sexta-feira, 14 de julho de 2023
shake de maracá em julho, teledipity
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Carolina
Ontem li "Quarto de despejo: diário de uma favelada" (1958) de Carolina Maria de Jesus. A motivação veio de um nó no peito, uma angustia, sentimento de injustiça misturada com uma raiva que não passa.
Carolina é imensa, sua escrita é devastadora.
Fui esquentar minha comida que fiz no final de semana. Fiz em panelas, não em latas. O meu frango guizado tem batatas, alho, tomate, sal, tempeiros. O meu feijão preto tem carne, cebola, alho, sal, tomate. O arroz tem lentilha e foi refogado com alho e cebola, a minha farinha é do Uarini, minha tia me deu. Havia na geladeira salada fresca, tomate, pepino, manga, cebola roxa, mais de um tipo de alface, cenoura ralada. Temperei com sal, mel e limão. O meu prato é lindo, rosa e branco, de cerâmica. Comi devagar, sentido o sabor de cada coisa que eu havia colocado no prato... em lágrimas. Assim que acabei de comer, lavei os pratos. Havia sabão e água pra isso.
Carolina viveu o impossível.
Iniciei o livro pensando em várias possibilidades na tentativa de resolver o problema da fome naquele contexto. Porque ela não plantava... Porque não fez acordo com algum feirante... Se fosse eu...
Da metade do livro em diante, entendi. É covarde a minha comparação. Os dados sobre insegurança alimentar apontam que há em torno de trinta e três milhões de pessoas que não sabem o que vão comer.
É impressionante como a descrição é poderosa...
Fico em silêncio, deixo as palavras de Carolina Maria circularem em mim...
segunda-feira, 1 de maio de 2023
Mini baratas
Hoje eu acordei com a luz do sol no talo na minha cara.
Gosto de dias assim, é um privilégio o sol esturricar na cama. Dormi com a janela e cortina aberta. Fechei as cortinas e dormi mais um pouco. Foi bom ter escrito ontem, um pouco todo dia pode me ajudar a descrever mais e melhor. As roupas claras secaram, passei as capas do sofá e embalei ele de volta. Não ficou do jeito que eu queria, mas vou me acostumar até a mamãe chegar. Precisa de um capricho que só ela tem. Ao menos está limpinho. Fiz um mistura de batata doce, aveia e ovo. A minha banana acabou. Parecia que ia ficar bom mas não ficou. Eu não gosto mais de batata doce e não suporto mais nenhum tipo de banana que não seja a prata. Coloquei roupa de treino, tênis, joguei o lixo, passei em frente à academia, perguntei até que horas ficava aberta. Até as 22:00. Passei direto e fui ao supermercado, era quase 13:00. Comi um pão de queijo com recheio de frango. Procurei por alho de verdade e não tinha, comprei aqueles triturados de pote e fiquei chocada como aquilo tem de tudo. O cheiro é horrível, nem parece alho, nunca mais eu compro. Fiz uma comida nutritiva, boa, simples. Não gostei de nada. Improvisei um altar e comprei uma vela de sete dias, rezei um pouco, sigo tentando merecer o tal do livramento duplo do mês de maio. Decidi que gosto de meia luz e não aguento mais essa luz estridente em cima de mim quando escurece, mesmo sendo amarelada e linda, tá demais. Tomei banho com a iluminação da vela e gostei. Vou ver preço de abajour e castiçal na internet. Comprei chá de camomila de saquinho. Não é o mesmo gosto do matinho seco, mas dá menos trabalho na hora de fazer e lavar. Ao menos à noite queria algo mais simples que fizesse menos sujeira. Vou ter de comprar um de qualidade melhor, mas não sei qual.
Acabei de ver uma luminária de mesa na amazon. cinquenta e cinco reais. a luz é suave e não ofusca, sem danos aos meus olhos. ecológico, seguro e confiável. sensível ao toque, cabe na palma da mão. gostei da descrição, melhor que muita gente. vou deixar as velas no banheiro. o título desse texto e a motivação para escrever, foram as mini baratas que achei debaixo da pia. quero dormir. amanhã verifico como posso tira-las de lá. o que mais me desespera, é que são filhotes. acabei de ver no google que a cada ninhada são em torno de 30 a 50, meu deus...
domingo, 30 de abril de 2023
Ano novo
Hoje é o último dia de abril de 2023. Acordei tarde, enrolei pra levantar, decidi ler um dos livros que a tia Jane me enviou pela tia Rama. O título do livro é "Organize-se num minuto: 500 dicas para pôr ordem em sua vida". Achei divertido começar a ler esse livro com a casa virada do avesso. Fui até a página 180 e resolvi ouvir quais seriam as boas novas astrológicas para o mês de maio. Assisti atenta à uns quatro vídeos e fiz um resumo escrito e mental sobre o que foi dito. Em linhas gerais, será um mês bem desanimador, vou estar cansada, exausta e com dificuldades de comunicação em grupo. Disseram também que é para eu ficar em silêncio, mesmo sabendo que algo de ruim pode acontecer à terceiros. Que é para eu evitar bater de frente, pois será um período de avaliação e espera. Apesar do roteiro desanimador, teve uma parte interessante. Foi pedido que eu me aprofundasse e explorasse as minhas raízes, que soltasse o controle sobre as coisas e me "rendesse à jornada". Para o amor não veio nada, achei um horror. Geralmente vem algo sobre fogo ou terra no meio dos avisos e cuidados, mas dessa vez não veio nada, nada. No último vídeo, meio aleatório e um pouco mais cristão, havia um aviso crítico: Deus está me protegendo e vai me dar um livramento duplo.
Embaixo da minha cama organizei algumas sacolas com roupas de frio para aliviar um pouco o meu guarda roupa durante o verão. Sempre tenho a impressão que tenho roupas sobrando, ou algumas que não uso que não precisavam mais estar ali. Essa época do ano é considerado outono em São Paulo. Tirei as duas sacolas com roupas um pouco mais quentinhas debaixo da cama e separei o que iria lavar e o que iria doar.
Enquanto escrevo aqui, maio chegou. Bebo um chá de capim santo e mangarataia na minha caneca vermelha que diz assim "cem anos de história e memória". É da Pinacoteca. Fui verificar em que ano ela foi fundada: 1905. Comprei a caneca há 18 anos atrás, em 2005. Não faz sentido, não lembro de ter vindo em são paulo em 2005. Talvez tenha comprado em 2007, e talvez tivesse essa caneca comemorativa de ponta de estoque... não sei.
Decidi voltar a escrever para treinar a escrita, mas também pra observar a maneira que tenho entendido o meu mundo. Talvez tenha entrado num fluxo um pouco sombrio que me assustou.
Levantei, lavei o cabelo, a louça, as roupa claras, o chão da cozinha e o banheiro. Ontem manchei meu sofá lindinho de sangue, fiquei bem triste. Na tentativa de limpar ficou pior. Fiz uma mancha branca com a água sanitária. Quase chorei. Com a ajuda de uma tesoura, consegui tirar a capa, aproveitei e coloquei tudo na máquina de lavar, deixei de molho algumas horas. A estrutura dele com madeiras e almofadas claras, me permite fazer essas trocas sem danificá-lo. Tô bem satisfeita, posso virar ele do avesso. Queria que a mamãe estivesse aqui, acho que um apoio moral. As manchinhas de gordura e vinho que tinham nele e uma leve poeira acumalada nas extremidades, sumiram. As capas estão secando, vai ficar novinho e limpinho. Gostei.
Minha geleira tá vazia. Tem um potinho de geleia de morando bem gostoso, alguns ovos, a metade de uma cebola roxa na lateral, alguns molhos que eu nunca uso. Um restinho de tapioca e farinha do uarini que a tia Rama trouxe, e uma batata doce na gaveta debaixo meio murcha. Ainda tenho feijão preto, lentilha, um macarrão de beterrada que eu ainda não provei, mil quilos de capim santo e um restinho de milho pra pipoca. Queria castanha de caju, as vezes eu acho que gosto mais delas do que a castanha normal. Não sei se o supermercado abre amanhã, mas fiz uma lista de compras: frango, cenoura, batata, alho, calabresa, cebola branca, tomate, escova e pasta de dentes, banana.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
(re) nascimentos: descansa o pai, nasce a filha
Ontem, em frente a casa do eletricista, o homem de família descansou.
O maior coração do mundo, parou... diante do seu melhor amigo e companheiro, Regis.
Era fim de tarde, tinha o risco de chover, papai errou o caminho para buscar a toalha de mesa suja de vinho das festas de Natal. Andando pelas calçadas do Dom Pedro, viu o tio Marcelo deitado numa maca, já em repouso. Foi tudo muito rápido até a ambulância chegar, ele disse.
Na tentativa de protegê-lo, de não deixá-lo sozinho, de acompanhar aquele coração que ainda batia, papai buscou Maria, a Tia Rama, e o seguiu. Em poucos minutos, a notícia: o homem de família descansou. Ninguém acreditou.
Dois bebês se aproximaram: Evellyn e Diogo.
O homem mais sábio do mundo, pediu ao primeiro bebê que passasse a dirigir, ele não tinha condições de continuar aquela viagem, suas pernas pediam ajuda. O choque o abateu, continuou sem acreditar. Descansa o bebê, nasce o condutor, o doutor do cuidado.
A filha bebê, em prantos, espera o corpo do pai. Descansa a criança, nasce a filha mulher.
A morte e o renascimento andam juntas. Não sem dor, não sem tristeza, não sem a beleza dos encontros e reencontros.
Tio Marcelinho ensinou sobre amor incondicional e viveu o seu maior desejo: ter uma família, esposa e filha. Lutou por ela até o fim. Acreditou no inacreditável, veio a cura. Conseguiu, venceu, todos nós ganhamos com o seu amor, seu exemplo, sua força, alegria e generosidade.
Na última vez que nos vimos, ganhei um litro de açaí, dois quilos de farinha e um pijama rosa com cavalinhos brancos. Além dos presentes, muitos abraços, várias palavras de cuidado e incentivo. Isso é ser família.
Pergunto ao papai como está a tia Simone. Ele me responde que está nos braços e abraços das irmãs. Pra mim, não existe outra maneira de viver senão entre os braços dessas mulheres que curam.
Eu também não acredito, sigo flutuando sem acreditar. Liguei pra minha irmã, quem me atende e consola é o Márcio, meu sobrinho querido: "oi tia rosse tudo bem"
Havia sonhado com ele na noite anterior. Me emociono, fico sem palavras, deixo ele falar. A vida e a morte se complementam. Descansam e choram os adultos, os bebês e as crianças vem pra nos curar e ensinar a natureza dos ciclos, dos renascimentos. Quando uma respiração termina, outra se inicia. Meu coração está com todos vocês, minha família querida.
domingo, 9 de janeiro de 2022
O ano passado (2021 - 2022)
"Saudações... "
03 de janeiro de 2021
*
"Casamento: valorizar coisas boas para assegurar estabilidade e segurança. A comunicação e o diálogo ganham força, assim como a confiabilidade, fidelidade, responsabilidade e honestidade. É a busca da intimidade autêntica".
Mello, capitalismo tardio e sociabilidade moderna. p. 99.
*
"Delicadezas... recolhido... introspectivo... sensível... delicado... Manaus... queria saber mais de ti... desculpas... retomar... 25 de fevereiro... consiga."
10 de março de 2021.
*
"Passando para avisar que SP colapsou. Se precisar de alguma coisa, avisa, fica fechadinha aí".
Mari, 12 de março de 2021.
*
Comprei o meu primeiro apartamento.
22 de março de 2021.
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"tua voz tá circulando... tudo funciona"
29 de março de 2021.
*
"casamento, filhos, relacionamentos"
"a gente venceu"
14 e 17 de abril de 2021.
*
"As boas relações contam muito aos profissionais de nível superior em começo de carreira"
20 de abril de 2021.
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"Sorte de Hortolândia que está recebendo você, que recebeu você".
05 de maio de 2021.
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? (11:23)
15 de julho de 2021.
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"Cara, fica calado que ela sabe mais que todos nós aqui nessa sala"
João, 21 de julho de 2021.
*
Gin tônica
17 de agosto de 2021.
*
"Lugar que exista, que meus dilemas possam ser suportados e que eu possa ser, falar, da intensidade que puder e quiser".
Terapia, 27 de agosto de 2021.
*
"Você é livre"
Mamãe, 17 de setembro de 2021.
*
"- eu também vou ter uma casa um dia.
- claro que vai".
21 de novembro de 2021.
*
"- foi eu que desenhei esse pirarucu.
- vou tatuar ele no meu braço."
12 de dezembro de 2021.
*
"trabalhe duro e seja gentil"
Meu primeiro desmaio na vida.
14 a 19 de dezembro de 2021.
*
Cananéia e ilha do Cardoso.
28 de dezembro de 2021 a 02 de janeiro de 2022.
O ano retrasado (2020-2021)
"Rua abolição, 193"
*
"- Você é transparente e muito seletiva.
- Pensa que é fácil ser eu
- Você que lute".
25 de fevereiro de 2020.
*
"Ocupar meus papéis, fazer o que deve ser feito"
*
"- Hei, não esquece de mim durante a quarentena, tá?
- Só se você não esquecer de mim tbm
- rs... feito"
... brisa verdejante dos trópicos...
22 de março de 2020.
*
"Primeira aula no PPGAS USP. Antropologia do Direito com Ana Lucia Pastore"
23 de março de 2020.
*
"Tem um aspecto bonito disso tudo, que quando acontecer, se tudo der certo vai acontecer, vai ser lindo, vai ser lindo, que a gente vai tá com essa gana, essa energia, esse imaginário, e acho que quando botar isso pra ser vivido, vai ser potente, não é?"
22 de abril de 2020.
*
"Desculpa"
29 de junho de 2020.
*
"O feitiço é uma conversa"
"As palavras são parte da ação e equivalentes a ela"
"Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar"
25 de agosto de 2020.
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"Delicadeza do que não é dito... quando pudermos, tenta de novo"
30 de agosto de 2020.
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"Você é uma pessoa simples. Nem todo mundo faz o que você fez"
Tia Si, 07 de setembro de 2020.
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"Imersão hipnótica, insaciável curiosidade, fascínio, gosto excessivo pelo detalhe, disciplina diária, escuta apaixonada que devotei a suas palavras, generosidade muda"
Bruce Albert, sobre o trabalho com Davi Kopenawa, 11 de outubro de 2020.
*
"Afasta os maus pensamentos, principalmente noturnos, e vai com serenidade, você tem trajetória, tem hábito de leitura que significa 0,5% nacional, tropa de choque total, você leu milhares de páginas, sintetizou, tem ideias em várias áreas. Eu sei com quem estou falando - self confidence - que não é falta de modéstia, nem ingenuidade, auto confiança necessária para sobreviver e síntese".
Mr. Hide, 15 de outubro de 2020.
*
Meu artigo foi elogiado e tratado como modelo para os demais pesquisadores.
DPI USP, 22 de outubro de 2020.
*
"A boa notícias é que você pode ganhar uma plantinha nova esta tarde"
Mari, 24 de outubro de 2020.
*
Mamãe recebeu alta do covid
20 de novembro de 2020.
terça-feira, 19 de outubro de 2021
Estação ana rosa e o mistério das coisas
Canto XXXIX
O mistério das coisas, onde está ele
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
s.d.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.
- 63.
São Paulo, 04 de outubro de 2021.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.
- 63.
quarta-feira, 15 de setembro de 2021
O ralo da pia
Ontem a pia da cozinha entupiu.
Aquela rodinha pequena, um emaranhado de fios de aço que não deixa os restos de qualquer coisa passar, foi esquecida durante o tempo que habito por aqui.
Não imaginei que seria tão grave.
Mandei essa foto para o grupo da família e meu pai me ligou quase imediatamente:
- Oi, filha. Está com problemas domésticos? (risos). Você vai precisar abrir o cano embaixo da pia e tirar o que tiver atrapalhando a água passar;
- Pai, aqueles ácidos, tipo diabo verde, não adianta? Vou precisar colocar a mão nisso? não quero.
- Vai, não tem jeito.
A pia passou da manhã até o fim de tarde assim, com essa água parada, suja e com alguns restos de sabe-se lá o que boiando. Com o tempo quase sincronizado ao entupimento da pia, tive que ensaiar um pedido de desculpas.
Antes tarde do que mais tarde.
A sensação de soco no estomago que nunca tomei, passou alguns dias me perseguindo. A garganta e o cano entalados marcaram a importância daquela peça simples, barata e tão fundamental: o ralo.
Assim que desliguei o telefone e ter sido premiada pelo maior vexame do mundo, minha mãe me ligou na sequencia para explicar como desentupir o cano. Não deu tempo de respirar nem processar a ressaca moral.
- Filha, coloca uma bacia embaixo da pia para não ter risco de molhar tudo. Se você estiver com nojo (risos) calça as luvas de borracha. Assim que a água toda sair, joga na pia do banheiro e procura identificar o que pode estar ali dentro. Tira tudo. Ainda bem que estava no sifão, quando o entupimento é mais dentro do cano tem que quebrar a parede. Usa sempre a tela de proteção da pia. E nunca tentar empurrar resíduos dentro do cano.
Quando a água inteira escorreu, guardei as panelas, fechei as portas, lavei a pia e algumas coisas que estavam por ali. Olhei pro ralo e chorei.
sábado, 26 de junho de 2021
Encontro com Dorian Gray*
Dorian, homem lindo, encantador, daquele que faz a barriga doer à primeira vista. tudo parecia perfeito. A companhia, a risada, as ideias. Até que um dia eu vi o pedaço do quadro. Aquela parte feia que não revelamos a ninguém. Isso murchou a minha paixão. Meu encantamento se transformou em apreensão. Quase medo. Tinha medo de alguma agressividade contra mim. tinha medo de ser atacada e morrer nas suas mãos... logo suas mãos, tão belas. Que sempre me tocaram com ternura.
segunda-feira, 7 de junho de 2021
palavras para não esquecer
esbugalhar
estribuchar
escangalhou
espetar
azular
rachar
esbagaçar
arredar
zimpar
segunda-feira, 24 de maio de 2021
A menina deusa
Era uma manhã de 1994, quem lembrou foi a Tia Bia.
Na época, ela tinha começado a namorar o filho da Carminha. Estávamos todas na casa da vovó Ana, talvez num fim de semana porque a Vivi estava lá. Um grito veio de fora: tem uma menina morta na rua violeta.
Eu, minha imã, a Mara, Viviane, Fabiana e Silvana calçamos nossas sandálias de borracha e corremos azuladas, enfrentando o asfalto quente das ruas do Alvorada para vê-la. A morte era algo curioso, corriqueiro, mas não em série, como se fôssemos baratas borrifadas com veneno, sem ar. Disseram que Manaus foi um experimento para a suposta "imunidade de rebanho", coordenada pelo Governo Federal. Não vamos esquecer.
As mortes podiam ser de "velhice", classificada por nós como uma morte sem graça. Não tínhamos a menor vontade de ver, a menos se fosse de algum amigo da vovó ou do vovô, daí íamos acompanha-la para tomar café e comer "bolacha de motor". Era quase uma obrigação social. O morto por assassinato causava um certo receio e até proibição dos pais de ir ver o defunto. Imaginava-se que naquele instante seu algoz iria aparecer para uma suposta chacina ou que os que estavam velando o de cujos, não eram flor que se cheire. No máximo, a vovó Ana aparecia na casa da mãe e a consolava alguns dias depois.
Um outro tipo de morte, a acidental, dava o que falar... na maioria dos casos, "o caixão estava lacrado de tão feio que ficava". As de incêndio tinham muito mais prestígio, víamos os vestígios das cinzas, a marca de fumaça nas paredes, os pedaços de pau que tinham se transformado em carvão e alguns brinquedos e panelas que tinham ficado pretas, mas não tostadas totalmente. Era um frisson se aproximar do grupo e ouvir as histórias que causaram o pior. Passávamos dias explicando as versões mais mirabolantes que tínhamos ouvido, sempre aumentando um conto, a depender do tipo de ouvinte. Exagero... nunca! Descrição fiel do que tinha acontecido, "ouvimos os parentes", era um fato. Jurávamos de pé junto: foi sim! era sim!
Mas o suicídio... esse sim era digno de plateia.
Chegamos quase juntas, umas correram mais rápido que outras. Avistei a casa que ficava na esquina. Ela tinha janelas amplas, de madeira. Estava toda aberta. O telhado era de zinco com os pregos aparentes, reforçados com pedaços de borracha para que a chuva não entrasse pelos buraquinhos. Olhando de longe, pareciam mini cogumelos flutuando naquele mar prateado. As paredes externas não tinham reboco. Era uma espécie de tapete feito com quadradinhos laranjas, melhor, um bolo xadrez com recheio de cimento. Esse era o revestimento do pé da parede ao teto. A casa parecia ter dois cômodos. O quarto-sala e a cozinha. A Mara foi a primeira que entrou e a primeira que saiu. Estava assustada, seus olhos verdes estavam arregalados. Gritou várias vezes: "não entra que tá feio, a língua dela tá perto do pescoço". Pela descrição, parecia a versão da Kali, a deusa Hindu.
Eu sempre fui medrosa, hoje tenho orgulho. Mas à época, me causava sérios problemas de socialização. De alguma maneira, nesse dia não tive medo. Parecia que não havia registro, na minha cabeça de menina, daquela situação. Logo, não conseguia associar a nada que me deixasse insegura. Portas e janelas abertas, até o tucupi de gente ao redor, incluindo crianças, adolescentes, adultos, idosos. Sol no talo. Devia ser umas nove ou dez da manhã.
Reparei que a moça estava de pé, havia uma cama embaixo, talvez em uma tentativa remota da família confortá-la, pós morte. O lençol era claro e estava bagunçado. Tinha a pele negra e os cabelos longos e ondulados até o ombro. Nenhuma gota de sangue. Me lembrou uma boneca nova, presa na caixa rosa pelo pescoço com aqueles arames brancos recém saídas da loja. O short curto e a camiseta de alça, marcavam seu corpo de moça. No auge dos meus onze ou doze anos, tudo que eu queria eram os seios e a bunda grande, iguais as mulheres que apareciam no Faustão e na banheira do Gugu.
Ela não estava na caixa, quer dizer, no caixão. Tinha quatorze ou quinze anos. A debutante continuava pendurada ali, pelo pescoço, aos olhos de quem quisesse observar.
As mãos rígidas estavam empunhadas, os braços faziam uns 90 graus. Parecia bater numa mesa imaginária de um jeito imponente, como quem exige, reivindica - finalmente - algo que não é dado. Não lembro dos olhos, da sua expressão, nem da língua, como a Mara descreveu na última vez que nos falamos ao telefone, pedindo para Clarinha - minha afilhada - se afastar, pois trava-se de conversa de adulto. A Vivi, contagiada com a narrativa sobre a moça quase 25 anos depois, lembrou que ela vestia camisola, melhor, um baby doll rosa. Acrescentou que a corda que estava amarrada no caibro de madeira da casa era azul, a mesma que usamos para aumentar o tamanho da rede.
Ninguém nos proibia de entrar, não tinha polícia e não lembro de nenhum parente chorando a morte dela. Dezenas de olhinhos assustados e curiosos faziam a vigília da moça suicida, estudando cada detalhe, matutando sobre os porquês. Porque? Porque? Em pouco tempo, descobrimos que a motivação havia sido causada pela dor do amor não correspondido. Ela havia escrito uma carta com caneta azul numa folha arrancada do caderno da escola.
Não lembro quanto tempo passamos ali.
Aquele bando de meninas pálidas, magrelas, netas e filhas da dona Ana e do seu Arlindo, voltou pra casa espalhando para o mundo o horror visto. O que foi aprendido ali?
De acordo com Émile Durkheim, um homem, há quatro tipos de suicídios: o egoísta, o altruísta, o anômico e o fatalista. Todos a partir das forças sociais que ele chamou de integração social e regulação moral.
As duas classificações são difíceis de engolir: o quanto podemos estar integrados socialmente sem estarmos seriamente doentes? Controlar uma sociedade através de uma regulação moral me parece igualmente problemático se formos considerar que querem que nos comportem, especialmente mulheres, de maneira previsível e esperada.
Na adolescência, meus pais resolveram assinar a revista Capricho para as três meninas da casa. Acho que uma tentativa de ficarmos "informadas", mas também que tivéssemos acesso a assuntos que talvez, tivessem dificuldade de conversar conosco: sexo e temperamento.
Lembro que nessas revistas, havia vários testes e manuais de como não errar no primeiro encontro, e nos demais, caso existissem (ufa). Tudo era baseado em agradar aquele garoto, aquele homem. O pesadelo era que ele sumisse, desaparecesse, o famoso e mau utilizado recurso do "cancelamento". Outro dia falo um pouco mais sobre os manuais contemporâneos para mulheres disfarçados de literatura e canais informativos de relacionamento.
Um comportamento desviante, no caso, um suicídio, é sinal de que alguns elementos do controle social não estão funcionando conforme o esperado ou previsto. O que aconteceu com ela?
Seguimos.
A vontade era que ela estivesse com um colar de crânios e uma cabeça na mão, de um outrem, como a Deusa Kali ou em uma das pinturas de Caravaggio.
Vez ou outra, essa moça aparece nos nossos pensamentos. Trocamos memórias, vamos montando um quebra cabeça sobre nossas impressões, falamos entre risos nervosos sobre nós, ela e as circunstâncias da morte. Não perguntamos de quem ela era filha, neta, tão pouco seu nome. Permaneceu anônima. Temos um desejo profundo e secreto de esquecê-la.
Nesse dia, a Mara passou a noite agarrada na vovó Ana. Eu, a Vivi e a Lissinha passamos a noite grudadas, quase sem pregar o olho. Não fizemos nenhuma promessa. Dormimos, mas não sem pensar na nossa menina Deusa, vestida de rosa, que traz tanto mistério, euforia, força e terror.
sábado, 13 de março de 2021
errante navegante
"Posso ser um comunicador errante", ele disse.
Para a astrologia, o planeta vênus é o representante simbólico da nossa forma de amar. Meu ascendente é em virgem, minha vênus também. Há muitos anos atrás, um amigo perguntou sobre a vênus, eu não tinha a menor ideia. Rapidamente, fizemos um mapa astral na internet. Ele pegou um livro de muitas páginas, leu sobre o significado e recebi um olhar de consternação que nunca vou esquecer. Era quase um suplício ter a vênus justamente em virgem. Não entendi nada, mas fiquei com aquele carimbo marcado com ferro quente bem no meio do meu coração. Talvez ele não saiba, se depender de mim, nunca vai saber, mas eu fui tomada por uma tristeza tão grande e me convenci que estava destinada a nunca amar e ser amada por ninguém devido essa maldição dos astros que tinha acertado logo a mim.
Nas últimas semanas, de maneira recorrente, perguntam se estou bem.
Respondo com toda sinceridade do mundo: sim, estou.
Na sequência, ouço o seguinte: como é possível? pandemia, isolamento social, lockdown, 2.152 mortos por dia, bolsonaro, pazuello, falta de leitos, colapso, falta de oxigênio
Vou explicar.
Eu acabei de chegar do holocausto em Manaus. Minha irmã, um pouco antes do oxigênio acabar nos hospitais, teve que ser operada as pressas, ela retirou o apêndice e ficou de resguardo por algumas semanas. As crianças precisam comer, os idosos também. Além disso, os vivos precisam ser consolados pelas perdas dos seus mortos e doentes recém infectados. Minha mãe faz esse papel.
Cresci entre agricultoras, parteiras, enfermeiras de guerras, desenhistas, cozinheiras de mutirões. Sou a primogênita de três mulheres e minhas antecessoras, foram e são matriarcas. Um ponto importante é a afirmação que uma criança é responsabilidade de um grupo, de um coletivo, de uma comunidade. Nunca, apenas de um casal ou uma mulher. É humanamente impossível. Destaco isso, porque eu não seria quem sou, sem a minha tia-madrinha Ledina, tia Rama e a (tia) Pati, todas irmãs da minha mãe. É nesse imperativo, nessa busca por excelência no saber fazer, nesse caldeirão de mulheres, que torna-se pessoa, torna-se humana.
Se eu digo que não estou bem, que estou com medo, que é perigoso, que eu corro riscos, que estou deprimida, que me sinto fraca, que não tenho mais forças, que estou cansada, teria uma torcida para me acolher e proteger, não sairia de casa, não teria feito e visto metade das coisas que já fiz e vi na vida. Na verdade, teria feito, mas só eu sei o desgaste emocional que isso me causaria. Para ser uma mulher forte, nesta família, é necessário furar essa barreira de proteção inabalável. É curiosa essa contradição. Minha avó era forte, minhas tias são fortes, minha mãe é forte, eu sou forte. Mas não somos, ou somos? o que é força? não sei. Sentir e chorar são os verbos favoritos desta família. Destaco aqui, uma força em agir, um poder de ação, no prover, no saber-fazer, na verdade. E isso se estende, imagino eu, a uma condição da mulher, ao menos neste microcosmo que descrevo.
O que são os meus hiatos, então? resistência a tudo isso que falei e não concordo mais? segundo os resultados dos meus vestígios arqueológicos, vulgo terapia, é uma forma de entender, contemplar o que vivo, sinto, experimento. Achei bonito, isso também sou eu.
Seguimos.
De acordo com Silvia Federici, autora do "Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva"*, a reprodução da vida e a força de trabalho da mulher foi negligenciada pelo Estado. Em linhas bem gerais, o ponto de vista dos não assalariados - que trabalham nas cozinhas, nos campos, nas plantações, cuidadora de crianças e idosos fora de relações contratuais, cuja exploração foi naturalizada, é creditada uma inferioridade natural.
Silvia, já adianto minhas desculpas em te citar desse jeito porco.
*acabo de lembrar que preciso devolver o livro da Mari.
Este violência-negligencia estatal pouco importa, neste caso, para as mulheres da minha família. Há um certo prestígio, hierarquia e ordenamento nestes saberes-fazeres que tecem uma sociabilidade cotidiana que eu demorei para entender. Circular nesta mini sociedade, nesta cosmologia, nesta aldeia de mulheres que foi meu lar durante toda a minha vida, é se colocar neste fluxo de fazeres. É importante que seja à sua maneira, com uma certa distinção entre as demais, mas com a incorporação do saber anterior. Trata-se de um reconhecimento real. É necessário acolher, acatar, reverenciar, creditar o poder da bruxa que veio antes de você, se não, nada feito.
Além disso, como bem explicou a mãe Darabi de Itabuna, meu orixá (cabeça) é Oxaguian, filho de Oxalufan. É conhecido, também, por ser o Oxalá jovem. De acordo com Pierre Verger, "é um orixá do dinamismo e movimento construtivo, da cultura material. Seu domínio são as lutas diárias por sustento, trabalho e a paz. Oxaguian incentiva a superação e o provimento. Nunca entra numa batalha para perder, sempre ganhando suas lutas."
Dito isso, além dos astros e da bela mitologia yorubá, tenho a genética, a ancestralidade e o contexto social em que elas e eu crescemos. Posso estar falando uma grandíssima abobrinha, mas eu me sinto desta maneira. Sei também o peso que foi e é nos apresentar assim. Sim, bancamos.
"há pessoas que vão tomar banho e ficam chorando copiosamente embaixo do chuveiro, gosto de saber de situações assim, não me sinto tão miserável", ele disse.
A palavra "miserável" me chegou como uma bordoada. Admitir uma fragilidade, uma dor, um não saber, é permitir que o outro te veja vulnerável para que você se permita ser vulnerável também. Eu não aprendi isso em lugar nenhum. O que eu faço com as mulheres da minha vida? E agora?
Sobrou eu e o silêncio.
Dizem que há uma beleza neste movimento. Adianto aqui que não consigo nem começar uma explicação. Qual o poder imbricado nessa delicada narrativa-diálogo? O que há em compartilhar algo que experimentamos como incerto, risco ou exposição se isso nos deixa ansiosos e com medo? Sigo curiosa.
O que faço com esta mulher da guerra que - também - sou? O fantasma da vênus em virgem me atormentou durante toda essa conversa. Fiquei ali, atônita, muda. A errante ali, era todinha eu, sem saber o que fazer com a minha espada. Aquela praga rogada pelos astros, sina dos marcados com ferro e fogo que estavam fadados a serem descobertos como almas sem coração, insensíveis, entregues ao fluxo da ação, do provimento, defesa e, caso necessário, violência. Pra piorar, tenho quatro planetas em libra, incluindo meu sol, e quatro planetas em sagitário. Em resumo, para não iniciados, significa que na mais completa decadência, eu me sinto absurdamente mais bonita, mais atraente e devidamente munida de um plano de fuga infalível e impecável. As minhas melhores viagens e fotos - risos, foram nos períodos de maior miséria humana. É um inferno delirante ou talvez meus anticorpos astrológicos para que eu não me sinta tão desgraçada assim.
Aos desavisados, poderia parecer uma mera positividade tóxica, alienação, arrogância, ou um simples coração gelado. Não é, mas tudo bem se for. Minha lua em peixes me persegue. Ouço uma música e subitamente saio do eixo, é desesperador quando tenho um prazo e ela fica ali, me espreitando feito uma ladra. Leio um poema, fico obcecada por dias. Lembro de um diálogo bonito e fico louca para registrar na agenda ou refletir até secar todas as possibilidades de combinações de palavras e significados. Falo com meu sobrinho de seis anos e fico horas chorosa de saudade. Tem dias que todas as dores e euforias do mundo estão dentro de mim.
Especialmente nos momentos de desespero, tomo um banho, bebo água, faço uma máscara de argila e planejo meu dia seguinte na agenda. É assim.
Ao que interessa: como acolher um lindo miserável com lua em leão de fogo e vênus em câncer. Resolvo fazer um bolo ouvindo música. Eis que as resposta surge em forma de redenção e livramento:
Observação importante: Theodor Adorno em "as estrelas descem a terra", faz uma crítica corrosiva ao expor como o capitalismo tardio tem força nas narrativas sobre os astros. A minha cara de pau não tem limites ao juntar essa torcida organizada para fundamentar uma singela paquera de confinamento. Este célebre autor não foi mencionado no texto, pois poderia me desmoralizar pelo encantamento, talvez, indevido. Agradeço, porém, dispenso.
Adorno, você será ignorado.
sábado, 2 de janeiro de 2021
Distinção x acumulação de capital
Hoje fui fazer exame de sangue para saber se estava com covid ou não. O nome do exame era "Coronavírus - covid 19, IgG e IgM". Em ambos, deu "não reagente" e isso significava que eu não havia pegado em nenhum momento do ano passado nem agora. Ainda que eu tenha apresentado quase todos os sintomas. O fato, é que aproveitei o "passeio" para observar Manaus.
Fiquei pensando na quantidade de significados que eu depositava em algumas partes da cidade, em alguns bairros, estabelecimentos e isso inclui objetos, roupas, sapatos que hoje vejo como pura bobagem. Fiquei pensando no que eu poderia ter economizado e na importância da experiência, do deslocamento, nas muitas linguagens que ela te oferece.
Algumas verdades são ocasionais, eu sei. Mas o fato é que hoje tive esta revelação: acumular o máximo que puder. Tenho planos.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Baleias
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Kate Bush e Emily Bronte
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
Cólera e covid-19
Faz três dias que sinto dores no corpo. Estou em Manaus desde o dia 19 e achei que a "temporada de covid" chegaria pra mim a qualquer momento.
Acontece que curiosamente eu tive quase os mesmos sintomas no ano passado, exatamente na mesma data (pós-natal), quando estive na casa da Pati em Niterói. A grande diferença era que o motivo de ficar de cama com dores absurdas no corpo, foi uma garganta inflamada na presença do meu avó e alguns tios e tias.
Tentei me observar. Não perdi olfato nem paladar, como andam circulando que são os principais sintomas. Em compensação, muitas dores nas pernas, costas, braços, lombar, nuca. Nenhuma posição era confortável. A menos ruim era deitar de lado, sem travesseiro.
No terceiro dia, não dependia mais de novalgina nem antigripais. Decidimos que caso as dores piorassem, iria ao hospital e caso elas diminuíssem, iria tomar dorflex, em último caso. Simples assim, um consenso coletivo de tratamento caseiro contra um possível covid. Não recomendo, procure um médico. Isso aqui é uma plantação de abobrinhas.
Faz três dias também, que leio um texto de 1847, da Emily Bronte. Até a página 212 já morreram duas mulheres estranhas, incríveis e um casal de idosos, com todo respeito, irrelevantes. Aparentemente do nada e de febre. A princípio, segundo uma busca rápida, a Inglaterra teve um surto de cólera que matou milhares. Mas isso não está claro no livro, é só uma hipótese.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Macroeconomia e o pequeno príncipe
Praia mole
A praia mole não foi a primeira que conhecemos na ilha. Nesse dia, acordamos cedo, subimos uma ladeira infinita e chegamos. Até ali, nada demais: água e areia. A descrição no meu guia era divertida:
"A praia mole é famosa por suas ondas de nível internacional e é conhecida no mundo todo por suas festas, especialmente entre a comunidade gay e lésbica. A praia é absolutamente bela, assim como a maioria das pessoas que nada e surfa por lá. Fica cheia, mas é parte do charme."
Havia um arvoredo bonito e logo nas escadas, me deparei com um par de olhos sequestrados sem perceber. Segundo a pensadora contemporânea Carol, são os "olhares aprisionados". Foi tão rápido e profundo que mal pude perceber que estava recém saído do mar com o seu brinquedo embaixo de um dos braços. Era um conjunto de olhos, pele, cabelos pretos e água.
Quase sem fôlego, continuei descendo. Não me passou pela cabeça olhar para trás, é quase o mesmo sentimento com estrelas cadentes. Faça o pedido e agradeça por ter visto aquela belezura. Seguimos.
Era muito cedo, a praia estava vazia e logo avistei um deus marinho caminhando em nossa direção. Dessa vez foi a minha vez de ter o olhar sequestrado, aprisionado. Quase congelei de nervoso. Ele percebeu, sorriu, disse bom dia e seguiu. Duas estrelas cadentes só pela manhã. Que praia!
Segundo a narrativa local, ela tem esse nome pela areia ser mole, fofinha. Definitivamente: só os fofos sobrevivem.
Notei que estava cheio de peixes no mar e não na areia. Decidimos fincar território, ou espalhar a canga, onde houvesse a melhor visão do cardume, um espetáculo a céu aberto. Minha maldita mania de não colocar grau em óculos de sol. A areia estava vazia, o mar cheio. Mas não para bobagens, tratava-se de algo seríssimo: surfar. Pairou um silêncio profundo de alguns minutos entre os três corpos na areia. Estavam tomados pela euforia da recém alforria do confinamento forçado de pouco menos que dez meses.
Um dos corpos passou a observar que tipo de onda apetecia a entrada ou quais eram os movimentos necessários para levantar e equilibrar. Qual a sensação de deslizar... parecia muito gostoso, ninguém saía da água.
Entrei no mar: mente quieta, espinha ereta e o coração tranquilo.
O assunto era unânime: "A água está uma delícia, perceberam como as ondas estão incríveis? Hoje é o melhor dia para surfar".
Eu fiquei imaginando em que contexto eu teria esse tipo de diálogo, senão ali.
Continuei brincando na água, encarando as ondinhas e ondonas. Era delicioso acompanhar o movimento da água e saber que existia uma muralha humana depois da rebentação. Eram muitxs! Nada me aconteceria e eu poderia continuar dançando naquela baladinha imaginária de mil sensações. Para os iniciantes como eu, a água estava vazia. Tudo acontecia mais adiante.
Me afastei da praia sem querer de tão gostoso que estava. Avistei minha prima bem distante e na areia, parecia preocupada e me chamando. Sem entender, nadei e voltei. Passei mais de duas horas na água e não tinha percebido. A beleza, de fato, sequestra. <3
Não pensei em tubarões, confiei. Confiei na experiência que as ondas me proporcionavam e fui avançado na medida que achava que podia. Confiei também na quantidade de pessoas, de mulheres que estavam surfando, era lindo de ver. Ninguém era extraordinário por isso, ainda que fosse. Eram humanos tanto quanto eu, que, com um pouco de técnica corporal, poderia fazer o mesmo. Quem sabe?






