domingo, 13 de outubro de 2013

não durma com sebastião

"não conheço suficientemente o trabalho dele, sei que ele é badaladíssimo como um dos melhores", essa foi a resposta sobre o economista mineiro sebastião salgado.

comprei um livrinho na promoção da cosacnaify e fui dar uma folheada nesse fim de domingo.



dica:

pós dia das crianças e por se tratar de um domingo Graciliano Ramos, JAMAIS, eu disse JAMAIS, vá dormir com Sebastião Salgado. Veja suas fotos numa rede, fim de tarde... num dia preguiçoso... nunca num domingo à noite, vá ler uma revista, aquela sua da carta capital que tá pela metade desde a semana passada.

Vou ser breve, pois criei uma antipatia profunda da introdução de Christian Caujolle.

De 1973 a 1987 Sebastião trabalhou, daí em diante só recebeu prêmios... minto, em 1994 "dá início ao grande projeto sobre os movimentos das populações do mundo" e para por aí. Bem que neste ponto ele poderia ter o peito do Mujica... "Estão loucos!", acabaria com 90% dos puxa-saco melindrosos.

Como esse cretino* conseguiu fotografar essas cenas????



Tem outras, mas quero ser breve, o meu celular tá um saco pra usar e já é tarde, quero dormir.

Ele é um APELÃO! parece que se promove na miséria dos outros, ou as fabrica. 
ainda não sei. alguns dirão: "contra fatos não há argumentos garota! não tá vendo essa desnutrição??!!"... mas não é só disso que eu tô falando... quero um tempo pra pensar.

(...)

Apesar do meu xilique e mimimi, assumo que o rei do preto e branco te convida a viajar, conhecer, sair do mundinho confortável, te enfrenta e desafia a todo instante... quanto a isso o meu muito obrigada... mas é tão melancólico e brutal que, repito, prum domingo não dá, quero mais tempo.

Ainda não consegui digerir e assumo minhas limitações com o livro-aperitivo de salgado nesta domingueira, prometo buscar mais. Vou dormir no alto do meu desconforto e inquietação, no fim das contas, ainda bem: zona de conforto é pros fracos.

*licença poética.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

sur l´état


ovulo quando ele bate na mesa, 
projeta o tronco pra frente 
e franzi os olhos pra olhar por cima dos óculos *.*


Esse é o sms que você recebe, ao dizer onde você está.

Dona das descrições etnográficas, sanguíneas, mais sensacionais...
Lá se vão muitos anos de amizade. 

Depois de três dias intensos de aulas maravilhosas, nada como a linguagem coloquial de baixo calão no boteco, vulgo, bar do carvalho, por que é lá o conhecimento refina.

OBS: garotos, mais sangue por favor! #fica a dica


tacacá da tia Socorro



Gente, tucupi é uma delícia com qualquer coisa, até com sorvete! hahahahahah AMO!

Depois de encher o meu buchinho com acarajé naquele mundo baiano, fiquei desejando horrores o tacacá, eu sonhava com aquele caldinho com camarão e jambú (pouco) na cuia... 

Pensando nesse texto aqui, lembrei de uma pessoa que conheci num congresso em Buenos Aires, ele apresentou um trabalho sobre as tacacazeiras em Belém. Lembro que fiquei impressionada como Daniel Bitter, que estava envolvido com o processo/pedido do registro de ofício de tacacazeira no Iphan, com pouca teoria e muita descrição etnográfica, demonstrou que aquele modo de fazer tacacá era genial e digno de se tornar patrimônio... super talento!

Comecei a jogar o nome dele no google + tacacá... achei!

"Comida, trabalho e patrimônio. Notas sobre o ofício das Baianas de acarajé e das tacacazeiras".

assim como o acarajé e o tacacá, o artigo é uma delícia! dá pra ler numa sentada.

Que grande coincidência ter no mesmo texto o acarajé... adorei entender melhor a relação das baianas com essa comida de rua... inclusive sobre a polêmica discussão sobre o "bolinho de Jesus".
Lembro que no congresso, ele falou apenas do tacacá...

O mais engraçado é que ontem, conversando com uma amiga sobre temas de dissertação... lembramos que a última vez que tocamos no assunto foi lá no tacacá da tia Socorro, na cidade dos carros (...). Ainda que eu torça o nariz para esse nome "cidade dos carros"... faz sentido... rs, que lugar gostoso: é tranquilo e tem ventinho.

Apesar do preço salgado, Gisela que me perdoe, ainda não provei tacacá mais gostoso! sério...  fico diiiias desejando essa maravilha.

Olha que bonito que eu encontrei no texto do Daniel:

"Patrimônio, aqui, assume outros contornos semânticos, revelando-se indissociavelmente ligado ao corpo, à alma, às relações sociais, a certos lugares, ao modo com que essas comidas são servidas e consumidas, 
à sua estética, e assim por diante. As baianas e as tacacazeiras não são apenas cozinheiras capazes de produzir com competência certas comidas, são atores sociais que veiculam concepções de mundo. Ser baiana ou tacacazeira é uma forma específica de ser, estar e agir no mundo."

Graças à essas mulheres, tacacá sempre foi sinônimo de estar com a família... quando era pequena, nunca compravam uma cuia só pra mim... era sempre dividido com a mamãe ou outra pessoa conhecida que estivesse por ali... "o tucupi é muito forte pra elas", dizia. Ficava ansiosa para que chegasse a "minha vez"... era a hora de pescar um camarão e tomar aquele caldinho amarelo-ouro-delícia.



Segundo Daniel, "as tacacazeiras de hoje, na maioria, aprenderam o ofício com suas mães e avós ou com outras mulheres", lindo né? 

Vou bem ali tomar meu tacacá e matar minha saudade.








quinta-feira, 10 de outubro de 2013

águas de olivença

Engraçado que no campo, eu queria muito conversar e botar pra fora tudo o que eu tava sentindo e vivendo ali, escrevia loucamente no meu caderninho verde limão... e ele não foi suficiente... maravilha! "mas o que essa menina tanto escreve?" é que minha memória é curta... respondia sorrindo e bem devagar. deixar acumular era um tanto arriscado...

Em Manaus, tive que fazer um índice dos assuntos que surgiram por lá... e uma mini proposta.
levei pra orientadora, conversamos, gostamos, qualificação agendada. tô feliz.

Passada a orientação, me dei conta do que vem pela frente... que saco me ler! não tô conseguindo olhar naquelas folhas verdes e o caderninho azul emprestado e nunca devolvido que me acompanharam todos aqueles dias.

Me sinto exausta, e esse cansaço ainda não passou...

:/

*

Lembrei de uma noite, bem especial e linda...
fica o registro no blog, pra eu nunca esquecer dessa lua, dessa música.



i.c.u., lou doillon 

Olivença, fim de setembro de 2013.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

United States of America



- vou tirar o visto.
- mas tu não foi pra Cuba?!
- ah, vou aproveitar os dois dias de bobeira por lá, acho um abuso ter de viajar pra tirar essa porcaria. 
- que decepção, tanto lugar bonito pra ti conhecer...

¬¬

parabéns, você está cercada de gente chata.

*

Depois de andar horrores pela cidade do barro vermelho,
deu vontade de tomar um suquinho perto da FUNAI...
a moça que me ofereceu a delícia líquida, apresentou os sabores e o primeiro foi o de cupuaçu! perguntei de onde ela era, obviamente.

- sou candanga.

hã?

"Candango" é o termo dado aos trabalhadores que imigravam à futura capital para sua construção. De origem Africana,Candango significa "ordinário", "ruim", e era a denominação que se dava aos trabalhadores que participaram da construção de Brasília ...  é dado também as pessoas que nascem no Distrito Federal, uma forma de homenagear os pioneiros. (dicionário informal on line)

Eu preciso de um dicionário mais completo, tá ficando feio o negócio.

O que passava na cabeça de Juscelino?
E a multidão que resolveu migrar para essa cidade imaginada?... incrível, assombroso...

Apesar do carinha que projetou Brasília (não foi o Niemeyer) dizer que foi inspirada na sua amada Julieta -> Leleta -> borboleta e não num avião (segundo as informações de uma exposição linda no Congresso) a cidade parece MUITO com aquele meio de transporte que você detesta.

Ainda que eu tenha conhecido a cidade no meu primeiro Encontro de Estudantes de Ciências Sociais (ENECS), e nunca mais ter pisado por lá tem uns trocentos anos, não foi difícil se embrenhar pelos caminhos da concrete jungle:

1. A Embaixada americana;

O caminho barrento

2. A catedral, não esqueça de fazer umas fotos de efeito no celular;



3. A FUNAI, apesar dela ter mudado de endereço, o que te rendeu uma bela caminhada... ah, é um prédio super sem graça e a arte índia não existe mais;

4. O Memorial dos povos indígenas e ficar doida com as bonecas Karajás e os vestidos Maxacali!!!!

Boneca Karajá

Área interna, simulando uma maloca


Cestaria Guarani

Vestidos Maxacali (essa exposição foi no RJ)


5. O memorial JK, e ficar chocada do corpo dele estar embalsamado todos esses anos (desde 1976) numa cripta bonita e assombrosa, além de babar no tapete gigante bordado por umas 300 pessoas da diamantina, e pagar pau pra sua biblioteca LINDA e recheada de livrinhos que você leu na disciplina antropologia do Brasil com o professor mais exigente do mundo;

foto pra se exibir nas redes sociais



7. Uma manifestação de estudantes contra ao descaso do Hospital Universitário e não pela chegada dos médicos cubanos #fica a dica;





8. O cirque du soleil, mas o ingresso era, digamos, ABSURDO de caro;

perdi as fotos do meu celular :~

9. Uma sopinha de cenoura, beterraba e mangarataia *.*

10. Um barzinho árabe de comidinha gostosa;

11. Uma exposição de fotografia fantástica a céu aberto, que te fez observar outras brasílias, mais líquidas e solidárias... faltou dizer que a utopia é hoje, carne e osso é amanhã.

*

adorei.

#ilhéus #partiu
























who is Stradelli?

Fazia tempo que não via Márcio Souza e Selda Vale.

Márcio Souza é sensacional, cansei de ver ele nos ensaios do teatro de bolso do sesc, na época em que eu e Rodrigo vivíamos zanzando por lá, Denni era o nosso favorito! 

é o meu até hoje :)

Ganhar abracinho caloroso e sorrisos desta mulher foi um caminho árduo...
À saber, Selda foi minha primeira orientadora de iniciação científica, 
sim, eu apanhei, muito. 

grata (ou traumatizada) até hoje!

O Cine Teatro Guarany, aquela belezoca de lugar, fica ao lado do Palácio Rio Negro:





Selda organizou a mostra em Manaus com todo capricho!  Acrescentou  que o filme Ermanno Stradelli, o filho da cobra grande, estava sendo exibido pela terceira vez no Brasil. chic né?

Chega a ser criminoso não saber de quem se tratava (presente!).
Vamos lá:



"Stradelli nasceu num castelo, na Itália, em 8 de dezembro de 1852. Era conde, jovem, rico, aventureiro, viajou para o Amazonas, em 1879, e aqui viveu mais de 43 anos. Com recursos próprios, percorreu florestas, rios e igarapés, aprendeu a falar o nheengatu e se apaixonou pelas histórias que os índios contavam. Coletou e registrou mitos, principalmente o de JURUPARI. No final, contraiu lepra. Com o corpo deformado pelas chagas, foi enxotado de hotéis, de pensões e até mesmo de hospitais. Morreu solitário e pobre, na periferia de Manaus, num casebre improvisado em leprosário (Umirizal) em 24 de março de 1926."

Texto de Ribamar Bessa, meu professor de história, na graduação em ciências sociais.






domingo, 6 de outubro de 2013

a invenção* da coragem

Coisa boa é comprar livro na promoção... sua nano biblioteca precisa ficar recheada de lombadas bonitas, assim você tira aquelas fotos cheias de estilo com ela ao fundo dizendo a sociedade ou às redes sociais (que na atual conjuntura dá no mesmo) o quanto você é culta, inteligente, exibida... puro charme!

Melhor ainda é você comprá-los antes de qualquer viagem, na volta, aquelas caixinhas cheia de selos sobre a sua cama te dirão: "bem vinda querida"!



não vou fazer comercial da editora e sim falar de um pacotinho, comprado duvidosamente:

- ah, eu nem comprei! é a versão portátil... a letra deve ser minúscula!
- putz, agora já era.


Demorou pra eu aceitar essa edição de cores em neon... a anterior é linda... letrinhas "ontem, hoje e amanhã" brincando num fundo branco e comunicando flores, pés de galinhas, galhos de árvores, redes, neurônios... o que a sua imaginação alcançar.



Passada a fase da frescura estética, abri o livro e notei que as letras não eram tão pequenas! UFA! e super me achei por ter comprado esse livro por um preço tão bom... rá!

Roy Wagner inicia o livro falando da capacidade do homem inventar sua própria realidade... obviamente o trabalho do autor é bem mais complexo e se divide em seis capítulos... dentre eles "a invenção do eu".

Toda essa introdução pra falar do quanto você pode ser uma fraude... explico.

Na ausência de tudo que você considera digno num ser humano, invente que você tem.

Invente que você não se importa em passar quatro dias com a mesma roupa, de ficar um dia com e no outro sem calcinha (ela estava secando no sol) que não tem problema tomar banho só com água porque você nunca sabia ao certo pra onde ia, ou o que ia fazer, onde ia ficar e quantos dias iria passar naquele novo lugar (SENSACIONAL).

-vamos?
-vamos! 

Invente que você sabe cozinhar, que sabe tirar fotos, que corrige textos e ajuda nos manifestos, que sabe cuidar de crianças, que não tem medo do escuro, nem de barulhos estranhos, nem de pistoleiro, nem de fazendeiro de cacau, muito menos da figura simpática do Orixá Exu, que dormiu na sala juntinho de você, bem pertinho da sua esteira :~. 

Orixá Exu


Exu é o orixá da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èșù em yorubá significa “esfera” e, na verdade, Exu é o orixá do movimentoNa África na época das colonizações, o Exu foi sincretizado erroneamente com o diabo cristão pelos colonizadores, devido ao seu estilo irreverente, brincalhão e a forma como é representado no culto africano. Por ser provocador, indecente, astucioso e sensual, é comumente confundido com a figura de Satanás, o que é um equívoco de acordo com a construção teológica yorubá, posto que não está em oposição a Deus, muito menos é considerado uma personificação do malMesmo porque nesta religião não existem diabos ou entidades encarregadas única e exclusivamente de coisas ruins como fazem as religiões cristãs.(wiki)


Medo, muitas vezes, pode ser ignorância... porque fui treinada/ensinada a sentir tanto medo? porque o certo e o errado/o bem e mal foi tão "bem" separado? estou apaixonada pelo Candomblé... ele aparecerá em outros textos por aqui.

*

Invente que aquela quantidade absurda de carapanã que ferrou a sua cara inteira não tem a menor importância, invente que mesmo suja você é linda, aguenta ficar com o cabelo seboso e sem a sua capa de proteção diária: o protetor solar (!!!!!). 

Invente diariamente, que não é covarde, que tiro nenhum te acerta, que a violência não te alcança, que você aguenta, que vai se orgulhar de tudo isso, invente que você é uma antropóloga, mesmo sem o diploma, que aquele maldito medo de andar de avião que te dá caganeira antes do voo vai passar também... ainda que a mãe Darabi, depois de uma risada gostosa, ter te falado que isso não tem jeito:

- minha filha, isso é pra vida toda, já ouviu a música do Belquior?

Invente que vai ter jogo de cintura para driblar as fofocas e as intrigas,  os textos que você leu e as aulas que teve já advertiam do que é ser mulher no campo. Que vai fazer muitos amigos e possíveis parceiros de trabalho. Invente que você acredita no invisível, aliás, isso você não inventou... 

Chegará um dia que, depois de ter contado tanta mentira pra si mesma, aquela máscara vai te grudar na cara, e se continuar a dize-las umas 100 vezes, se tornará verdade.

De fraude, você se torna uma pessoa inventada, olha que beleza.

Pra quem queria voltar outra porque estava de saco cheio de si mesma,
o ritual de iniciação no campo teve um papel fundamental.

Agradecimentos especiais ao Instituto Brasil Plural, que financiou essa "empreitada".


*Categoria formulada por Roy Wagner que foi utilizada nesse post de forma vulgar e superficial, sério. Que é a linguagem deste blog, quando se trata de textos mais científicos. hehehehe





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