quinta-feira, 2 de maio de 2013

um prato de flores


quero ter um filho, ou filha: meu útero deu um gritinho láaa não sei onde.



essas criancinhas tão acabando com o meu coração, sério. é tanta fofurice que eu e trago um trisquinho delas e deixo um pedacinho de mim em cada aldeia. sinto isso.

shirley, karlisson, rodrigo, raianna... 
aqueles olhinhos, aquela doçura, aqueles sorrisos... ai, ai, ai...

“um jardim que não tem fim, e vai florir” seria uma boa.
depois do doutorado, pensarei com carinho.



um macaco e quinze castanhas


Desde de que eu soube que a iguaria da região é carne de macaco ensopada no leite de castanha, eu não consigo raciocinar, pensando em como eu vou fazer essa receita, adaptando às carnes que tem na feira perto de casa... se você for comer sem ver o modo de preparo... beleza! acione a hipocrisia e esqueça aquelas mãozinhas pedindo socorro e se protegendo da pancada... maldito Darwin! 



Anotei receitas por aqui e elenquei algumas que eu vou tentar reproduzir em casa.

A primeira da lista, COM CERTEZA, é a desse ensopado.

Ingredientes:

- Um macaquinho bem fofinho, sugiro substituir por outra carne, caso se incomode; ou palmito*, caso seja vegana!

- 15 castanhas frescas, rale e tire o leite;

- Verduras e temperos a gosto, pense nas que você usa na moqueca de pirarucu;

Bote tudo na panela e deixe ferver!

*uma amiga muito querida e aniversariante, fez uma moqueca de palmito dia desses... e apesar de  achar estranho inicialmente... me permiti experimentar: é delicioso! 


:D~

o juma e o madeira


- pau do juma? como assim?

- depois explico.

- queres ir?

- QUERO! (com efusividade)

- certo, vamos de voadeira.

Nessa ocasião, lembre-se de Doc, o "personagem" de sociedade de esquina. Não finja que você é uma nativa, assuma toda a sua covardia diante de um toró medonho no rio madeira, use colete e capa de chuva. serão quarenta minutos de pura emoção.


segundo o google, é o rio madeira.

O rio madeira é conhecido por arrastar tudo que você vê a sua volta, pedaços de pau, mato, troncos de árvores derrubados pela força da água, redemoinhos, correntezas absurdas, banzeiros assassinos, ventos doidos e desespero interno farão parte desse momento único.

Prenda a respiração várias vezes, pense em todas as possibilidade de queda e pra onde você vai nadar caso sua voadeira te derrube, pense também no motor e torça pra ele não pegar na sua cabeça caso ele fique descontrolado... e tudo o mais que a sua imaginação doente criar. esteja preparada.

Falemos agora sobre o Juma ou mapinguari (será?).

O juma é conhecido por ser um "mito"... você ouviu de algumas pessoas que ele era um homem muito alto, forte e peludo que anda com um porrete na mão. alguns riem, outros ouvem com atenção, outros pegam uma voadeira e vão até a FUNAI da próxima cidade para constatar este fato. (EU!)

acabei de encontrar nessa coisa linda chamada google (saudades) que existe uma toada do  (eca) garantido sobre o juma, vejamos:




"tem oito anos, que um casal de ribeirinhos estavam descendo o rio e viram um homem muito alto e peludo às margens do igarapé... assustados, um deles atirou e o suposto juma saiu correndo para dentro da mata. foram na FUNAI e a mesma acionou a polícia. investigaram viram que tinha marcas de sangue por todo o caminho e uma pegada no chão de 44 cm. não encontraram o corpo, mas o senhor que atirou quase foi preso pela polícia federal... pois a vítima poderia ser um índio isolado. no local onde este suposto homem foi avistado, havia um porrete que pesava mais de quinze kilos, todo talhado de pedra".

tente dar uma explicação para este fato. 

a "peça" é LINDA! toda trabalhada e aparentemente está bem conservada. torço para que seja viabilizado uma réplica para o museu. mas as coisas não são tão simples assim.

tire uma infinidade de fotos, inclusive carregando o porrete, você quer contar para os netos essa história incrível. pire seus miolos tentando entender este acontecimento e admita que a única certeza que você tem, é que não sabe de nada.


parece ser do Quino, mas não fizeram referência.





festa de são lázaro




Prometa a si mesma, que vai aproveitar a animação da festa de são lázaro, das competições de dança que acontecem nas comunidades e vai se acabar na primeira casa de forró que aparecer em Manaus.

Você está com sede de dançar juntinho, beber, colocar um vestido colorido, sensualizar geral!

Samara é a música mais intrigante no quesito "reflexões sobre um chifre". não tenha crises feministas, nem evoque a lei maria da penha aos quatro ventos... há os momentos certos para você discutir sobre essa  legislação. 

se jogue na música, aceite o ritmo sensacional e seja A pé de valsa da região, no próximo festival você ganha a queixada assada fácil! 

Basta treino.


Entrada do rio autaz mirim, 23 de abril de 2013 - 16:16


Coisa linda famosa samara
Deixa eu bater na sua cara
E te chamar de otaria
E fazer amor, fazer amor
Bonita e charmosa
Gatinha dengosa
A samara trai
Você não quer mais a samara trai
Um beijo ardente
Olhar de serpente
A samara trai
Você não quer mais a samara trai

Ô samara, ô samara, ô samara
Por que você me trai?
Por que você me trai?

quarta-feira, 1 de maio de 2013

a arrogância antropológica





Há quem diga que antropólogo é arrogante, agressivo. Que não respeita a interdisciplinaridade, que é muito acadêmico, que não é objetivo, que se apega muito aos detalhes, que não sabe conviver com pessoas “inteligentes”.

Populações que moram as margens do rio, conhecidos popularmente como ribeirinhos e indígenas. É com essas pessoas com quem você vai conviver, conversar, comer e esmagá-las de perguntas agressivas e questionários absurdos num intervalo de poucas horas. 

Questionário? quem ainda usa isso? Escola de Chicago revival! Uma breve leitura de um dos capítulos do livro “a miséria do mundo” resolveria o problema. melhor não, os formulários já foram impressos, as tintas e os papéis já foram gastos. Sugestões também não serão aceitas... pra que mudar uma fórmula que já vem dando tão certo?

E aí começa a feira de vaidades. Ouvi uma vez que a geografia é a ciência do poder, na guerra, ela era-é fundamental. Na Amazônia também. Você não tem noção do que é esse mundo paralelo de rios, florestas e demarcações até ter condições de pegar uma rabeta e se dirigir sozinho à casa do seu parente mais próximo. Não tem placa, não tem sinal de “vire a esquerda” ou siga a seta, não tem faixa de pedestre, as localidades não aparecem no mapinha de colégio que você trouxe ingenuamente achando que ia identificar tudo. E aí começa a peregrinação com as imagens congeladas do google earth, seus mapas desenhados artesanalmente rabiscos de rios e o maravilhoso GPS, pra entender a dinâmica desse mundaréu de coisa.

Apesar da paisagem ser paradisíaca, turismo por aqui é "pesca e caça esportiva”. Sim, o esporte favorito da rainha da Inglaterra rola por aqui. Não sei se na Europa eles atiram nos “camponeses” sem querer, aqui acontece vez ou outra. mas e daí?

Não pretendo fazer análises sobre um trabalho que estou escrevendo “relatório”, que provavelmente não será lido. Gostaria de retornar ao tópico “a arrogância antropológica”:

Experimente conviver com ambientalistas que admiram a postura de fazendeiros no entorno da BR 319 e criticam os preguiçosos índios que atrapalham o progresso. experimente também, ouvir que a comida da população, CUJO INTRUSO É VOCÊ, é um lixo. Experimente, dentre outras coisas, ouvir que pessoas que foram absurdamente espoliadas, que não conseguem nem dizer bom dia na sua língua materna por vergonha ou por não ter sido ensinado, ou (...), é vigarista e oportunista. Experimente ainda, acompanhar o descaso e a insensibilidade de pessoas experientes no “meio ambiente” ignorar as angústias, a complexidade, os jogos de poder e a história de todos aqueles que viveram-vivem reféns das ações atropeladas do governo federal e dos próprios coronéis de barranco e regatões que insistem em existir. Eles não morreram nos livros. O patrão agora é outro.

o dono do mercadinho que generosamente “faz fiado”.
O kilo do feijão custa 8 reais por aqui, sem os juros do "empréstimo", faça as contas.

Aparentemente, dentre os “diplomados”, pouco se sabe do massacre que acontece com os Guarani no mato grosso, sim minha gente, tente dormir sabendo que famílias inteiras estão morrendo pra viver num pedaço de terra DEBAIXO DO SEU NARIZ. Mas isso é bobagem, a mídia tá pouco se lixando pra esse etnocídio, queremos saber como vive a família do “terrorista_imigrante_do oriente médio” dos EUA, esses sim são malvados.

(...)

Dentre as pérolas que você vai ouvir: “não tem morador, só índio”. Calma, não pule do barco.

Se você consegue ficar calado, por favor, me dê a pílula. Tenho receio de não fazer amigos  e ser convidada a me retirar o quanto antes. Desenvolver máscaras sociais, representar o eu na vida cotidiana E treinar o discurso pra mandar tomar no cú com elegância acadêmica faz parte dessa rica experiência.

No salão de festas do barco, com ar refrigerado, depois de um jantar de muito requinte,  com taças e louças brancas.

23.04.2013 - 22:52

google


Crise: vem do latim, crisis, do grego krísis. falo da crise de abstinência. 

daquele quadradinho lindo, cuja caixa, você coloca o que der na telha e aparece aquela enxurrada de informação. sim, estou com crise de abstinência do Google.


correr, suar, ver o por do sol e de repente... chuva! 

não mencionei que você estava no meio da ponte do rio negro quando essa “combinação” aconteceu...  apesar de está com a sensação mais maravilhosa do mundo, com aquela chuva na sua cara, desde esse dia lindo, apareceu uma pereba no seu pé.

O seu tênis estava imundo e molhado! 

Você precisa saber qual a medicação tomar, quais os alimentos que vão te ajudar a acabar com essa coceira deliciosa e amaldiçoada... é aí que você entra em crise.

Você quer saber a etimologia de alguns nomes, aqueles textos que você trouxe não foram suficientes pra você se exibir perante a comunidade de “pesquisadores”, ver um artigo da marta amoroso que ajudaria a calar a boca de muita gente, estaria nos planos... 

quer ler aquele decreto também, ver um livro em pdf que você esqueceu de baixar, uns desenhos, umas pinturas, seus blogs de moda, de arte, de decoração, de comidinhas naturebas e exercícios no youtube pra ficar gata de academia.

Ahhh google...  você faz falta.

22.04.13

a moça e o rio


Escolher os livros que você irá levar para o “campo” é sempre uma tarefa difícil... 

não estou falando nem dos necessários para sua qualificação, digo dos que irão te distrair∕divertir. Você nem sabe se terá tempo ou saco para lê-los, afinal, socializar com a galera faz parte do trabalho... uma outra coisa é o peso da sua mochila...

aulas de etiqueta: apenas você é responsável pelo que leva. não peça ajuda para carregar SUAS coisas. Não seja a dondoca do barco, por favor.

Fiquei na dúvida entre os de sacanagem, os guias de viagens e literatura. Nessa ordem. Os de sacanagem, por motivos óbvios. os de viagem, pra deixar você por dentro da cidade mais incrível ou os de literatura, sanando assim, sua doce obsessão por Ernest Hemingway

Levei o velho e o mar*:



Uma das coisas que te faz legal é você não ignorar os “pesquisadores” em detrimento dos livros... eles podem te julgar, te sacanear e dizer que você só quer aparecer. Tenha cuidado e jogo de cintura, não finja que os jogos de poder não existem, lembre-se da microfísica de Foucault. 

A oportunidade de ouro é quando a equipe resolver ligar o computador. Não seja estranha. Um outro horário bom é após as refeições, aproveite a luz do dia, assim você se esbalda na paisagem e lê a saga de Santiago nas correntes do Golfo, com aquela vista pro rio madeira... é muito prazer minha gente!

O velho e o mar (1952) ganhou prêmio nobel de literatura, dois anos após a sua publicação. 

Daí você se pergunta, como um monólogo munido de algumas narrações consegue ser tão convincente?

Hemingway defendia uma linguagem simples, frases curtas, construções claras e poucos adjetivos. Aparentemente essa é sua fórmula. funciona, emociona.

Santiago (o velho) fisga um peixe de cinco metros e está sozinho em alto mar. A relação entre ele e o peixe é de deixar qualquer etnólogo perspectivista no chinelo, viveiros de castro pira! 

Tânia Stolzen (link, um peixe olhou pra mim) ficaria comovida com a homenagem:



Spoiler de "o velho e o mar":

Apesar do sofrimento, da dor nas mãos e ombros sangrando pela força do peixe, do atrito com a linha, do cansaço, da saudade... “mas o rapaz não está aqui”, pensou. “você só tem a si mesmo, e agora o melhor que tem a fazer é chegar àquela outra linha, no escuro ou não...” (pg. 47)... Santiago não corta a linha que o liga ao peixe, mantém a luta. Para ele, lutar é resistir e assim permanece por dias e dias.

a moça continua, não se sabe ao certo qual peixe que encontrará no madeira, no purus, no solimões, no tapajós, no negro, no amazonas, autaz mirim, onça vermelha (...) mas definitivamente, ela não cortará a linha... nem arrancará o anzol. 

Santiago não ensinou só a Manolín. 
Sigo na obsessão, o próximo será “por quem os sinos dobram”.

Boca do madeirinha, em 22 de abril de 2013 - 10:21

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