença
Talvez até confusa, mais real e intensa
Meu melhor marvin gaye, sabadão na marginal
O que será, será, é nós vamo até o final
Liga eu, liga nós, onde preciso for
No paraíso ou no dia do juízo pastor
E liga eu, e os irmão
É o ponto que eu peço, favela, fundão
Imortal nos meus versos
Vida loka
Suplicy pra inspirar, ele é a sua meta de performance:
aos queridos do direito, inspirem-se.
Após a declamação teatral, você ouvirá uns aplausos no infinito de alguém que jogava video game naquele momento frufru de mocinhas e costuras. (hahahahahahaha valeu Luiz!)
Se essa dica não adiantou, enquanto sua amiga linda, fofa e atenciosa costura, se jogue no chão sem pudores, coloque uma revista qualquer na sua cara e durma uma meia hora, você acordará outra, acredite.
O mais interessante nessa menina-costureira, colunista do cinema em cena, do estante da sala E a mais nova mestranda do PPGAS/UFAM (!!!!) é o descompromisso-prazeroso que ela tem em mexer nos tecidos, em cortá-los utilizando o rejunte da cerâmica, em perceber que tá faltando alguma coisa e improvisar com o que tiver por ali! Amei Isa :)
O resultado é tão singelo sabe? as mãos de uma pessoa tão querida, num mix de habilidade, tecidos, carinho e linhas criaram não uma capa qualquer para o seu notebook, mas uma manifestação de resistência num mundo duro, corrupto, cínico, esmagador.
*
vamos ao passo a passo:
as belezocas peladas: você precisa deles para tirar as medidas.
O rejunte vai ajudar a cortar em linha reta.
tá vendo essa parte verdinha dentro das laranjas? é um saquinho de feltro.
tava dormindo quando ela fez (acho) :/ mas é simples!!!!
mini coração vodu! hahahahahaha
esse pedacinho fica na lateral do computador, serve para guardar o carregador :)
Isa estava enfiando o elástico com um grampo pra ele ficar franzidinho.
Essa foto ficou psy, mas é o momento que junta todo mundo
(o saquinho de feltro e o outro de laranja) e costura as bordas.
quase pronto, os dois saquinhos estão juntos. falta a "berinha"que fecha.
Essa é a berinha que fecha!
daí é "só" costurar com os saquinhos...
colocar a sua maquininha!
PRONTO! amei Isa!!!! :D
depois de um jantar gostoso/natureba/bonzão, volte pra casa, exiba à todos sua capinha nova, diga quem fez e seja snobe, acrescentando que ela só faz pros considerados! hahahaahhahahaah
aproveite e leve suas laranjinhas para o evento mais importante da sua vida nesse final de ano, se nada der certo, ao menos você vai brilhar com uma capa estilosa né?
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Poema em linha reta, Autor: álvaro de campos, melhor, fernandão. * Eu fiz merda. daquelas bem grandonas. quatro, na verdade. a primeira, eu pedi desculpas. a segunda eu fiquei sem fala, a terceira eu tô com vergonha, a quarta vai ficar como está. sei que o poema do Fernandão não vai me salvar, sei também que não é um pedido de desculpas, nem um álibi. mas assim, ah... :/ vai ficar como está.
Ontem recebi um e-mail sugerindo um "seminário de pesquisa" com os colegas, vou mostrar a parte que interessa:
"Chamei de metodologia, mas sem rigor científico (por favor não ria)"
Sinceramente, alguém ainda acredita que alguma coisa é feita com rigor científico?
vamos aproveitar a fala da Manuela, nesse entrevista cheia de ratadas e constrangimentos (da jornalista, claro):
"curiosa pergunta..." hahahahahahahaaha
Se for árduo pra você assistir esse vídeo num sábado, não se violente, sério. respeite seus miolos.
faça só um esforço de OUVIR até os dois primeiros minutos, ao menos é a parte que interessa... ou se você acordou ambicioso, deixe rolar a entrevista enquanto você mexe naquele sangue-suga chamado facebook... ou arrume seu quarto, prefira a segunda opção. Lá tem vários argumentos que podem te ajudar a se exibir por aí... inclusive conquistar aquela menina gata, linda, sensacional que te deu mole na balada.
Para escrever um texto acadêmico ou um blog, você deve se acostumar em ser arbitrário/ditador, cada escolha (se o seu orientador permitir, claro), texto, parágrafo é uma ordem. ai que delícia! hahaahahah, ok, mentira. é um sofrimento.
É nesse contexto ditatorial que acrescento o "culto da emoção" pra chegar no lançamento de um livro-CD que eu fui ontem:
resolvi homenagear a minha cópia.
Eu juro que não lembro qual foi a disciplina que eu usei o texto, se foi em "prática de pesquisa" ou em "teoria antropológica III"... mas nem interessa, você pode comprá-lo no estante virtual com poucos reais.
"a sociedade atual perdeu a capacidade de sentir".
será?
"quando a atualidade imediata não traz o seu quinhão de acontecimentos dramáticos, a cultura do entretenimento reveza-se com ela. O cinema, os seriados de televisão, os videogames, os grandes espetáculos e as imagens de síntese constituem um imenso reservatório de emoções. A emoção tornou-se um objeto de marketing cujo impacto é cuidadosamente calculado pelos donos de nosso lazer, alternando horror, surpresa, tristeza, indignação, alívio, compaixão, lágrimas e riso num jogo de contrastes que nos mantém em suspense."
*
não sejamos tão dramáticos, heheheheehe.
continuando:
"esse retorno à emoção constitui, simultaneamente, uma riqueza e um perigo. Uma riqueza, porque tempera os excessos da racionalização. A emoção é um derivativo salutar numa civilização submetida aos imperativos da ciência tecnológica e da organização".
...
"... na décadas de 1950 e 1960, que via na emoção uma perturbação do comportamento, uma falha da ação, um deficiência. Essa nova antropologia reabilita a emoção. Ela a considera uma auxiliar da ação, uma aliada da razão".
...
pra pensar:
"é revelador que o homem contemporâneo se interesse mais pela emoção, que é de tipo explosivo, do que pelo sentimento, que tem caráter duradouro".
*
O autor é cheio de afirmações... do jeito que você gosta... rs.
Por favor, não o cite nos seus trabalhos acadêmicos, ele te ajuda a pensar. só.
depois que você aprendeu sobre a dança da desconstrução, a última coisa que você quer na vida é um prédio sólido e seguro. fluidez é a regra.
quanto aos "perigos"... jogo a bola pro leitor. já o citei demais.
*
Ahhhh finalmente lembrei!
pensei nesse do Lacroix, mas o que estava na minha cabeça foi um comentário da amiga Gê (parabéns pelo doutorado!), em uma disciplina, que também não lembro (hahahahha), sobre o pós-moderno Renato Rosalvo que num trabalho de campo junto com a mulher, ela caiu de um barranco e morreu. ele escreveu sobre isso e solidificou o que estava se chamando de "teoria das emoções". em um dos seus textos, ao investigar a morte, afirma que "muitos antropólogos eliminam a esfera das emoções, assumindo a posição de um observador distante".
Acho que esse é o legado mais importante: não eliminar as emoções. revirei tudo e não achei o texto dele de jeito nenhum... nem na internet :/
vou ver se compro o livro mesmo...
*
depois dessa introdução inesperada, apresento "a música das cachoeiras".
as imagens são lindas!!!
Se você preferiu ir ao lançamento do livro-cd do seu coleguinha de classe ao invés da festa de quarenta reais, parabéns! você ganhou esse livro lindo, que não será comercializado, para dar de presente.
Agradecimentos à pesquisadora Karina Sanches, que viabilizou tal gaiatice. :)
No evento, tive a oportunidade de cumprimentar um professor, muito querido, que ministrou uma das primeiras disciplinas que cursei na graduação: Nelson Noronha, autor do prefácio desse livro-CD encantado.
Nelson inicia o texto falando de amor e afeição, e é disso que estou falando:
"As imagens, as palavras e as músicas deste Livro-CD surgiram de uma iniciativa que reuniu amor pela arte e afeição pela pesquisa científica e filosófica. (...) o projeto nasceu do interesse de Agenor Vasconcelos pelas criações artísticas desses povos, que se desenvolveu durante suas pesquisas destinadas à redação de sua dissertação de mestrado. Sob o título de o sentido metafísico na descrição etnográfica de Koch-Grunberg: o demônio, a máscara e o falo...."
Em linhas gerais, o trabalho diz respeito a uma viagem "do Alto Rio Negro ao monte Roraima" que possibilitou encontros com indígenas de diversas etnias..., encontros musicais, artísticos, numa espécie de encontro "metafísico" (usarei esse conceito em função da formação de Agenor, ainda que o cosmológico seja bem mais sedutor) que possibilita a construção de, mais um vez, mundos possíveis.
Uma pena a banda Marupiara não estar no evento, mas aí vai um pedacinho deles:
Apiga, banda marupiara.
O que fica pra refletir é um barulhinho cada vez mais crescente de que um texto, um livro, um cd, uma dissertação ou tese são só a ponta de um iceberg. Jamais, digo, JAMAIS, darão conta do que um encontro, a experiência, um trabalho de campo, o sentimento e a emoção com o intuito de construir diálogos possíveis é capaz de fazer.
*
IMPORTANTE: Estimada alaíde negão, pare de boicotar minhas aulas de francês aos sábados pela manhã! tocar as duas da madrugada já deu! (desabafo coletivo)
música da cachoeira, carimbó do cagado (alaíde negão)
Muitos corações sensíveis postaram esse vídeo no facebook, inclusive a figura ilustre que eu sigo sem pudores: Eduardo Viveiros de Castro.
a saber, não acho que teoria e camisa de força caminhem juntas.
O que ninguém se questiona, são sobre outras formas de se alimentar que estão embaixo do nosso nariz: mas sabiamente, vivem sob o manto que os protege até hoje, o segredo.
pegando o clichezão de líder de torcida de FSM, "outros mundos possíveis"... ai que bonitinho! hahahahahah e revirando loucamente meu caderninho verde limão que me acompanhou durante essa temporada transformadora no sul da Bahia, achei um texto "pronto", mas muito fora de contexto pra caber na dissertação.
que caia no mudaréu da rede. vai que serve?
*
"uma última ave no céu", Jaider Esbell, Macuxi, 2013.
"continuação do campo, esse vai pro blog"
Desde "pintinhas", são cuidadas soltas, como crianças brincando naquela grama verdinha e de comida farta. ciscam por todos os cantos, inclusive perto da casa dos seus Orixás favoritos.
Momentos antes do ritual principal, são escolhidas... uma a uma.
Há de ter cuidado ao pegá-las, as asas se debatem com frequência e você não quer machucá-las.
Passado o momento de euforia, até ela acostumar com o seu corpo, antes de entrar no terreiro seu bico e pés são purificados com água cheirosa e delicadamente limpos/enxutos com um tecido branco. Continue a segurá-la, você vai perceber que sua respiração, coração, vão se acalmar até ela finalmente acostumar com o seu colo. curiosamente, você vai acariciar aquelas penas tão bonitas e sentir um sentimento intenso de ser a última a segurá-la neste mundo.
É iniciada a música, a dança... os escolhidos e já iniciados as levam para o local que as espera com muitas flores, enfeites, doces e a tigela de cerâmica. Lançada a sorte, todos aguardam ansiosamente a confirmação espiritual.
Passado alguns minutos, há a confirmação, todos aplaudem. Iniciam os batuques, as danças... e como num balé ensaiado, os Erês incorporam aos poucos, o corpo se transforma, a expressão é outra... quanta alegria!
Neste momento, num só golpe, a escolhida é oferecida em sacrifício.
Todo o seu sangue é cuidadosamente retirado.
As mulheres são convidadas a tirar as penas que as enfeitaram durante toda a sua vida. Seu adorno natural é ressignificado naquela cerâmica e as que "sobraram", é dada de presente à todos que ali se encontram. Quanta beleza!
Seu sangue será oferecido aos Orixás, por todas as dádivas diárias e pelas esperadas.
Após a cerimônia, um coletivo é acionado para preparar seu corpo nú, transformando-o em alimento de todos através do gengibre, das castanhas, especiarias, temperos, ervas e o fogo.
E assim foi passada a manhã, homens, mulheres e crianças envolvidas no preparo do caruru, do arroz, dos sucos... numa impressionante sincronia.
Depois de poucas horas, desde o ritual inicial, todos devem purificar os corpos na cachoeira de Oxum, leve a vasilha com as ervas cheirosas, e as roupas que irão cobrir você neste momento especial.
Após todo o preparo, o alimento sagrado é oferecido com entusiasmo, cantos, batuques, sorrisos, amor, carinho e cuidado.